ValenteCruz
Guia para sobreviver ao desencanto
É inevitável. Mais cedo ou mais tarde acabaremos por descobrir o desencanto no geocaching. Todos os passatempos estão sujeitos a uma acumulação de desinteresse, tanto pela rotina como pela alteração da nossa disponibilidade. Porém, as nossas práticas e a forma como encaramos o geocaching poderão aproximar-nos desse estado de deceção. Naturalmente, todos temos uma visão distinta do passatempo e cada um de nós procura ou valoriza algo diferente, quer seja a partilha de novos locais ou atingir um determinado objetivo estatístico. Existem inúmeros tipos de geocachers e cada tipo contempla diversas fases de evolução no geocaching. Assim, o que é válido para um geocacher, pode não o ser para outro. Tendo em conta a diversidade que existe no passatempo, é difícil dissertar presunções ou irrefutabilidades, mas pode ser viável salientar sugestões direcionadas para sobreviver ao desencanto no geocaching.
O desânimo poderá florescer na própria iniciação. Convenhamos que, para lá da estranheza que pode advir da procura de recipientes em circunstâncias ou locais inusitadas, com a massificação do passatempo aumenta a probabilidade de a primeira experiência não ser a mais recomendável. Quem descobrir o geocaching hoje na Internet e amanhã quiser ir à procura da cache que fica mais próxima de casa, poderá andar às voltas de um sinal de trânsito, enquanto se vão acumulando olhares e suspeitas sobre si. Tal acabará por trazer algum desencanto e aquilo que parecia um conceito muito interessante poderá tornar-se em algo apenas estranho e despropositado.

Tanto para quem começa como para os que já cá andam há mais tempo é importante fazer uma análise seletiva das caches. Por mais que nos esforcemos, não conseguiremos encontrá-las todas. Assim, mais vale dedicar a nossa atenção àquelas que considerarmos como as melhores. No meu caso, praticar um geocaching baseado na qualidade é meio caminho para evitar que algum desapontamento se instale. Não o faz desaparecer da esfera de possibilidades, mas pode protelá-lo de forma significativa. O geocaching baseado na qualidade não tem de ser necessariamente esporádico, mas pode estar sujeito a certas condicionantes e a sua frequência é proporcional à distância que estamos dispostos para percorrer para o praticar. Para além disso, e tal como em outras tantas coisas na vida, o que não é regular tem mais hipóteses de tornar-se especial.
Mesmo privilegiando a qualidade também tenho de ter algum cuidado com a quantidade. De certa forma, este guia para sobreviver ao desencanto começa a parecer-se com uma dieta. Sei que se começar a calcorrear demasiados powertrails principiarei a perder algum interesse no geocaching. Encontrar uma cache compreende um conjunto de etapas e vai para além de um sorriso no mapa. Desde a leitura da listagem, passando pela descoberta do recipiente e até à criação de um registo online condizente. Para alguns, o respeito por este seguimento lógico da experiência poderá mesmo ser um ritual e desviam-se de tudo o que o possa deturpar. Num powertrail são poucos os recipientes que todos encontram e o registo mais comum acaba quase sempre por ser geral. Contudo, verdade seja escrita, existem diferentes tipos de powertrails e os mesmos podem surgir com objetivos distintos. O grande problema reside no facto de nalguns o geocaching ficar num plano distante e ser apenas um pretexto para atingir um fim estranho. Não me agrada de sobremaneira andar de carro de cache em cache a vencer estatísticas. Cada descoberta parece-me uma vitória pírrica até ao desinteresse final. Embora compreenda que o contexto acabe por proporcionar alguns momentos de partilha, o conceito de prosseguir numa fila em paragens sucessivas durante um dia inteiro não me cativa. Prefiro atravessar uma montanha num dia para encontrar apenas uma cache.
Acredito que orientando o geocaching por menor quantidade e mais qualidade estarei mais perto de sobreviver ao desencanto no geocaching. Mantendo a disponibilidade, quando o deslumbramento esmorecer, bastará acertar a data para uma nova aventura e tudo voltará a ser como antes. No limite, cada um valoriza algo distinto no geocaching. Depois de o compreendermos e definirmos, fase após fase, sorriso após deceção, bastará isso para reencontrarmos aquele lugar especial chamado fascínio.

Artigo publicado na Geomagazine #24 e em cruzilhadas.pt.
Os Salteadores da Sopa Perdida
O regresso d’Os Salteadores da Sopa Perdida! Calcorreando as serranias das nossas vidas, gostamos de nos reunir para aventuras com sabor a boas lembranças que terminam com a preparação e degustação da mítica sopa da pedra. Para além do reconforto alimentar, tal como na história original a pedra era apenas um pretexto, assim é a sopa para nós. Porém, tornou-se num tempero memorial. E assim vamos acumulando boas memórias e grandes experiências! Desta vez, o fim-de-semana destino foi Trás-os-Montes.
A vontade de descobrir o Sabor Transmontano (GC3HTHB) aliou-se ao reencontro dos salteadores. Como precisávamos de um local para preparar a sopa, jantar e pernoitar, surgiu a ideia de irmos até ao Castelo de Algoso (GC22FN7), monumento de vistas fantásticas, sobranceiro ao vale do rio Angueira. Chegámos a Algoso na noite de sexta-feira e a previsão meteorológica era de chuva, pelo que ficámos radiantes por encontrar o céu estrelado. Não foi difícil decidir o local da preparação da sopa; o pior mesmo foi levar a panela e demais materiais para lá! Iniciámos depois a preparação da sopa e fomos reconfortando o estômago com outros petiscos. As estrelas pareciam alinhadas para nos iluminar a experiência memorável.

Perfazendo o ritual da preparação, apenas começámos a cear à meia-noite. Como sempre, a sopa estava deliciosa e a envolvência conferiu-lhe contornos míticos. Depois da ceia, arrumámos tudo e fizemos uma caminhada noturna até à ponte esquecida sobre o rio Angueira, "anquanto a lhéngua fur cantada" (GC6NMM2). Apanhámos o trilho medieval e fomos descendo a encosta, fazendo contas ao esforço da subida. Acertámos nos atalhos da noite e chegámos à ponte sem grandes peripécias. Perdemos as vistas e os pormenores da ponte, mas as circunstâncias também foram interessantes, tornando a descoberta mais peculiar e desafiante. De regresso ao castelo, preparámo-nos para a pernoita ao luar. Acabámos por dormir pouco, tendo em conta o frenesim da aventura inusitada e o facto de termos de acordar bastante cedo. Chegámos e saímos de Algoso ao abrigo da penumbra, mas a noite sublime brilhará na nossa memória.
Avistámos Matela quando a promessa do amanhecer ainda falava castelhano, mas os galos iam dando sinal que a aventura estava prestes a começar. Depois do café reconfortante realizámos a logística dos carros e seguimos para Junqueira. Com tudo preparado, iniciámos a caminhada do Sabor Transmontano. Os primeiros quilómetros foram acessíveis e não permitiram adivinhar o que estaria pela frente. Chegámos à confluência dos rios e fizemos uma pequena paragem para recarregar as energias. Íamos subir o Sabor, mas fiquei com muita curiosidade em experimentar também a subida do Maçãs. O trilho pela margem do rio é técnico e é necessário ter atenção à progressão. É isso também que o torna mais desafiante e interessante. Entrámos na parte mais selvagem do vale e durante algum tempo estivemos longe de tudo. Um dos aspetos mais curiosos sobre este rio está relacionado com a altura que o caudal atinge em períodos de cheias, tendo em conta os vestígios na vegetação. Acho que não conheço outro que suba tanto.

À medida que progredimos o trilho foi-se tornando ainda mais técnico e chuva apareceu quando chegámos às Fragas da Cerca. Ainda esperámos um pouco, mas a chuva poderia delongar-se e amolecer-nos o espírito. Um pouco depois aproveitámos para almoçar debaixo de uma lapa de histórias. Não vimos animais selvagens, mas eles deveriam estar à espreita. Parecia estávamos num tempo chamado longe. Logo de seguida tivemos de subir um pouco mais a encosta para contornar uma fraga, mas o desafio acabou por ser vencido com cuidados redobrados. Apesar de nem sempre serem evidentes, os trilhos dos animais ajudam a progressão e facilitam a tomada de decisões.
Com a chegada ao segundo ponto, um local de excelentes vistas, as dificuldades foram deixadas a jusante do rio e das memórias. Surgiram então trilhos mais evidentes, que deambulavam pela encosta ao longo do rio. Depois de alcançarmos o caminho rural, tudo se tornou mais fácil e a paisagem ficou menos agreste. O rio estendia-se pelo leito mais largo e já não tinha de galgar a penedia. Passámos o poço do Tendeiro e seguimos ligeiros até ao final. Após alguma procura, lá acabou por surgir o grito da descoberta. Esta teve um sabor especial para o Dragao88, que completou 5000 descobertas e teve a boa ideia e o trabalho de levar bolo e licor para a celebração!

Na continuação da caminhada, não demorámos muito a vislumbrar o Picão de Pena de Águia (GC43VME). Olhando para o mapa, e considerando o percurso que teríamos de fazer pelo caminho definido, tornou-se evidente que poderíamos ganhar tempo e terreno se fizéssemos uma abordagem “à geocacher”. Ou seja, fomos em linha reta para o objetivo. A subida é inclinada, mas a pouca vegetação faz com que a progressão não seja muito difícil. Recomeçou entretanto a chover. Porém, em menos que o pensássemos conseguimos chegar ao Picão. Como as rochas estavam escorregadias, redobrámos os cuidados e atingimos o topo sem problemas. Foi mais um registo com uma vista do tamanho das nossas expetativas. O local permite uma visão larga sobre o vale e a região limítrofe. À nossa volta, tudo era natureza primeva; tudo era Trás-os-Montes! Foi o final perfeito para um dia em grande! Tal como a pedra ou a sopa, o geocaching deve ser apenas um pretexto e não o fim. O importante é a partilha dos locais, dos percursos e das experiências. E esta foi memorável!

A partir do Picão tudo se tornou mais fácil. O percurso até ao local onde tínhamos deixado os carros decorreu sem problemas, apesar do cansaço natural. Foi uma experiência longa, com pouquíssimas horas de sono, num trilho técnico e com condições climatéricas adversas. Porém, tudo redundou numa experiência tão fantástica quão notável. Chegados aos carros, fomos trocar de roupa e seguimos até à capela da aldeia. Começámos então a preparar o jantar, aquecendo a sopa da pedra que tinha sobrado do dia anterior. No regresso a casa aproveitámos para alinhar as recordações da aventura com sorriso aberto de saudade.
E foi mais um fim-de-semana épico, com Sercla_28, Power Red, Dragao88, NecabarSantos, Pirat@ e Jorge_53. Muito obrigado pela partilha destes momentos!

Artigo publicado na Geomagazine#24 e em cruzilhadas.pt.
Os bonecos misteriosos do caminho onde o morto matou o vivo

Os mortos não contam histórias. Os vivos resistem ao abandono através de bonecos que revelam lendas e enganam o tempo. No cimo do vale de memórias, as fragas adensam-se numa livraria geológica de suster a respiração. Lá no fundo, entre as sombras, o ribeiro galga a penedia melancólica por entre a vegetação exuberante. Eis o “Caminho onde o morto matou o vivo”.
A serra de São Macário é um berço de lendas que persistem pelos séculos. Ao redor do monte existem várias aldeias solitárias que vão sobrevivendo ao abandono. Uma das mais famosas é a Pena. Descendo a encosta, o olhar prende-se em fascínio no aglomerado de xisto que adormeceu em tempos imemoriais na cova profunda, onde o sol de inverno apenas espreita de soslaio. Tudo em redor parece ter ficado parado no tempo. É importante descer com cuidado e ter atenção à possível subida de outros veículos, já que a estrada é estreita. O acesso parece ter sido criado para provir apenas um sentido e um destino, não sei de ida ou de volta.



O café da aldeia é de paragem obrigatória. Nascido do xisto, as paredes estão repletas de palavras de quem o visitou e se encantou pelo lugar esquecido. Para quem tiver dúvidas sobre a envolvência selvagem do local, basta perguntar pelas víboras. Os encontros são muito raros, mas existem cobras venenosas por estas encostas escarpadas. Depois de uma visita à aldeia, deve seguir-se o cantar das águas do ribeiro da Pena e descer o vale pelo “Caminho onde o morto matou o vivo” até à aldeia de Covas do Rio. Este trilho mítico fura por um vale clivoso e acompanha a ribeira.

O nome do percurso tem origem num episódio duplamente infeliz. Há décadas atrás, devido ao facto de a Pena não possuir cemitério, os habitantes tinham que levar os defuntos para Covas. Certo dia, e como o percurso inicial é muito íngreme, um homem escorregou e o caixão caiu-lhe em cima, matando-o. No lugar onde ocorreu este acidente existem alguns moinhos envolvidos por uma vegetação luxuriante e o ribeiro vai descendo em cascatas. A zona é bastante selvagem e escarpada, pelo que se desaconselham os desvios. O trilho apenas tem um sentido, seguindo a linha de água e da saudade. À medida que as encostas se vão tornando menos abruptas o percurso aproxima-se de Covas do Rio, mais uma típica aldeia de montanha, onde a estrada chegou já demasiado tarde.

Ao longo deste percurso linear foram deixados dezenas de bonecos misteriosos dos mais variados feitios. Uns mais pequenos, outros maiores, alguns mais escondidos e muitos à espreita de atenção. Miram-nos dos buracos das paredes, observam-nos das frechas das rochas, examinam-nos dos tapetes de musgo e controlam-nos a cada passo da nossa imaginação. A colocação dos bonecos teve origem em Covas do Rio, mas desconhecemos os propósitos. Quaisquer que tenham sido, os bonecos espalharam-se pelo caminho lendário, conferindo-lhe mistério, cor e vida.
À nossa terceira passagem pelo percurso desde que nos apercebemos deste “ritual”, resolvemos também deixar alguns bonecos. Seria interessante que mais surgissem no caminho onde o morto matou o vivo. Fica o desafio para os próximos que o venham a percorrer!




Artigo publicado em cruzilhadas.pt


