18de abril,2026

ValenteCruz

ValenteCruz

Friday, 08 July 2016 17:00

Para lá do geocaching

Os clichés são comummente aplicados nos mais variados contextos e sujeitos. Aos poucos, estas atribuições vão conquistando a comunicação e facilitando o exagero. Por vezes lá se escuta que «O geocaching é mais do que um passatempo, é uma forma de estar na vida». Sinto alguma desconfiança sempre que escuto clichés, em particular os que terminam desta maneira. O geocaching é apenas um passatempo; quanto às formas de estar na vida, quaisquer que sejam, todas o são de forma intrínseca. Não obstante, através do geocaching e nos mais variados contextos, é possível vivenciar um conjunto de outras atividades que acabam por complementar o passatempo e enriquecer as experiências.

Capa - Lagoa dos Cântaros

O geocaching não se reduz à descoberta de locais; muitas vezes acabamos por nos redescobrir, ou pelo menos aprendemos a gostar que coisas que não imaginávamos e redefinimos os nossos limites. Depois da curiosidade inicial na procura de recipientes, quais Indianas de um tempo perdido, o êxtase vai acalmando lentamente e somos introduzidos em outras atividades, mais ou menos relacionadas, que de outra forma poderíamos não experienciar. No princípio é a cache; depois, a imaginação é o limite.

Serra do Marão

Por exemplo, sempre torci o nariz a andar pendurado em cordas, mas lá chegou o momento em que para encontrar uma cache foi necessário fazer rapel. Apesar da expetativa e nervosismo iniciais, a experiência revelou-se fantástica! Experimentei a escalada através do geocaching e desde então ficou a vontade de repetir. O mesmo aconteceu com o canyoning; já sentia um apelo natural por fazer progressão em rio, mas sempre o realizei sem material e com as condicionalismos associados. Por todas as razões, e em particular pelo facto de não me sentir muito à-vontade na água, nunca sonhei que um dia haveria de fazer canyoning. Depois de experimentar fiquei fascinado com o quão próximo poderemos sentir a aventura em segurança.

Vale do Vouga

De todas as atividades descobertas, a que mais me marcou foi o montanhismo. Sempre senti um apelo natural pelas montanhas e por espaços de elevada solidão. Gosto de reencontrar-me pelas veredas e subir ao alto de quem gostaria de ser. O geocaching veio exponenciar e concretizar essa paixão. Bastou uma primeira experiência de geocaching na montanha para perceber que este era o meu ambiente preferido para praticar o passatempo. Depois, com ou sem geocaching, a montanha passou a ser o princípio e o fim de muitas aventuras. Travessias e pernoitas deixaram de ser sonhos adiados e tornaram-se repositórios de grandes memórias!

Tendo como contexto o geocaching e partindo do fascínio pelas montanhas descobri o trail running. Quando surgiu o primeiro vislumbre desta modalidade estava ainda longe de imaginar o quão esta descoberta seria interessante e me levaria a quebrar mais algumas barreiras. Há cerca de quinze quilos atrás esticava-me no sofá e limitava-me a exercitar os dedos com o comando da televisão, vagamente desinteressado no que se estendia para lá da janela e do conforto da casa. Depois, é difícil transcrever por palavras o quanto me satisfaz e realiza todo o processo de vencer um desafio de ultra trail, desde a escolha da prova, a preparação, as dúvidas, as dificuldades, as esperanças, a prova propriamente dita, o sofrimento e o momento final, em que todas estas vivências se transformam num sorriso intemporal de felicidade pura.

Castro de Romariz

À medida que o geocaching foi proporcionando a descoberta de locais fantásticos e insuspeitos, um novo passatempo emergiu da sombra: a fotografia. Face ao manancial de oportunidades, começou a parecer-me que as fotografias não revelavam verdadeiramente a beleza dos locais ou dos momentos, o que me levou a querer aprender mais sobre a arte e o sobre o equipamento. Até então, a fotografia nunca tinha sido um fim. Depois, e também à boleia do geocaching, passei a acordar a horas improváveis ou a pernoitar em locais insuspeitos para assistir e fotografar o nascer do sol, em momentos que antes apenas existiam no meu imaginário, mas que entretanto se tornaram obrigatórios e fundamentais, ano após ano.

Para lá dos locais e atividades que o geocaching permitiu descobrir, falta enunciar o melhor de tudo: os amigos. Este é um dos aspetos mais marcantes do passatempo, pela facilidade com que se conhecem pessoas e se criam amizades. Tendo em conta o interesse comum, parece haver um elo natural entre geocachers. No final, vivência atrás de vivência, ficarão sempre os amigos e a certeza de que, se não for por mais nada, só por isso já valeu a pena!

Detrelo da Malhada

Artigo publicado na GeoMagazine#21 e em antoniocruz.pt.

Friday, 01 July 2016 17:00

sunrise@CântaroMagro_2016

 

Cântaro Magro

Mais um ano, mais um evento sunrise@Cântaro_Magro. Pela quinta vez fui assistir ao nascer do sol na formação rochosa mais emblemática da Serra da Estrela. O que começou como uma aventura que pretendia juntar natureza e literatura é agora um momento ansiado e inadiável, ano após ano. Como tem sido habitual, para além do momento referido juntaram-se dois percursos pela montanha. A experiência duraria até que as pernas soubessem manobrar a vontade e a resiliência persistisse.

Em busca do Vale da Candeeira

O encontro ficou marcado para a manhã de sábado (25/6) no estacionamento do Cântaro Magro. A ideia era descer aos covões e percorrer a rota do Maciço Central. No ano passado tínhamos feito a descida pela Via dos Mercadores, pelo que desta vez resolvemos saltar as dificuldades e descer pelo outro lado do cântaro. Apesar de inclinada, a distância é vencida num sopro. Após algumas passagens pela zona, conseguimos finalmente resolver um dos maiores mistérios modernos dos montes hermínios: a marca do carro, amolgado e retorcido, que desceu, há já largos anos, o vale glaciar aos trambolhões. Trata-se de um Opel Kadett!

Ribeira da Candeeira

À chegada ao Covão d’Ametade reencontrámos os restantes participantes que decidiram poupar os joelhos à descida acentuada e aproveitámos para almoçar. Iniciámos depois o percurso em direção ao Vale da Candeeira, subindo pela encosta do Vale do Zêzere. Passámos o acesso à Lagoa dos Cântaros e vencemos o último quilómetro até ao vale glaciar. Subimos depois pelo leito do gigante, acompanhando a ribeira. O que era plano e fácil logo se transformou em fechado e abrupto. Porém, os caminhantes vergaram as dificuldades e alcançaram a divinal Lagoa do Peixão, rebatizada pela proximidade semântica em Paixão. Pormenores à parte, o local é um dos segredos da Estrela mais agradáveis de descobrir.

Lagoa da Paixão

Subimos ao largo do Fragão do Poio dos Cães, um local de lendas e despedidas pastoris, e alcançámos finalmente o planalto. Prosseguimos depois pelo trilho e cirandámos as lagoas em busca de uma nova visão dos cântaros. Quando a encontrámos aproveitámos para descansar e percorrer com o olhar o que antes tínhamos feito com as pernas. A maioria do grupo seguiu depois em direção à estrada e aproveitei para ir em busca dos participantes que tinham ido ao topo do Cântaro Gordo. Logo no início da descida sorriu-me uma ideia e senti uma brisa de trail a percorrer-me a vontade. O corpo ainda ansiava pelo cansaço. Acelerei pela vertente do Gordo, patinei até ao Covão Cimeiro e subi ao Magro. Terminei a clamar por fôlego, mas quando me voltei e encarei a depressão vencida senti uma satisfação inefável.

Chancas

Enquanto esperávamos pelos aventureiros que iriam enfrentar a noite no gigante de pedra aproveitámos para jantar e ultimar os preparativos. Com as mochilas às costas e prontos para a subida, parecia que iríamos ter uma semana de sobrevivência. Um dos aspetos mais inolvidáveis desta subida é a apreensão de quem a faz pela primeira vez. Da estrada, parece uma ascensão impossível. Depois, é incrível notar a satisfação de quem venceu o desafio com um esforço menor do que imaginava. Chegar ao topo do Cântaro Magro é sempre um reencontro com excelentes memórias. Ali, as vistas não têm limites e os sonhos estão à distância de um sorriso.

Lagoa Chanca

A noite dos 13 decorreu sem sobressaltos. Os petiscos e as bebidas, muito espirituosas, confortaram-nos o estômago e a excelente conversa foi levada pela brisa, para mais tarde recordar. Todas as noites no cântaro são diferentes. Desta vez não esteve muito frio, mas até os cabelos ficaram orvalhados. Acordei antes das 4h30 e desci apressado o cântaro para ir buscar os restantes participantes. Quando lá cheguei encontrei os mesmos rostos céticos, de quem questiona a sanidade para ali estar àquelas horas e se é possível chegar lá acima. Esta subida também decorreu sem sobressaltos. Pelo trilho, mais de 30 luzes em linha seguiam a esperança de alcançar o céu da Estrela.

O momento

Já lá em cima, à medida que o horizonte foi clareando reencontrámos as vistas do dia anterior. Ao longe, o sol, ainda tímido, começou a espreitar por entre as nuvens. Os participantes estenderam-se pelo cântaro e foram registando o momento para memória futura. Já o sol se tinha erguido inteiro no céu quando tirámos a foto de grupo. Enquanto enquadrava a máquina lembro-me de pensar no quão fantástico é ter amigos, colegas e desconhecidos, muitos deles tendo percorrido centenas de quilómetros, que se disponibilizam para estar naquele local e àquelas horas. Lembrei-me também daqueles que queriam ali estar, mas que desta vez não puderam. E lembrei-me por fim do Roberto e do André, que ali gostariam de estar, não puderam, mas estiveram.

Momentos

Depois do amanhecer descemos do etéreo e reencontrámos o mundo que havíamos deixado. O grupo foi-se dividindo entre despedidas e promessas de regresso. Seguimos depois até à Torre e iniciámos a segunda caminhada do fim de semana. Pelo planalto da Torre, a dificuldade reduzida do trilho permitiu esticar o cansaço das pernas e apreciar as vistas comodamente. Fomos até à Penha dos Abutres, de onde se tem uma vista vertiginosa para Loriga, e regressámos à Torre, com um breve desvio pela Lagoa Serrano. Respondendo aos compromissos, despedi-me da Estrela a meio da manhã.

Penha dos Abutres

Porém, a experiência não terminou. Durante a semana fui recebendo os registos fantásticos de quem participou no evento. Aproveito para agradecer a participação e a bondade revelada. O que começou numa dimensão pessoal está a transformar-se numa multiplicação de perceções e sentidos. De certa forma, é como se fosse um livro. No início, a estória é de quem a escreve; depois, é de quem a lê e a sente. Eu, mais uma vez, senti-me como se fizesse parte do cântaro e ele fizesse parte de mim. E é também isso que me faz regressar todos os anos.

As minhas fotos deste sunrise@Cântaro_Magro podem ser consultadas aqui.

sunrise@Cântaro_Magro

Artigo publicado em antoniocruz.pt

Friday, 24 June 2016 17:00

Paraísos perdidos: Prado da Rocalva

À medida que o tempo vai desbravando os ritos da modernidade, existem cada vez mais locais esquecidos. A natureza vai recuperando o seu lugar, as casas transformam-se em ruínas e os trilhos vão-se desvanecendo. Cada regresso é um vislumbre do passado e uma reinvenção da memória. Em busca destes locais fantásticos, nasce aqui uma nova rubrica. Pretende-se mostrar, em vídeo e para lá das palavras, alguns destes paraísos perdidos.

Não haveria melhor local para iniciar esta aventura do que a serra do Gerês. Situada no coração da paisagem geresiana, a Rocalva é um dos seus segredos mais inolvidáveis. Para a encontrar é preciso peregrinar a montanha e suar a descoberta. Junto a este maciço granítico existe um prado que continua a servir de abrigo a pastores e caminheiros. No contexto do i2S Hiking, o percurso circular teve início na cascata do Arado, passou pelo vale da Teixeira, subiu ao Borrageiro e à Roca Negra e desceu depois pelo vale do rio Conho, passando pelo Poço Azul.



Localização: N 41° 45.203 W 008° 06.414

Percurso: track.

Música: Time (Hans Zimmer)

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