ValenteCruz
O paraíso aqui tão perto: Islas Cíes
As ilhas Ciés formam um arquipélago ao largo de Vigo, na Galiza. São constituídas por três ilhas, Monteagudo, Faro e San Martín, sendo que as duas primeiras estão ligadas por uma língua de areia, a Praia de Rodas (GC3MHKN). Em conjunto com outras ilhas da Ria de Vigo formam o Parque Nacional de las Islas Atlánticas de Galicia. Estas ilhas desde sempre atraíram curiosos e aventureiros, mas um artigo do jornal The Guardian, que nomeou a Praia de Rodas como a mais bonita do mundo, colocou-as definitivamente no centro do turismo espanhol. Apenas se pode pernoitar na ilha através de reserva no parque de campismo local. Em agosto é necessário reservar com bastante antecedência! É possível chegar às ilhas de barco partindo de Vigo ou de Baiona, sendo que a ilha de San Martín é apenas acessível através de barco privado.
Depois de termos andado enredados em planos para visitarmos estas ilhas divinas, neste ano, finalmente a maresia de agosto trouxe a concretização da vontade antiga. Após dois dias em que aproveitámos para visitar a linha da costa galega a sul de Baiona, a terça-feira amanheceu com uma vista de intenções sobre as Ilhas Cíes. Seguimos até Baiona e prosseguimos de barco pela Ria de Vigo. A aproximação à ilha de Monteagudo, tendo como anfitriã a Praia de Rodas, é memorável e percebe-se de imediato o porquê da fama granjeada. A areia branca e água azul, envolvidas pelo arvoredo das encostas, compõem um cenário inolvidável!

Pusemos os pés em terra e fizemo-nos à descoberta dos locais idílicos. A primeira paragem foi precisamente na praia, numa contemplação demorada. Passámos depois pelo lago e iniciámos a visita à ilha de Faro. No parque de campismo as reservas apenas serviam para o mês seguinte, tal a afluência. Seguindo pelo caminho aproximámo-nos da praia de Nosa Señora. Embora mais pequena, é igualmente fantástica!
A continuação do trilho levou-nos a conhecer o segundo embarcadoiro destas ilhas. Neste espaço, longe voragem turística, são descarregados os mantimentos para os turistas e residentes desta ilha. Avistámos então dois faróis no horizonte. Acabámos por ir primeiro ao Faro de Porta, que apresenta umas vistas vertiginosas sobre o mar. Subimos depois, seguindo a corrente turística, ao monte Faro (GC6JP9N), de onde se tem uma vista inteira das ilhas. Trata-se de um farol muito bem recuperado e a visita ao local é por demais obrigatória.

Descendo pelo trilho, regressámos à floresta e aproveitámos para aprender um pouco mais de geologia através dos taffoni, pedras moldadas em obras de arte naturais pela meteorização. Ali perto, mais um adorno geológico muito interessante haveria de cativar o nosso espanto e interesse: a pedra de Campá (GC3XWHZ). Os elementos erosivos criaram uma janela de contemplação sobre o mar. A quem possa, recomenda-se uma espera ao pôr-do-sol de máquina fotográfica em punho e memória vazia.
Visitada esta ilha, retomámos a ilha de Monteagudo para nos deliciarmos com a praia. O vento também acabou por nos fazer companhia, criando desenhos idílicos na areia branca. Depois do marasmo resolvi percorrer esta ilha em modo de corrida. Mesmo de férias e num cenário paradisíaco, o corpo também merece algum cansaço. A primeira paragem foi na Praia de Figueiras, onde à custa de uma curiosidade para ver uns fósseis acabei por me imiscuir numa área mais reservada a nudistas. Esta praia é também muito interessante, com um areal generoso e águas cristalinas.
Seguindo pelo trilho, que acompanhava a linha de costa, cheguei à praia de Cantareira. Um pouco antes avistei um acampamento mais reservado e por momentos imaginei-me dentro do argumento da série “Perdidos”. Esta praia é um pouco menos apelativa, visto que o areal é escasso. Subi depois pelo trilho até ao caminho principal que cruza a ilha e fui à descoberta do antigo povoado, onde resistem as ruínas de um passado esquecido. Desci ainda à furna de Monteagudo e refiz o caminho de volta à Praia de Rodas.

Pelo meio foi inevitável, e seria até indesculpável, não visitar o Alto do Príncipe (GC32ZKD) e a Cadeira da Raiña, mais um miradouro excecional das ilhas. O local parece de facto um trono sobre o mar e permite, em especial, uma vista fantástica para a praia de Rodas. Do lado poente das ilhas existem vertentes escarpadas e altas, do outro a terra encontra o mar de forma harmoniosa. Este talvez seja mesmo dos locais mais fotogénicos para recordar estas ilhas. De contemplação em contemplação, regressei à Praia de Rodas e aproveitei para tomar um merecido e refrescante banho. O cenário envolvente pode fazer lembrar as Caraíbas, mas a temperatura da água devolve-nos à Europa num piscar de olhos.
Já com a memória cheia, escrevemos na areia da praia o desejo de voltarmos e fomos engrossar a fila de pessoas que aguardavam a chegada do barco. Já ao largo, de regresso a Baiona, as linhas da ilha iam-se desvanecendo no horizonte enublado e mítico, como se tudo tivesse sido apenas um sonho.

Artigo publicado na GeoMagazine#23.
Drave
"Partimos com vontade de um dia aqui voltar. Ser caminheiro nos rumos do homem novo. Amar é a partida. Quem não vive para servir, não serve para viver. Drave, a aldeia do quase nada que tem quase tudo. Corre, salta, dança, voa, vem dançar sobre o luar, ama, agradece num sorriso quem te olha a chorar. Tu tens de dar um pouco mais do que tens. O que levas na mochila tu, agora que chegaste ao fim do teu caminhar? Vive, partilha e avança. Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas. O caminheirismo é a fraternidade do ar livre e do serviço. O caminho é individual mas nunca solitário. Ser caminheiro é estar preparado para o pior, esperar o melhor e aceitar o que vier. Drave é o nosso pedacinho de céu. A felicidade só é real quando partilhada. Levo a mochila cheia tenho tudo para dar, levo a luz do teu olhar…"
Localização: N 40° 20.555 W 007° 36.376
Percurso: track.
Rota das Bétulas e Trilho Inca
A Rota das Bétulas é um percurso oficial, inserido no Maciço da Gralheira, que serpenteia entre a Fraguinha, Candal e Póvoas da Leiras, no concelho de São Pedro do Sul. O Trilho Inca é um percurso oficioso numa vertente escarpada que faz a ligação entre Póvoa das Leiras e Covêlo do Paivô. A proximidade entre os dois trilhos e a espetacularidade do cenário envolvente faz com que seja um pecado de natureza percorrer um e ignorar o outro. Juntando os dois trilhos, o percurso circular fica com um total de 12 km e é um excelente cartão-de-visita da região.
Tratando-se de um percurso circular, o início poderá decorrer em qualquer um dos locais por onde ele passa. Nós resolvemos começar junto ao Parque de Campismo da Fraguinha, que fica perto da aldeia da Coelheira. A parte mais acidentada do percurso coincide com a vertente da Serra da Ribeira, que fica sobranceira sobre Candal; nós optámos por fazê-la a descer. Saindo da Fraguinha, a parte inicial do trilho faz jus ao nome, visto que a zona está muito bem composta de bétulas (GC1J7JN). O riacho ajeita o ambiente de um bucolismo natural e os sentidos vão-se habituando ao abandono civilizacional.

Subindo a encosta, o horizonte torna-se mais amplo e magnificente. A Fraguinha transforma-se depois num amontoado de resistência verde, com as encostas despidas em plano de fundo. O topo da Serra da Ribeira é dominado por eólicas gigantes e as vertentes acidentadas estão minadas de buracos (GC2CBWK); há muito tempo que a exploração de volfrâmio terminou, mas os resquícios das memórias subsistem pelos edifícios abandonados. O percurso passa ao lado de um dos locais míticos da prova Ultra Trail Serra da Freita, a Besta (GC53RJQ); vista de cima, parece intransponível. É por esta altura que surge uma das melhores vistas do percurso; vale a pena parar e apreciar com detalhe o trabalho ao longo de séculos dos habitantes de Póvoa das Leiras. Provendo da aldeia, as leiras tropeçam indefinidamente até ao fundo do vale.

A descida da encosta até Candal (GC2B4FX) faz-se por um antigo e bem conservado caminho rural. Passando a aldeia, segue-se por campos de agricultura persistente e alcança-se uma zona de arvoredo variado. O reencontro com o ribeiro, que desce desde a Fraguinha, é uma boa desculpa para mais uma paragem; as cascatas e os moinhos compõem o cenário. Logo depois surge uma subida exigente para Póvoa das Leiras (GC2HDE3), onde se pode ter uma nova visão da Besta. Ao passar-se pela aldeia compreende-se a importância da pecuária, já que em quase todas as casas existem lojas de animais.
Logo depois da aldeia chega o ponto em que se deve abandonar o PR e entrar no mítico Trilho Inca (GC2H5XN). Vagueando no início por um caminho rural, rapidamente somos levados pelo tempo até um trilho desenhado a custo na encosta escarpada. As lajes de xisto sobrepostas parecem um tapete da natureza! Quando se inicia o Trilho Inca aceita-se com desconfiança que ele nos levará até à outra ponta (GC5P2YF). Porém, à medida que se avança na encosta, as dúvidas desaparecem e tudo conflui num dos mais espetaculares, cénicos e desafiantes percursos das Montanhas Mágicas. Já do outro lado, as vistas alongam-se até aos limites da Serra da Arada, com a Drave escondida num segredo longínquo. Lá no fundo, o Rio Paivô fura pelos meandros do vale.

Depois de momentos infindos de contemplação, segue-se uma subida até uma nova zona de eólicas. Parece perto, mas o percurso ainda se delonga. Respeitando os ritos lentos da natureza, vale a pena fazer algumas paragens para descansar o olhar na paisagem envolvente. Lá em cima, o percurso prossegue por um estradão e logo depois inicia-se a descida para o final. A Fraguinha, com o lago a servir de espelho, parece um oásis na paisagem despida das ladeiras envolventes. Todos os dias são bons para realizar este percurso, mas recomenda-se particularmente a primavera; as encostas ficam engalanadas com cores muito fotogénicas.
Informação técnica e track do percurso:
Boas caminhadas e melhores aventuras!
Artigo publicado na GeoMagazine#22.

PS: Em agosto, o Trilho Inca foi assolado por um incêndio terrível que alterou por completo a paisagem.



