Já não me recordo quando nem como. A verdade é que ficou combinada uma pequena expedição à Costa Vicentina, com passagem pelas caches que se atravessassem pelo caminho a partir de Vilamoura. Na realidade, de Costa Vicentina a expedição teve pouco, quiçá porque muito se interpôs, pequenas paragens, desvios menores. Algumas caches banais e um par de “assim assim”, até chegarmos às imediações do prémio grande do dia: The Nest of Jonathan Livingston Seagull.
Não se rola muito para além de Vila do Bispo antes de se deixar o asfalto. Desde esse ponto são 4 km numa linha recta. Durante os minutos que demoramos a vencer essa distância a minha mente está absorta, dividida entre a paisagem bravia que se vai desenrolando diante dos nossos olhos e a reflexão sobre os anos que este momento demorou a acontecer. Quando cheguei ao mundo do Geocaching, no Verão de 2004, esta cache já tinha nascido há mais de um ano. Atemorizado pelas quatro estrelas e meia de classificação de terreno, fui adiando uma visita. Depois, o emaranhado de caminhos de terra batido e o facto de nem sempre andar por aquelas paragens com uma viatura TT, contribuiram para o atrasar de uma expedição que ameaçava tornar-se um fantasma caminhando eternamente à minha frente. Os relatos na primeira pessoa não ajudavam. Que era impressionante, que era a melhor cache em Portugal… ora eu, aprendida que estava à custa de experiência própria que o que geralmente era considerado bom não era coisa para me agradar, fui tomando estes testemunhos como uma derradeira advertência. Mas, por outro lado, o bichinho não deixava de roer. Não faço ideia se era curiosidade, se era o alter ego do eu prudente a querer falar mais alto. O que sei é que durante estes sete anos, a imagem de uma falésia de cume afiado e água espumosa a fustigar as suas faces me vieram à ideia de forma espaçada mas presistente. Quando oProdrive me convidou para esta expedição – logo ele, um dos maiores entusiastas desta cache – sabia que seria feito. E foi assim, comigo a matutar no receio, mais feito respeito do que pânico, das alturas, que chegámos ao local.

O Atlântico. Essa entidade omnipresente em quase todas as manifestações culturais deste nosso povo. O mar, essência da portugalidade – a que muitos chamarão agora de tuganismo, ou coisa que o valha – e alma deste país. É acima de tudo o poder desta massa infinita, estendida a perder de vista, que domina aquelas paragens. E se for cego, o ribombar das vagas nas duras rochas não me deixará ao engano. É o mar que ali está. Mesmo assim, se não tiver esse sentido, será o vapor carregado de perfume a que chamamos de marezia que trará a mensagem. É o mar que ali está. Em poucos locais da nossa bela costa se consegue sentir esta presença quase etérea. Lembro-me de me sentir pequeno, muito pequeno, em dias de tempestade no cabo da Roca ou nos areais do Guincho. Mas hoje não é dia do rei Inverno juntar forças com o todo poderoso mar. É simplesmente um dia de verão, plácido em todo o lado, menos neste canto, onde as águas, atiçadas pelo soprar de um vento ululante (ou será o oposto…?) atacam sem cansaço a terra.

Green… shades
Os meus companheiros de viagem apontam-me a direcção. Eles já lá estiveram. Eu sou o convidado de honra, o iniciado da Irmandade do Rochedo, com o coração a bater desordenadamente perante emoção e desafio. Vamos lá então. Sigo em último na linha de caminhantes que se estende por umas dezenas de metros. Somos seis, mas apesar de tudo o seguir na cauda não se prende com o receio que pudesse sentir. Gosto sempre de caminhar atrás, para apreciar ao meu ritmo a envolvência. Fotografar sem empatar, e, depois, sem necessitar de mal-dizer a perna curta com que os meus genes me dotaram. Continuamos a andar, em frente, depois, curva ascendente em cotovelo, e a mesma linha numa cota mais acima, e de repente estamos lá. O quê? É só isto? Tanta algazarra, tantos medos passados, tanta fama, tantas estrelas por causa disto? Soubesse eu que o desafio físico era tão reduzido e já há muito tinha vindo acertar contas com este meu papão quase privado. Mas se a provação não foi a esperada, a experiência foi muito mais. Metafísica. O dia estava a correr mal. Algumas caches muito mal amanhadas e um par de DNF’s imediatamente antes. E poucas encontradas. Muito tempo entre elas, demasiado à procura de cada uma. Bastaram contudo alguns minutos neste ambiente e todas as mágoas de alma foram lavadas. Mais houvesse e teriam, também elas, ido, arrastadas pelo caudal curandeiro daquela terapia sensorial. É simplesmente magnífico, e, sei disso sem que uma palavra tivesse sido proferida, todos os constituintes do grupo sentiram o mesmo. Silêncios partilhados, olhos fixos nas águas. Até ser tempo de voltar para trás.

Antes da abordagem a esta cache, tinhamos conduzido o cachemobile por caminho menos acertado, e demos por nós no promontório anterior (de quem vem de sul). Foi um óptimo erro, porque me permitiu apreciar o desafio de uma certa distância, apreciando a dimensão global da coisa, com o trilho, lá em baixo, muito pequeno, insignificante. Depois, encarrilhando a viatura na estrada acertada fomos gracejando: que ali calhava mesmo bem uma cache para que a The Nest of Jonathan Livingston Seagull não padecesse das dores desgastantes da solidão de noites a fio, apenas ela a sua precária base sólida e as águas todo em redor, à espera, sempre à espera, das próximas mãos humanas que a libertassem, mesmo que por apenas um mero par de minutos, tempo necessário para uma exploração breve de conteúdos e uma rubrica no livro de registos.

Vinhamos já de regresso ao carro, deixando o estreito trilho para trás e abordando o trecho que se desenvolve em terrenos perfeitamente sólidos. O Prodrive tinha parado, olhar apreciativo, fixo na majestosidade daquela outra massa rochosa. E eu sabia o que lhe ia na ideia. Como é, vamos a isto? A mim, incomodava-me um pouco a proximidade de uma outra cache, e logo uma senhora gigante do nosso Geocaching, uma a que muitos chamam – e com toda a justiça – de a melhor de Portugal. Hesitei, hesitei muito. Mas deixei-me arrastar pela emoção do momento, tão especial, que ali se vivia. Vamos lá então a isto. Ele, foi lá acima, ao carro, buscar um “container” sempre preparado para estas ocasiões. Metade do grupo ficou ali, aguardando, roubando mais umas golfadas daquele ar único. A outra metade, avisada pelo Prodrive, foi aparecendo. E juntos esperámos pela chegada da nova cache.
Há duas formas de se vencer o desafio novo que naquele dia foi criado. A mais curta, é mais radical, e nenhum de nós a tentou: é uma questão de conduzir até ao ponto a que inicialmente chegámos, antes de percebermos que estávamos no acesso errado à The Nest of Jonathan Livingston Seagull. Há um trilho logo desde ali, mas estreito, sinuoso e desprotegido. A outra, que escolhemos, parte do acesso à cache que tinha acabado de encontrar, e inicia-se com uma abordagem simpática, no meio de uma vegetação incrivelmente verde, progredindo depois para o promontório onde se caminha com o mar pela esquerda. É também um espaço exíguo, mas faz-se bem, e onde a coisa se torna mais periclitante, existe uma corda de auxílio. Logo à frente, todos os outros prosseguiram, mas eu, que não gosto muito de alturas, acobardei-me e deixei-me estar. Vi o último elemento do grupo dobrar a esquina que parecia ser para o fim do mundo conhecido, e fiquei sozinho. Estava frio. Apesar de em todo o território de Portugal Continental estar um calor abrasador, ali, estava de facto frio. O vento soprava, arrastando consigo partículas de água gelada, e recuei um pouco, procurando uma nesga de sol. Nisto vi-os, lá em cima, a acenar para mim. E nesse momento, vi também uma outra possibilidade de ascensão, que implicava os super poderes de uma cabra alpina, mas que não implicava vistas para precípicios. Cheguei quando eles já desciam, mas ainda a tempo de chegar à conversa com o Billy VespasFriendsAlgarve, que me passou o GPS para a mão. Sem fazer ideia de onde o container estava, apenas com as coordenadas e um GPS, senti legitimidade para encontrar esta nova cache, claro, sem me passar pela ideia reclamar um FTF, esse vago conceito que deixou de ter piada depois de tantos o levarem tão demasiadamente a sério. Concluido o acto, desci por onde tinha subido, desta vez com o Billy a acompanhar-me. Logo, nos juntámos aos outros. Iamos ainda debatendo quem seria o progenitor oficial da nova cache e qual o nome a dar-lhe. Eu, expressei um certo constrangimento na situação: sentia que de certa forma tinhamos acabado de usurpar o merecido protagonismo da The Nest of Jonathan Livingston Seagull. E foi então que o Prodrive atirou a sua sugestão de baptismo, que venceu todas as minhas resistências: vamos criar um tributo aos Greenshades. Vamos chamar-lhe simplesmente Greenshades? Excelente! Até pela dupla significância: não sei se mais alguém se apercebeu das tonalidades esverdeadas do mar naquele dia. Green… shades….
Nesse dia ainda encontrámos mais 2 ou 3 caches. Mas seriam pouco mais que nada, surgindo na sequência desta experiência. Aliás, nada voltaria a ser como era. A The Nest of Jonathan Livingston Seagull lá ficou, mas, agora, nos termos em que o Prodrive Jr colocou as coisas, agora com a irmã-gêmea dedicada aos GreenShades.

Terminada a magia, prestes a partir
P.S. – Participaram nesta expedição, para além de mim, o Prodrive, organizador e condutor; Zaya, minha metade de equipa quando me decido a fazer Geocaching em equipa; Billy, meia VespaFriendsAlgarve; Prodrive Jr, cujo nume diz tudo; Andrea, Couchsurfer, não Geocacher, que me abrigou um dia em Milão e agora veio devolver-me a visita.
Esta e outras estórias no meu blog Papacaches.



