Portanto, no que toca à cache e à aventura interactiva, apesar da ideia ter chegado sem esforço, tinha ainda que a validar em diversos vectores antes de começar a levá-la a sério:
- Não visitando o local há quase 20 anos, será que mantinha ainda o que então me encantava? Será que havia viabilidade para construir uma aventura em dois layers temporais, ou as mudanças destas duas últimas décadas teriam minado essa possibilidade de forma letal? Ultrapassei estas dúvidas com um exame atento da fotografia aérea disponível no Google Earth. Para grande surpresa, as mudanças estruturais foram reduzidas.
- Será que conseguiria reunir, em qualidade e quantidade, material gráfico que pudesse ser utilizado na concepção da aventura gráfica? Os meus arquivos pessoais tinham algumas fotografias dessa época. Estamos a falar dos primeiros anos da década de 70 no século passado. Uma altura em que felizmente o meu pai tinha o seu gosto pela fotografia ao rubro, no qual envolveu o meu irmão mais velho. Assim, um telefonema à minha irmã angariou logo uma dúzia de imagens da Sapataria nesses tempos, seguidas por mais um par de dezenas, que ela obteve do nosso mano.
- E quanto à manutenção da cache final? Tentei delegar na minha irmã (a pessoa que comigo partilha uma ligação emocional à aldeia) mas ela recusou. Que tinha criado uma barreira de segurança emocional, que se recusava a reavivar memórias perdidas, a enfrentar as mudanças na Sapataria, a arriscar estilhaçar recordações sagradas. Mas a verdade é que, por fim, acedeu, e, mais para a frente, acompanhou-me mesmo na recriação do percurso que funcionou como teste final desta Whereigo.


Instantâneos da vida quotidiana numa pequena aldeia da região saloia em meados dos anos 70
Viabilizado o projecto no plano teórico, era tempo de tomar algumas decisões práticas:
- Iria ao local recolher elementos para a construção da aventura ou trataria de tudo remotamente, recolhendo coordenadas e apurando o percurso através do Google Earth. A Sapataria fica a uns 350 km da minha base em Portugal. Estava excitado com a ideia de colocar o projecto a rolar, e sem possibilidade de me deslocar lá nas semanas seguintes. Decidi-me pela opção menos fiável, mas mais simples e imediata: construiria toda a aventura sem visitar o local, e quando estivesse tudo pronto, faria uma simulação no terreno, na perspectiva do jogador, e apuraria o que fosse necessário apurar.
- Em que língua escreveria os textos da aventura? Idealmente, criaria um “cartdridge” em português e um outro com uma versão internacional em inglês. Pensei nisso, cheguei a decidir nesse sentido, mas mudei de ideias, mais por força prática do que por decisão ponderada. É que começei a escrever em inglês, e quando olhei apercebi-me da trabalheira que seria criar tudo aquilo em modalidade bílingue. De resto, se tivesse que optar apenas por uma língua, seria sempre pela que daria acesso à cache a jogadores de todo o mundo. Mesmo que não acreditasse que muitos se aventurariam na Sapataria.
- Qual seria a extensão do passeio? Bem… deixei a aventura correr por si. Se quando chegasse ao fim do desenvolvimento visse que tinha ficado exageradamente curta ou demasiado longa, adaptaria algo para corrigir os desvios. Mas acabei por ficar satisfeito com o resultado final, que saiu de forma natural: 4 ou 5 km, uma distância a percorrer em 2 ou 3 horas. Razoável para uma tarde ou uma manhã de Geocaching sem pressas, como se pressepõe que será o estado de espírito ao abordar uma Whereigo.
Depois, em termos de decisões, foi uma torrente. Mas de carácter mais operacional, cuja descrição não tem cabimento num texto destes, e cuja maioria, de resto, já foi esquecida. Um dos principais problemas ao construir uma aplicação Whereigo é que estamos a trabalhar com um programa que não conhecemos, e cujo funcionamento e possibilidades temos que descobrir à medida que avançamos. Mesmo agora, que consegui concluir a “Sapataria”, teria que começar do ponto zero se me decidisse a avançar para a construção de uma segunda aventura Whereigo. É muito diferente dominar um programa que utilizamos todos os dias do que ter um conhecimento práctico aprofundado de software com que lidámos durante uns dias e depois foi colocado na prateleira.


Eu, quase há quarenta anos atrás, e as nossas casas
Assim, sem um plano delineado no papel, como faria um bom informático de gema, a criação desta Whereigo foi constítuida de avanços e recuos, à medida que iam sendo descobertas as possibilidades (muitas) e as limitações (poucas) do software. Alguns detalhes ameaçaram conduzir-me à loucura. Mas melhor ou pior as coisas foram avançando e o projecto foi ganhando forma, cada vez mais sólida, mais volumosa, até ter sido dado por concluida a fase doméstica.
Na teoria, a coisa estava acabada. Os passos do geocacher tinham sido ensaiados no emulador para PC vezes sem conta. Tudo batia certo, como um relógio suiço. Mas estava ciente que certamente muita coisa me estava a escapar. Havia tantos detalhes, tantas variáveis. De certeza que não era possível cobrir tudo, prever todas as possibilidades. Mas de momento nada mais havia a fazer.
Visitei a minha irmão, numa pequena aldeia nas imedições da Ericeira. E juntos fomos à Sapataria. Não só era necessário testar no terreno a cache Whereigo, como precisava de recolher imagens modernas que poderia ainda incluir na aventura interactiva. E depois, claro, era preciso plantar no local final o contentor com o logbook e os tarecos usuais. O dia foi bem escolhido. Os deuses da metereologia presentearam-nos com uma tarde cheia de sol e temperatura amena, ideal para a pequena caminhada que viria a suceder. A minha irmã, super excitada com tudo aquilo. O Geocaching não era novo para ela, mas a ideia de partilharmos as nossas memórias familiares com o resto do mundo tinha-a deixado eufórica, e quando começou a jogar (ela foi a cobaia em absoluto – dei-lhe o aparelho para as mãos, expliquei-lhe os rudimentos e deixei as coisas correr…) e a ver as imagens e a ler os textos ninguém mais a conseguiu agarrar.

A minha irmã e braço direito neste projecto, a meio do teste final
Quando chegámos ao ponto final, estava positivamente surpreendido: de tanta coisa que podia ter corrido mal, e apenas num ponto havia um pequeno “encravanço”. Algumas imagens não apareciam na ordem devida, mas tudo isto eram arestas simples de limar. Claro que ainda havia espaço para problemas posteriores, mas agora teriam que ser geocachers a detectá-los, com a rodagem natural do jogo. Para já, estava terminado. Depois de encontrar um nicho adequado para abrigar o contentor, sabia que a cache estava pronta para ser submetida para publicação.
Hoje, quase um ano depois, esta cache tem 50 founds, 2 DNF’s. Uma média GCVote de 4,5 e 21% de logs marcaram-na como “Favorite. Sobretudo, foram registados logs de grande qualidade, que me encheram de alegria e motivação. Poucos foram os problemas assinalados: é certo que em determinado momento, existe um pequeno “andar para trás e para a frente” que é capaz de resultar desinteressante para quem procura a cache, e que estarei disposto a eliminar quando me sentir com coragem para reentrar nos meandros técnicos de uma Whereigo; há também o aspecto desta Whereigo ser apenas uma cache, e não seguir os principios das cartrdidges… eu explico: segundo o conceito inicial, uma Whereigo (não sendo obrigatoriamente uma cache) deveria, uma vez completada a aventura, ser “desbloqueada” com uma chave obtida na última fase, fornecida pelo programinha; ora no estado para o qual o Wherigo, como projecto autónomo, regrediu, considero perfeitamente irrelevante este aspecto de “desbloquear” o cartdrige. A cache é que importa, e as coordenadas são dadas como prémio no final da aventura.
Surpreende-me que não tenham surgido problemas técnicos, nomeadamente incompatibilidades. Uma Whereigo pode ser jogada com recurso a um GPSr Garmin habilitado (Colorado, Oregon), com um PDA com PocketPC ou com telemóveis com Symbian (perdoe-me se me esqueci de algo). Ora eu testei apenas com o meu Nokia 5800, e correu tudo bem. Esperava que viessem a surgir problemas com outras combinações de hardware, mas tal nunca sucedeu. Tanto melhor.
Agora, começa-me a aflorar a ideia de partir para uma sequela. Depois das recordações da meninice na Sapataria, as memórias da adolescência nas férias de Verão em Vila Nova de Milfontes. Uma outra Milfontes, onde não existia uma ponte sobre o Mira, onde apenas existiam duas pequenas pensões e um restaurante, onde a estrada acabava no barbacã e o passeio até ao farolinho se fazia a pé, pela areia.
Esta e outras estórias de Geocaching no meu blog http://papacaches.wordpress.com



