ValenteCruz
Sabor Atlântico
Após vários adiamentos, finalmente fomos percorrer os Passadiços do Atlântico (ver track), entre Gaia e Espinho. Como estávamos a dever quilómetros às pernas, resolvemos aumentar um pouco a distância e começámos o percurso junto à ponte D. Luís. Visto que se trata de um percurso linear, as primeiras decisões prenderam-se com a logística. Optámos por deixar o carro em Espinho e fomos de comboio até Gaia. Passámos à pressa pelas obras do Jardim do Morro e estancámos o olhar sobre as magníficas vistas sobre a paisagem urbana circundante, com o rio Douro a desenhar-nos o destino a jusante.
Iniciámos o percurso na certeza que a proximidade do meio-dia marcava necessidade de seguirmos lestos. Tínhamos mais de 20 km pela frente, mas a planura confortava-nos a esperança de ultrapassarmos o desafio. As primeiras centenas de metros vivem-se com os olhos entre o rio e a Ribeira do Porto. Será, por certo, uma das paisagens urbanas mais interessantes de Portugal. Tal como é cantado de forma sentida, por ruelas e calçadas, num rosto de cantaria e numa luz bela e sombria, o casario estende-se da Ribeira até Foz. Mesmo para quem que, como eu, mói sentimentos a olhar para construções humanas e chama casa à Natureza, é difícil ficar indiferente à paisagem portuense.

Um pouco mais à frente decidimos fazer um pequeno desvio para açambarcar mais uma vista sobre o rio. Os passadiços colocados sobre o rio ajudam a mitigar a ideia de caminhar junto à estrada e a paisagem trata do resto. Mais à frente, alguns barcos rabelos são arranjados para o turismo a haver, que vai crescendo à medida que o Porto é cada vez mais um postal para os visitantes. Apenas entristece a linha de edifícios abandonados que se estendem ao longo da margem de Gaia.
A passagem pela Afurada serviu para reconfortar o estômago e alinhavar as expectativas. Deambulando pela linha da foz, deixámos o Douro e encontrámos o Atlântico. Ali perto, alguns miradouros de aves esperavam os respetivos mirones. Continuando a caminhada, contornando a curva, entrámos nos passadiços da praia e seguimos pela linha de mar. A paisagem torna-se então mais natural, apesar de os sinais do Homem serem uma constante. Os rochedos dão lugar à areia e surgem as proteções de madeira para as dunas. Aqui e além vão-se encontrando riachos tímidos que desaguam no mar.

Quando a fome deu sinal de si resolvemos fazer uma paragem mais prolongada. Acabámos por almoçar no restaurante Mar à Vista, um espaço bastante agradável. Na continuação do percurso, os quilómetros de passadiços foram-se repetindo com sabor a maresia. Para quem gosta de montanha, a visão continuada do mar pode parecer um pouco monótona. De qualquer forma, também sabe bem enganar o corpo com algum conforto de planura.
Em quase todo este caminho Atlântico, a capela do Senhor da Pedra surge como uma espécie de farol. Primeiro, as suas linhas esbatidas despontam ao longe na paisagem. Aos poucos, torna-se um objetivo e o cansaço vai sendo medido pela distância que falta até lá. Quando lá chegamos, o desvio torna-se quase inevitável. E se para quem caminha na terra é um bom abrigo, para quem corre a fazer a vida no mar deve parecer um porto de Deus.

Continuando a caminhada, a linha urbana de Espinho surge na paisagem por conquistar. Aos poucos, as formas vão-se aproximando, tendo sempre como companhia o passadiço, a praia e o mar. Cerca de 22 km depois, a chegada à cidade ofereceu o descanso desejado, enquanto nos despedimos do infinito azul com sabor a maresia.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt.
Rota dos Cabeços
Como não estivemos na inauguração do PRM3 – Rota dos Cabeços (ver track) - Oliveira de Frades, logo que a disponibilidade nos abriu uma janela de oportunidade resolvemos aproveitar a descoberta. Já conhecíamos algumas partes do trilho e todas as razões são boas para regressar ao Caramulo. Sabíamos que nos esperava uma caminhada exigente, mas fomos com tempo e vontade de superarmos todos os cabeços a haver. Estacionámos no largo da igreja e seguimos o nosso caminho pelas ruas graníticas da aldeia. Depois de cruzarmos o ribeiro, investimos na direção do cruzeiro. Aos poucos, à medida que íamos subindo a encosta, Varzielas rebaixava na paisagem serrana, até que surgiu inteira numa visão emoldurada do vale.

Ao chegarmos ao Cabeço das Feiticeiras, já com as principais dificuldades vencidas, aproveitámos para descansar e lanchar. Depois de uma voltinha sobre o Vale de Besteiros, com a longínqua Estrela engalanada com um véu de noiva, iniciámos a descida para a aldeia da Bezerreira. Depois dos cabeços, passámos por algumas zonas de floresta e entrámos nos Jardins da Bezerreira, onde os prados se mantêm verdes e úteis. Contornando as ruelas apertadas da aldeia, iniciámos a subida da serra a ficámos a conhecer mais um novo elemento arquitetónico da região: a casula. Previamente tínhamos feito apostas sobre o que seria e acabámos por, numa mescla das hipóteses, acertar na resposta. Na montanha, as dificuldades acabam por aguçar o engenho e a criatividade.

Na volta pela serra, torneando os gigantes eólicos, fomos visitar o penedo que abana, mas o calhau mostrou-se pouco dado a movimentos. Descemos da serra, cirandámos pelos prados e passámos de raspão pela aldeia, prosseguindo para a Corga da Ribeira. Esta era uma das partes do percurso que já conhecíamos e gostámos bastante de regressar. A ribeira escapou ao incêndio e o vale segue verdejante ao longo de todo o percurso. À medida que fomos descendo encontrámos alguns moinhos que já caíram no esquecimento. Cobertos de musgo, parecem estar a refazer um caminho de regresso à Natureza. Esta parte do percurso é bastante bucólica e agradável. Parece que a qualquer momento alguma das árvores poderá ganhar vida e mostrar o Ent que habita dentro de si.

Mais abaixo, encontrámos a rio Águeda e seguimos pelas suas margens com a curiosidade latente. Esta era uma zona desconhecia e cuja descoberta muito nos agradou. Para aproveitamento das águas, foram construídas várias represas ao longo do leito. Assim, o rio espraia-se em lagoas e cascatas sucessivas, muito convidativas a épocas mais estivais. Antes e depois da ponte “Indiana Jones” encontrámos diversos moinhos, também caídos no esquecimento. Após uma nova mudança de margem por umas poldras inventadas, o percurso tornou-se um pouco mais acidentado. O rio galga a penedia imposta em sucessivas cascatas naturais. Também o trilho fura, literalmente, pelos penedos, no Cabeço da Solheira. Para ajudar à progressão, várias cordas foram estrategicamente colocadas nos locais mais difíceis.

Empolgados pelo percurso, antes do Penedo das Inscrições, acabámos por fazer mais um desvio e descer para onde não era necessário, mas foi bastante interessante. No rio encontrámos mais um cenário muito fotogénico. Passando para a outra margem, seguindo por um canal de água caído em desuso, conseguimos mais uma visão sobranceira sobre o vale. O regresso a Varzielas fez-se por caminhos florestais, mas ainda tivemos a oportunidade de fazer mais um pequeno desvio pela zona limítrofe. No final, as dificuldades vencidas tornaram-se em sorrisos na memória. Ficou a certeza de um ótimo dia de Natureza, cruzando os cabeços que a serra achou por bem desenhar e aproveitando o bucolismo inspirador dos trilhos próximos das linhas de água.
Caminho do Xisto da Benfeita
Caminho do Xisto da Benfeita III
O Caminho do Xisto da Benfeita é um percurso circular com cerca de 10 km no coração da Serra do Açor, no concelho de Arganil. Saindo da aldeia, a parte inicial do percurso deambula pelos resquícios de uma agricultura que vai sobrevivendo ao tempo e ao abandono. Os socalcos, as vinhas e os olivais parecem ter sido criados a régua e esquadro, aproveitando os terrenos das encostas conquistadas pelo Homem. Os prados estendem-se de verde pelas margens da ribeira desde a aldeia até montante. Num ambiente bucólico, prosseguimos pelo trilho que fura entre campos e fomos encontrando alguns moinhos em relativo bom estado de conservação.
À medida que se sobe a ribeira o terreno torna-se mais íngreme e surgem os balcões de xisto entre os socalcos. Termina a zona que ainda vai garantindo uma agricultura de subsistência e entra-se num espaço que está a ser paulatinamente recuperado por uma natureza mais selvagem. Os socalcos vão ficando preenchidos de vegetação e o acesso à ribeira complica-se.

Tivemos então a benesse de a nossa visita ser pós-outonal. As folhas caídas preenchiam o percurso e as árvores ganharam uma paleta de cores que tornaram o cenário muito pitoresco. Cada estação tem o seu encanto, mas estas cores são imbatíveis. O trilho tinha ainda outro ponto cromático e alimentício de interesse, já que era a época do medronho. Para além de nos reconfortar o estômago, o chão pintalgado de vermelho alegrava-nos a vista.
Cirandando pelas encostas, fomos subindo a ribeira até encontrarmos uma parede em forma de fortaleza. Com o verde envolvente, parecia um paraíso perdido de sentidos. É sempre interessante ver as diferentes formas que o homem tem para domar os cursos de água aos seus interesses. Depois de um pequeno desvio até à cascata, subimos pela vertente mais acidentada e chegámos ao topo do vale. Tivemos então uma visão inteira do que havíamos percorrido.

O percurso abandonou depois as linhas de água e subiu a encosta em direção à aldeia do Sardal. Pelo meio aproveitámos para fazer uma paragem para o almoço e reter as vistas. Entretanto, a paisagem alterou-se. A vegetação e o arvoredo variado deram lugar aos pinhais cerrados. O passo tornou-se mais lesto e começámos a vislumbrar o Sardal. Mais acima reencontrámos os campos agrícolas em luta com o abandono e entrámos na aldeia, contornando a sua história de isolamento. Atingimos o ponto de maior altitude e a partir daquele momento o percurso seria maioritariamente descendente.
Socalco após socalco, do outro lado da ribeira vislumbrámos uma casa em construção. É sem dúvida um local de excelência para quem quer uma vida regada com paz e sossego. A passagem pela ribeira de Enxudro marcou mais um ponto de excelência no percurso. Aproximávamo-nos da famosa Fraga da Pena, pelo que a natureza parecia guiar-nos para uma beleza ímpar. Avistámos mais algumas casas a montante das famosas cascatas e quando julgávamos que estaríamos perto de entrar naquele mundo encantado, reparámos que o percurso continuava pela encosta para Pardieiros. Percebemos então que o trilho está desviado da Fraga da Pena. Não sabemos se se trata de alguma medida de segurança, mas é pena que o percurso se desvie daquela beleza natural. Decidimos então continuar, mas resolvemos que no final visitaríamos o local.

A passagem por Pardieiros foi rápida e descemos em direção à ribeira da Mata. À medida que progredíamos percebemos que existem de facto muitas pessoas por lá a recuperar casas devolutas, em particular estrangeiros. O sossego e o bucolismo desta serra convencem cada vez mais pessoas a alterar os seus modos de vida e o isolamento parece estar na moda!
Acompanhando a ribeira, fomos passando por antigos campos e vimos várias casas que anseiam por recuperações. Apanhámos então uma levada de água que nos devolveu à Benfeita pelos socalcos de um regresso civilizacional. No final, ficou a certeza de termos realizado um magnífico percurso num cenário fascinante. É um prazer reencontrar estes resquícios de portugalidade esquecida.
Para terminar em grande, fomos revisitar e fotografar a Fraga da Pena, ex-libris da região, e cruzámos em espanto a encantadora Mata da Margaraça numa promessa de um regresso primaveril.

Artigo publicado na GeoMagazine #25.




