Às vezes vejo coisas que estão menos bem, e penso que o que acabou de me passar pelos olhos foi uma excepção, mas aquela excepção segue-se outra, e depois outra. E quando olho de novo, a regra foi alterada, e o costume deixou de o ser. Pode ser uma alteração para melhor, mas no Geocaching raramente o é. E se há destas situações, de regras transmitidas de boca em boca, que tanta razão de ser tinham e vai-se a ver e deixaram de existir. Perderam-se, quase sempre naquele pedaço de tempo, quando alguém chega a um sítio novo e aprender a fazer o que vê. E se vê mal, faz mal. Cinco exemplos:
- Leve material de escrita. Antes, havia esta regra, ensinada desde logo aos que se iniciavam: ” – Para criares uma cache, arranjas um container, pões lá dentro um livrinho de registos, uma stashnote, algumas prendinhas para trocar e algo para que os visitantes escrevam o log.“
Pergunta do iniciado: “- Então, mas e quiser colocar a cache num sítio onde há muita gente e onde não há espaço para colocar uma caixa onde caiba isso tudo?“
Resposta: “- Em vez de um um livrinho de registos, pões uma série de tiras de papel enroladas, e arranjas um stashnote com letras pequeninas e colocas no mesmo formato. Os brindes esquece. Arranjas um lápis e corta-lo à medida.“
Questão seguinte: “- E se o que eu quiser mesmo é criar uma daquelas muito engraçadas, muito pequeninas, que mal se conseguem ver e que parece que se chamam nano-caches?“
Resposta: “- Então pões mesmo só um papelinho muito bem enrolado para que as pessoas coloquem o seu nome e data de visita“.
O que se seguiu, já se sabe. A febre das quantidades espalhou-se como um vírus, e de repente já não era suficiente criar uma cache com amor de mãe, estrategicamente posicionada num local pleno de interesse, no ângulo mais adequado para que o achador a manuseie. Não, geocacher que se preze passou a criá-las à centenas, e, já se vê, isso de arranjar stashnotes e prendinhas e logbooks e caixas e lápis cortados à medida, tudo à centena, são coisas que dão demasiado trabalho e custam dinheiro. Então, o tal geocacher corta em tudo o que não é exigido à luz das guidelines. Resta o logbook. Uma micro com um papelinho enroladito lá dentro. É nisso que consiste a grande maioria das caches urbanas. Vim de três dias a cachar em Lisboa. Encontrei cerca de 60 caches. Todas, e repito, TODAS, assim. Quando e porquê a regra não-escrita que existia para nano-caches se alargou a micro-caches e mesmo a tamanhos maiorzinhos? - Coordenadas à Toa. Num jogo em que uma das poucas regras básicas é que se vai usar um GPS para encontrar algo nas coordenadas fornecidas, seria de esperar que existisse algo para encontrar nas coordenadas fornecidas. Mas muitas vezes não é assim. Não estou a falar de caches desaparecidas ou das que nem foram colocadas a tempo e horas. Estou a pensar é naquelas que estão afastadas das coordenadas que o owner indicou. Pessoalmente, o maior desvio que encontrei foi de cerca de 200 metros. Mas há histórias de casos ainda mais radicais. Vamos lá ver… toda a gente se pode enganar a tirar coordenadas, não é isso que está em causa. A questão é que existia o bom hábito de, quando se ia encontrar a cache significativamente distante do ponto indicado, providenciar as coordenadas correctas no log de Found It. Com toda a naturalidade. Não é um spoiler nem uma falta de respeito a ninguém. Muito pelo contrário, é um sinal de respeito e um acto de interajuda. Está-se a evitar que o colega seguinte ande para ali às aranhas sem necessidade nenhuma. E, eventualmente, está-se a fornecer os dados correctos para que o owner acerte as coordenadas indicadas. Mas não. O bom hábito de fornecer os dados correctos foi substituido pelo absurdo de logs assim: “Fui encontrar o contentor a 25 m de distância, depois de procurar durante quase uma hora”. Ué!? E cadê as coordenadas? Alguma razão válida para não serem partilhadas? Já me disseram que era para não ofender os owners. Fiquei a coçar a cabeça, sem conseguir distrinçar onde estaria a ofensa.
- Dois Dedos de Conversa. Lembro-me da primeira vez em que encontrei um outro geocacher em acção. Aquilo foi uma festa. Nem sabia que era possível. Depois desse dia tive outros encontros, e sempre batia dois dedos de conversa, falava-se sobre o jogo, por onde é que se tinha andado, para onde se ia, e às vezes partia-se mesmo dali para uma cachada conjunta. Depois, estive uns anos ausente, passei pouco tempo em Portugal, e quando estava andava por áreas com menos jogadores. Durante muito tempo não encontrei ninguém. E quando voltou a acontecer fiquei chocado. O outro tipo parecia que em mim reconhecia apenas a existência de outro animal de duas pernas. A partir daí a história repetiu-se, com variantes. Desde gente que aparentemente fazia questão em não deixar sair uma palavra que fosse, até aos que fugiam como se tivessem visto o demónio. Na melhor da hipóteses um “boa tarde” e dá cá o container que tens na mão para eu logar também. E pouco mais do que isto. Perdeu-se o hábito de se gastar 10 ou 15 minutos à conversa quando se encontra um companheiro de hobby. Talvez seja da pressa para partir para a próxima cache, ali ao virar da esquina…
- Não vamos colocar a cache em risco, boa? Ainda há aqueles que têm um respeito cauteloso aos muggles, mas o vento está a mudar. Cada vez mais ouço relatos e testemunho pessoalmente variantes desta infeliz situação: um grupo de pessoas aproxima-se do local de uma cache, um deles de GPS em punho, espalhando-se a pequena multidão em leque, grande alvoroço, com crianças que berram: “Aqui não está!”… “Vejam lá se está aqui”. E, enquanto se encavalitam em bancos e trepam a pilares, chamam a atenção de cada muggle num raio de centenas de metros, até ao grande apogeu: “ENCONTREI! TÁ AQUI!”. E a campeã sai de um canto com a cache na mão, mostrando-a a todos os outros (e, claro, a quem quer que não tenha ficado indiferente à algazarra), que começam a rodeá-la. Isto, é meio caminho para que uma cache seja destruída por alguém mais desconfiado, mais malicioso ou com mais medo do desconhecido. Sem necessidade. Apenas porque se está a perder o hábito da discrição na procura.
Artigo do blog Papacaches. Mais textos em http://papacaches.wordpress.com


