ValenteCruz
Antigamente é que era bom?
«Antigamente é que era bom!». Este é um desabafo tão explorado e repisado, nos mais variados contextos, que já se tornou um cliché ao qual é difícil fugir. Cada nova geração parece adotá-la como se fosse um legado de saudade, ainda que por vezes a definição de “antigamente” pareça uma linha indecifrável entre o presente e o passado. É difícil fazer uma generalização sobre o tema, mas valerá a pena tentar. Qualquer que seja a temática, sinto alguma desconfiança sempre que ouço esta frase, mas tal não invalida que o saudosismo nos bata à porta e que, obviamente, existam muitas pessoas que pensem dessa maneira. Parece-me contudo que de cada vez que preferimos o passado poderemos estar a ignorar o presente e a comprometer o futuro.
No geocaching, esta saudade do passado é também um lugar-comum. Não se tratará de uma vontade em inverter a marcha inexorável do tempo, mas sim de trazer para o presente o tipo de geocaching que existiu no passado. Mas que tipo de geocaching era este que tantas saudades deixa a alguns geocachers?
Pensando em termos de quantidade, a diferença é de facto significativa. Considerem-se então as duas vertentes do paradigma numérico: ser ou não ser seletivo? Para quem pratica(va) um geocaching seletivo, antes apenas tinha de abrir o mapa de caches para definir as que queria procurar; tratava-se de uma seleção natural por defeito. Encontrar 5 caches num dia pareceria um exagero de esforço e poderia significar muitos quilómetros percorridos. Atualmente, e para quem gosta de praticar um geocaching seletivo, temos uma emaranhada seleção por excesso. Tornou-se então mais difícil discernir quais as caches que se adequam aos gostos de cada um. Porém, para equilibrar a divergência, passaram também a existir diversas ferramentas que permitem fazer essa seleção. Poderemos escolher de acordo com a qualidade, a dificuldade, o terreno e os atributos; no limite poderemos até filtrar as caches pelos donos, ignorando os que eventualmente tenham previamente proporcionado experiências menos positivas. Na vida aprendemos a valorizar o que gostamos e a ignorar o que desgostamos; no geocaching podemos adotar uma estratégia semelhante.
Por outro lado, para quem não é seletivo, gosta de praticar geocaching de forma regular e ver o seu número de caches encontradas crescer de forma sistemática, o excesso de oferta será mais uma bênção do que um problema. Porém, é certo que a busca desenfreada de caches poderá conduzir a algum desinteresse; mais cedo ou mais tarde acabaremos por perceber que nunca iremos conseguir encontrar todas as caches e que as zonas apenas ficam totalmente “sorridentes” por um determinado período de tempo; inevitavelmente acabarão por surgir novas caches.

Considerando o aspeto da qualidade, a análise poderá ser mais ambígua. No fundo, dependerá do tipo de geocaching que cada um mais aprecia. Para quem gosta de encontrar um recipiente dedicado, a evolução é claramente positiva. Variando os contextos, muitos criadores passaram a esmerar-se bastante na elaboração de recipientes, investindo tempo e dinheiro para que os descobridores possam ter uma experiência melhorada. Independentemente dos propósitos, e de um modo geral, a mais-valia é significativa. Com o poder de criar recipientes elaborados vem também a responsabilidade; o problema não se coloca no caso de existir um local que valha a pena mostrar e para isso construiu-se um recipiente dedicado, mas sim na inversão do paradigma: constroem-se recipientes elaborados e depois decide-se a sua localização mediante o propósito de exponenciar as visitas e alcançar objetivos. O geocaching deve manter-se como um passatempo em que se dá a conhecer locais que tenham algum tipo de interesse; assim, as caches estarão mais preparadas para passar o teste do tempo. Pensando ainda em termos de caches, é legítimo considerar que antigamente poderia existir mais cuidado em colocar recipientes com dimensões mais adequadas e com toda a informação necessária.

Feita a análise às caches, importa também pensar nos geocachers. Esta vertente poderá ser ainda mais ambígua, mas é aceitável considerar que as boas práticas se deterioraram um pouco. Por exemplo, um dos aspetos mais significativos estará relacionado com as movimentações de travel bugs s e geocoins. Atualmente, estes itens tornaram-se tão raros nas caches que a sua descoberta passou a ser motivo de celebração. Apenas as caches mais isoladas estarão menos sujeitas a estas práticas enviesadas. Em termos da qualidade dos registos, a temática acaba por ser transversal e as disparidades talvez não sejam significativas; antes e depois existem excelentes exemplos de partilha. Aliás, estas diferenças, para o bem ou para o mal, estarão sobretudo relacionados com o aumento da quantidade de caches e geocachers.
Houve um tempo em que o geocaching era um segredo bem guardado. A disseminação pelos meios de comunicação acabou por trazer muita gente para o passatempo. Muitas práticas e valores deterioraram-se, mas surgiram também muitos aspetos positivos e outros tantos geocachers que se empenham na promoção da sua qualidade. O tempo vai passando e as fases de alento e desânimo sucedem-se naturalmente para todos; poderemos até atravessar momentos e intervalos em que o geocaching fica esquecido. Contudo, quando se sente o prazer da descoberta e o gosto pela Natureza, o geocaching é um estado natural e a uma essência intrínseca. No final, para lá das caches, das memórias e das aventuras, ficarão as pessoas; e isso supera qualquer saudosismo. “Antigamente era bom, mas futuramente vai ser ainda melhor!”

Artigo publicado na GeoMagazine#19 e em antoniocruz.pt.
Serra da Estrela
A planície aborrece-me. A apatia do horizonte, estendida até que o olhar se cansa do vislumbre. Talvez seja porque a própria alma parece ter sido forjada nas montanhas, trabalhada pelos cumes e depressões, onde o sol não chega a raiar certas encostas e as sombras murmuram desassossegos. Gosto de montanhas; gosto de olhar para cima e subir. Gosto da inquietude do seu relevo. Perder-me entre o silêncio intemporal dos trilhos que partilham o conforto das nuvens e conhecem os seus segredos. Viver as intempéries das serras e sentir a afetuosidade das suas gentes.
Ao ser desafiado para escrever sobre geocaching nas montanhas, o primeiro pensamento que tive foi precisamente como os meus últimos passos trilharam um casamento de sentidos entre estas duas palavras. Para além de outras valências fantásticas por ter descoberto este passatempo, confesso que uma das preferidas é precisamente o facto de o geocaching me ter reaproximado das montanhas. Recuando um pouco no tempo, e em jeito de inconfidência, lembro-me de na adolescência ter escondido um caderno no topo de uma serra, num local aonde gostava de regressar para escrevinhar algumas inquietações e outras histórias. Já há muitos anos que não passo por lá mas o caderno ainda lá deverá estar. Será que entretanto as palavras ganharam vida própria e as histórias cresceram? Um dia terei que lá voltar para saber. Não imaginava na altura que, alguns anos depois, descobriria o geocaching e as histórias continuariam a escrever-se à minha volta.
Numa primeira viagem pelo geocaching de montanha deambularei pelo Parque Natural da Serra da Estrela. E, antes de avançar mais gostaria de salientar que esta é apenas a minha visão, complementada com aquilo que vi e vivi por onde passei. Por certo existirão outras visões, trilhos, vivências e caches que também merecerão ser mencionadas; outras oportunidades virão. Importa também esclarecer que, ao escrever este artigo, libertei-me de regras ou imposições legais sobre os sítios a visitar. Livrei-me das vicissitudes e ficou apenas a intemporalidade das montanhas e a vontade das pessoas que por elas cirandam, em respeito pela Natureza.
Ao pensar na Serra da Estrela, o primeiro local-ideia que me assola é o Cântaro Magro (GCR9RW). Perene como um deus presente e confidente. Imagino que os povos que por ali passaram ao longo do tempo o tenham adorado como tal; um cenário perfeito para rituais de passagem. Pela forma, parece ser o deus-pai do mundo. E sendo assim, por certo o vizinho Cântaro Gordo (GCRYM3) deverá ser a deusa-mãe, sobranceira sobre a Lagoa dos Cântaros que acolhe as águas solitárias que escorrem das suas encostas. Voltando ao Cântaro Magro, creio que das melhores experiências que ele proporciona é precisamente a de dormir com ele. E aqui não estou, propositadamente, a referir-me ao facto de pernoitar ou dormir na montanha, mas sim a dormir com ela. Adormecer entre o silêncio do seu regaço; ser confidente dos seus murmúrios entre a vigília noturna; abrir meio olho durante a noite para contemplar a nitidez das estrelas no céu e acordar para o nascer do sol como se fosse o início do tempo.
Para além dos cântaros já referidos existe ainda o Raso (GC1KD2B) e um dos percursos míticos da Estrela é precisamente o que passa pelos três. Consoante a época do ano em que seja percorrido, as condições podem mudar drasticamente, em particular no que diz respeito às dificuldades. Com a existência de neve e gelo, as ascensões aos Cântaro Magro e Gordo tornam-se bastante mais técnicas e exigem que os montanhistas sejam experientes em situações semelhantes e possuam material específico. Usualmente, na ascensão ao Cântaro Gordo a neve oculta os buracos que existem entre os grandes penedos pelo que é necessário avançar com cuidado. Sem neve ou gelo, o percurso é exequível para a maioria dos caminhantes, desde que estejam minimamente preparados. Normalmente opta-se por iniciar o trilho junto ao Covão d’Ametade (GC12J04), seguindo em direção ao Vale da Candeeira. A dado momento segue-se por um trilho à esquerda e sobe-se para a Lagoa dos Cântaros. As dificuldades propriamente ditas podem começar a partir deste ponto, ao subir-se por uma cumeada. O trilho vai-se tornando menos evidente e mais íngreme à medida que se avança. Contudo, como sempre, alcançar o topo compensa todos os momentos prévios. As vistas para os vales e encostas limítrofes são fantásticas. Depois é possível descer para o Covão Cimeiro (GC1KHF4), que fica entre os Cântaros Gordo e Magro e seguir para este último. Pode-se também, no Cântaro Gordo, subir um pouco e chegar à estrada e daí seguir para o Cântaro Magro. Contudo, caminhar por alcatrão pode cansar o dobro do que o normal, pelo menos o olhar. Existe ainda um trilho que segue direto do Covão d’Ametade para o Cimeiro. O acesso final ao Cântaro Magro, ainda que pareça impossível da estrada – exceto como é óbvio em escalada – é relativamente acessível e sobe a encosta escarpada num pequeno teste às vertigens. Lá em cima, tudo se resume à pequenez que nos assola e qualquer descrição que aqui fizesse, por mais eloquente que fosse, tornar-se-ia tão efémera como uma brisa fresca no deserto. Em relação ao Cântaro Raso, o acesso faz-se a partir da estrada, que passa junto ao Magro, e é o mais simples dos três mas as vistas são igualmente reconfortantes. O regresso ao Covão d’Ametade é normalmente realizado por um trilho que desce ao lado do Cântaro Magro, conhecido com a Via dos Mercadores – ainda que existam outras referências a este nome num outro trilho da serra – e era usada para trazer gelo da zona da Torre quando não havia qualquer acesso alcatroado à mesma. Este percurso, com cerca de dez quilómetros, deverá demorar mais de sete horas.
Um outro trilho marcante da Serra da Estrela é precisamente aquele que sobe a Garganta de Loriga (GC15Q0E), um enorme vale nascido de um glaciar, partindo da aldeia e tendo como objetivo a Torre. Contudo, este trilho exige alguma logística visto que não é circular. A melhor altura para o desfrutar será quando existir alguma neve e gelo mas não demasiada para tornar a subida demasiado difícil ou perigosa para pessoas menos experientes em montanhismo. A subida inicia-se em Loriga e segue por um caminho florestal (GC40GQ9). Ao chegar-se a um planalto que fica sobre a aldeia, tem-se um primeiro encontro com a enormidade que se ergue diante dos caminhantes. Lá em baixo corre um ribeiro, formando pequenas cascatas até chegar à praia fluvial (GC33QKV), ótima para alturas de maior estio. O trilho torna-se então mais interessante e segue a montante das mariolas, ou caramoiços, pequenos amontoados de pedras que são os orientadores eternos e mais fidedignos das montanhas.
Junto à entrada da Garganta pode fazer-se um pequeno desvio para aceder às minas de volfrâmio (GC3XZHH) que foram usadas durante a época da segunda guerra mundial e serviram para desenvolver a pequena economia local. Chega-se então ao primeiro Covão, o da Areia. Segue-se o Covão da Neve e chega-se depois à barragem do Covão do Meio (GC39QED), sendo que aqui encontra-se a parte visível de uma das maiores obras de engenharia realizadas na Serra da Estrela, num tempo em que o trabalho da eletricidade dava emprego à maioria das gentes da zona: um túnel com mais de dois quilómetros que vaza a água excedente desta barragem para a Lagoa Comprida. No inverno, o espelho de água do Covão do Meio, com as vertente a precipitar delicadas cascatas de gelo, dá ao cenário um toque de inefabilidade contemplativa que enche a alma a qualquer um. Com as encostas engalanadas de neve, torna-se uma experiência fantástica, em que o fundamental é não esquecer a máquina fotográfica. Durante o inverno, e dependendo naturalmente das condições meteorológicas, à medida que se sobe torna-se mais provável encontrar lagoas e cursos de água geladas onde é possível patinar. Junto ao Covão do Boeiro (GC1WBZF), que fica acima do anterior, o trilho segue pela direita em direção à Lagoa do Covão das Quelhas (GC23XK7) e daí prossegue para a Torre (GCGQQ5). O percurso tem mais de dez quilómetros e deverá demorar mais de seis horas.
Outro percurso muito recomendável é o que parte das Penhas Douradas e segue para a Nave da Mestra (GC260X1). Ainda antes do início do trilho existem vários motivos de interesse como a visita Fragão do Corvo (GC1E6T2), que tem uma vista maravilhosa para a vila de Manteigas e Vale do Zêzere, assim como um passeio pelo Vale do Rossim (GC3GF82), uma lagoa inserida num espaço verdejante e que possui um parque de campismo próximo. O percurso para a Nave da Mestra inicia-se no final da estrada alcatroada e segue por um caminho cada vez mais apertado que acaba transformar-se em trilho de montanha. Como não existem grandes desníveis, esta caminhada não se torna particularmente exigente em termos físicos. Pelo meio podem ainda fazer-se pequenos desvios para aceder à Fraga da Penha (GC29JZW) e às Penhas Douradas (GC1VMDK) propriamente ditas, que acabaram por dar nome ao empreendimento turístico e à antiga estação meteorológica. O percurso passa ainda pelo Curral dos Martins (GC1GA98) e desce depois para a Nave da Mestra, também conhecida como Vale da Barca, aonde um antigo juiz da região mandou construir a sua casa de férias há mais de 100 anos atrás. O espaço é então perfeito para pernoitar. O acesso ao abrigo, que pode considerar-se de muitas estrelas entre os do género, faz-se através de uma enorme fenda que rasga o penedo gigante. No prado, um pouco mais abaixo, corre um ribeiro de águas cristalinas que permite suprir qualquer necessidade. Ao invés de terminar o percurso por aqui ou regressar, pode-se continuar em direção a outros locais, em particular para a Torre, atravessando o Vale da Candeeira. Uma adaptação a este trilho inicia-se em Manteigas, com a subida bastante inclinada para as Penhas Douradas e daí para a Nave da Mestra, seguindo posteriormente em direção ao Vale do Zêzere e continuando pela sua encosta, por um caminho, até Manteigas, num percurso com cerca de vinte quilómetros e que demorará entre oito a nove horas. Esta vila possui ainda muitos outros trilhos pelas serranias envolventes, que passam por locais de interesses distintos, como por exemplo o Poço do Inferno (GC12J2Z).
Tão antiga a Serra da Estrela deverá ser a vontade humana de, partindo de um abandono civilizacional, chegar ao seu cume. Um silêncio inquieto que busca o lado selvagem e que, mais cedo ou mais tarde, acaba por transformar-se num grito de concretização. Enquanto noutras eras tal era promovido, sobretudo, pelo desconhecimento da Serra, patente em várias lendas (GC12CA1), como aquando da primeira expedição (GCVVZH) realizada em 1881 pela Sociedade de Geographia de Lisboa e liderada por Hermenegildo Capelo, creio que agora far-se-á como um ritual de passagem numa elevação do espírito e aproximação das origens, que nos leva a perdermo-nos pelos trilhos de montanha em busca de nós próprios. Para além da subida desde Loriga, pela Garganta, até à Torre, existem outros trilhos que partem das aldeias, vilas ou cidades que ficam no sopé da serra e cujos percursos desembocam no seu cume. Vivenciei esta subida também desde Seia (GC3ER8Y), num percurso com cerca de trinta quilómetros e que pode demorar mais de onze horas, primeiro na companhia do sherpa Sphinx e depois e modo solitário, levando-me à conclusão que, por mais que se pense que se conhece um lugar ou percurso, existe sempre uma outra visão ou pormenor que podem fazer a diferença. Algures entre o sopé e o cume das montanhas estará a razão que nos leva a sujeitar o corpo a tais desafios e dificuldades, mas tal deverá ser muito difícil de encontrar, pois continuamos a regressar e sempre com uma vontade cada vez maior.
De referir ainda dois percursos bastante interessantes que atravessam dois grandes vales: o Zêzere e a Candeeira. O primeiro poderá iniciar-se em Manteigas e acompanha o percurso do rio que lhe dá o nome, enquanto deambula por terras e prados de pastores, deixando atrás de si inúmeras lagoas que podem ser aproveitadas no verão (GC3A028). O percurso poderá realizar-se até ao Covão d’Ametade mas exige logística, tal como a subida do Vale da Candeeira. Este trilho cruza o anterior vale e pode iniciar-se, após um pequeno desvio do trilho, junto à Cascata da Candeeira (GC3A0KJ). Seguindo pelo vale (GC3A012), chega-se à Lagoa do Peixão, também conhecida por Lagoa da Paixão (GCPFJA), e daí sobe-se para o Fragão do Poio dos Cães (GC3A0EH), um imponente maciço rochoso que encabeça o vale. A estrada que segue para a Torre já está perto mas o melhor é ter por lá um carro para voltar ao ponto inicial.
Para além dos trilhos já referenciados, existem ainda obviamente muitos outros na Serra da Estrela e cuja distância é variável. Junto à Torre inicia-se um percurso de caches pelo planalto que segue até à Penha dos Abutres (GC1WBWC), de onde se tem uma vista de perder a memória para Loriga. Um outro trilho, por outro planalto e relativamente fácil de seguir, é o que se inicia junto ao macilento Teleférico da Estrela (GC1MQ55) e desemboca na Varanda dos Pastores (GC1MX60), junto a um marco geodésico, guardião de uma vista fantástica. Das Penhas da Saúde (GC20K33) parte um também bastante interessante com passagem pelo Curral do Vento (GC32GR1) e por onde é possível aceder à Fraga Grande (GC3DEB6) e ao Picoto da Rosa Negra (GC3K5FT), locais de vistas extraordinárias para a Covilhã. Neste percurso existem ainda várias lapas (GC3DEA2) e abrigos para descanso fortuito ou mesmo pernoita. A Lagoa Comprida é também um ótimo lugar para passear, seguindo pelo caminho ao longo da sua margem, com eventuais desvios (GC1X87Y) para chegar-se a outros locais próximos de vistas reconfortantes (GC1EY9K).
Aproveitando a passagem pela nascente do Rio Mondego (GC1BQYX), seguindo pela estrada, chega-se a mais um local bucólico e afastado do rebuliço do dia-a-dia, o Covão da Ponte, onde existe um parque de campismo. Dali é possível seguir um percurso para a capela da Senhora de Asse Dasse (GC39340), já pertença às terras de Folgosinho, passando por prados de perder de vista. Nas encostas de Gouveia existem mais trilhos interessantes, como aquele que sobe até ao monte que vigia a aldeia e onde existe uma pequena capela dedicada a S. Tiago (GC17B18) ou o que leva os caminhantes até ao Curral do Negro (GC14RM9), um parque de diversas valências. Já do lado de Seia, a encosta sobranceira ao rio Alva, oferece um passeio pela Mata do Desterro (GC3696H). Ali perto corre a ribeira da Caniça, cujas águas passam em pequenos paraísos e outros fenómenos curiosos, como o seu Sumo (GC2PFD6). A caminhada realiza-se através de um canal de água (GC1WAEX) e parte da Senhora do Desterro. Mais abaixo, a ribeira passa próximo de uma gruta conhecida como Buraca da Moura (GC20A70). Na zona, a ponte Jugais (GCTBEB) é também de visita obrigatória, cujo percurso poderá realizar-se pelo Canal do Chão do Prado (GC3C7FP). Nesta serra, tal como em muitas outras, a erosão vai criando formas interessantes e curiosas, entre elas as antropomórficas, como as famosas Cabeças do Velho (GC1BN14) e da Velha (GC1B542). Na descoberta destes locais e percursos neste Parque Natural, reúnem-se as condições para a obtenção de um “canudo” (GC3V8PA) de conhecimentos e contentamentos, entre as nuvens do geocaching nacional.
E assim termina esta pequena viagem pela Serra da Estrela, uma elevação de encantos, na certeza que outros locais ou percursos por certo também merecem a visita. É um local ideal para reinventar desafios, em que o horizonte acaba sempre por compensar, por maior que seja a ousadia de quem se atreve a percorrer os seus trilhos seculares. Lugar maior que todas existências ou inconstâncias da alma, com a possibilidade de, num relance, ter todo o mundo abarcado por um olhar. Vemo-nos no Parque Nacional da Peneda-Gerês!
Onde ficar:
Parque de Campismo do Covão da Ponte
Parque de Campismo do Vale do Rossim
Parque de Campismo do Curral do Velho
Onde comer:
Sítios relevantes:
Parque Natural da Serra da Estrela
Centro de Interpretação da Serra da Estrela

Artigo publicado na GeoMagazine, Edição 3 (25 de junho de 2013) e em antoniocruz.pt.
Rota de Manhouce
A aldeia de Manhouce, no concelho de São Pedro do Sul, abriga-se da passagem do tempo entre os contrafortes do Maciço da Gralheira, paredes-meias com a Serra da Freita. Longe vão os dias em esta localidade era um importante ponto de passagem na via romana que ia desde Viseu ao Porto. Noutras épocas, os campos fervilhavam de vida e de trabalho. Atualmente, as leiras vão subsistindo pela vontade dos habitantes que resistem. Torneando os meandros do tempo, a Rota de Manhouce é uma excelente forma de ir em busca deste legado e história e tradição!
O percurso inicia-se num largo junto à Escola Primária. Como alternativa, e em caso de falta de estacionamento, poderá optar-se por iniciar a caminhada junto à ponte da ribeira de Manhouce, que fica um pouco mais abaixo e onde existe um pequeno parque de merendas. Neste local é possível constatar a força da água da ribeira que vai sulcando a penedia e galgando obstáculos numa pressa natural. Mais à frente estas ribeiras haverão de formar o rio Teixeira que, dizem por aí, é um dos menos poluídos da Europa. Mal sabem estas águas impacientes que o rio Vouga foi domado numa enorme albufeira e que para chegar ao mar é agora preciso pagar uma portagem de energia.

A aldeia de Manhouce parece ter ficado entretida a jogar ao pião num tempo que já não lhe pertence. Aqui, a vida gira em torno do granito e as casas vestem-se de pedra até aos colarinhos dos telhados. Passando pela igreja, o percurso investe na direção de Malfeitoso com um sabor a Pronúncia do Norte. Pelo meio, o trilho serpenteia pelos campos. Com um inverno chuvoso, a água corre das encostas pelos riachos e invade os caminhos. A lama é uma presença natural e é necessário progredir com cuidado. Porém, quem gosta de caminhar não se deixa amedrontar por tais constrangimentos.
Manhouce está rodeada de pequenas aldeias que vão resistindo ao isolamento. Para além das casas cuja construção ficou a meio, nota-se que a emigração vai deixando os espaços ainda mais vazios. Após uma passagem rápida por Malfeitoso, segue-se na direção de Salgueiro. Manhouce, lá em baixo, é agora uma recordação e um destino. O trilho entre Salgueiro e Abundância precisa que alguma manutenção. Para além da vegetação que vai ocupando o percurso esquecido, em alguns locais existem árvores tombadas. Longe vão os tempos em que para sobreviver ao frio do inverno era preciso andar de noite à cata de lenha dos outros. Com mais ou menos obstáculos, a paisagem serrana vai-se engrandecendo à medida que se avança.

A chegada a Abundância reflete uma imagem do trabalho de outrora. Do outro lado da encosta descem leiras esquecidas. Alguns muros já caíram e assim deverão continuar. Mais abaixo, um canastro vai guardando memórias desfolhadas. Mas nem todos os campos estão abandonados ou entregues a um destino incerto; em alguns nota-se que a agricultura vai subsistindo por práticas e métodos mais recentes.
A partir daqui, o percurso insiste em guiar-nos por uma subida exigente até Gestosinho. A paisagem vai ficando mais árida e os topos das colinas transformam-se em amontoados caóticos de pedras. Gestosinho é também um prenúncio de esquecimento. A Escola Primária há muito que perdeu a esperança de ver crianças a correr no seu recreio. Chega-se então ao ponto de maior altitude do percurso. Seguindo pelo planalto, cruzando a estrada, inicia-se depois a descida de regresso a Manhouce. O trilho passa depois por algumas manchas de arvoredos diversificados, que tornam a experiência mais interessante e despistam o cheiro a pinheiro e a serra. Encontra-se ainda mais um parque de merendas, ansioso pelo bom tempo e por alguma companhia que lhe valide o investimento.

A meio da descida desvenda-se uma placa que informa a presença de uma estrada real. De outra forma seria difícil identificar a importância que terá tido outrora. O tempo trouxe melhores estradas, o que parece ter sido uma tentação para as pessoas irem em busca de novas oportunidades noutras paragens. Junto à Quinta das Uchas (agroturismo) é possível fazer uma pequena paragem para baloiçar o cansaço num velho carvalho. Sempre a descer, chega-se à ao fundo do vale e descobrem-se o poço da Cilha e a bela ribeira da Vessa, cujas águas vão caindo em cascatas sucessivas. Depois de apreciar a natureza, o fim da caminhada está à distância de um pequeno esforço. Já no carro, trocando o olhar com o retrovisor e vendo a aldeia a ficar para trás, redescobre-se Manhouce de forma enternecida e promete-se um regresso.
Ficha técnica (track do percurso):

Boas caminhadas!












