19de abril,2026

07 November 2016 Written by  RuiJSDuarte

PR10 Rota do Minério - Mina de São Domingos

Não há para mim melhores passeios do que aqueles que se proporcionam do nada e em locais onde dificilmente iríamos parar, em que, como se de uma prenda se tratassem, “nos saltam para as mãos”… este foi mais um desses.

As férias de Verão Algarvias têm-se tornado, de uma forma bastante surpreendente, palcos de algumas das minhas melhores aventuras geocachianas. Senão vejamos – em 2013, nadar até à The Cave em Benagil; em 2014, urbex no Palácio Fonte da Pipa em Loulé; em 2015, de bicicleta pela Grande Rota do Guadiana, de VRSA a Alcoutim e agora, em 2016, novamente na companhia da minha fiel amiga pela Rota do Minério na Mina de São Domingos. Tendo em conta que as minhas férias são dedicadas quase em exclusivo à família e que não programo passeios geocachianos para as mesmas, não me tenho saído nada mal!

Esta PR10 PNVG Rota do Minério é… algo de completamente diferente! Um percurso pedestre oficial marcado numa zona de ambiente pós-apocalipse e colapso industrial mineiro não é coisa onde se tropece todos os dias.

O percurso inicia-se em São Domingos, junto do antigo Palácio dos Ingleses, antiga moradia de um dos directores da empresa “Mason and Barry” dedicada à exploração mineira dos filões de cobre locais. No meu caso começou às 06:00 mesmo no interior do Palácio, onde estava alojado, e onde se podem encontrar diversas máquinas relacionadas com o tema (certamente recuperadas do espólio mineiro).

À porta do, agora, Hotel e nos bem cuidados jardins de fronte encontramos um par de placas (duas das muitas que existem ao longo de todo o percurso e onde quer que haja um verdadeiro ponto de interesse) que nos explicam estarmos na zona das moradias dos antigos administradores. Zona que estava vedada aos operários, excepto aos domingos, por forma a permitir que estes pudessem assistir aos concertos que ocorriam no coreto (que ainda hoje domina o espaço), por estes dias vizinho da cache Jardim da Mina [GC4MCDF].

Deixando a zona ajardinada enveredamos por um pequena descida que nos deixa praticamente no coração de uma das duas mais interessantes e impressionantes zonas “urbex” locais. O percurso desenrola-se para a direita mas temos (mesmo) de guardar uma boa fatia do passeio para explorar toda a zona que nos fica para o lado esquerdo.

É aqui que encontramos uma série de edifícios, entre os quais os das antigas oficinas e aqueles que assinalam a entrada da antiga mina subterrânea e a enorme lagoa ácida, lar de um par de excelentes Earthcaches, a S. Domingos Mine Earthcache - DP/PT/EC1 [GCNJ7E] e a STOCKWORK – DP/EC61 [GC3J6RX], ambas do Prof. Daniel Oliveira e revisor ibérico das ditas ECs, cujas listings devemos MESMO ler para obtermos (ainda) mais informação sobre o aparecimento, e desaparecimento, da exploração mineira e seu legado.

Sobre este assunto a consulta da página do ICNF.pt dá-nos excelentes explicações – a saber:

1 - A zona localiza-se na “Faixa Piritosa Ibérica”, que se estende de Grândola a Sevilha, e que contém grandes concentrações de metais (ferro, cobre e enxofre).  A pirite é uma rocha formada por ferro e enxofre (onde podem estar presentes outros metais).   

2 – A mina de São Domingos é apenas um de vários complexos mineiros instalados ao longo destes 250km de faixa piritosa. Durante cerca de 400 anos os romanos exploraram este local em busca de ouro e prata, levados ao engano pelo brilho amarelado da pirite. Quem é que ainda não ouviu falar no “ouro dos tolos”?!

3 – Em 1853/4, foram redescobertos os filões de cobre, passando a concessão para as mãos da empresa britânica Mason and Barry. Foi quando as minas ganharam nova vida e São Domingos se viu dona do título de “maior e mais importante complexo industrial mineiro do seu tempo, em Portugal”, chegando a ter mais de 2.000 mineiros empregados.

4 - A exploração do cobre começou por ser feita a céu aberto e acabou por dar lugar à escavação de galerias. Este metal era exportado para vários locais pelo que, no sentido de agilizar o processo, se montou uma das primeiras linhas ferroviárias do país (17 km), ligando a mina a um ponto navegável do rio no Pomarão. Daqui era transportado até Vila Real de Santo António e para o alto mar onde, em grandes navios, se fazia o percurso para o destino de exportação (Londres recebeu mais de 80% do minério explorado).

Deixamos para trás esta zona e rolamos pelo caminho de terra batida em direção à outra “das duas mais interessantes e impressionantes zonas “urbex” locais” que refiro acima. O caminho está muito bem conservado (e compacto), tanto que regressei umas horas mais tarde de carro para mostrar a mina à restante família. Dizia eu, rolamos pelo caminho parando a espaços para fotografar a impressionante paisagem que nos é dada a cada curva… e para ler mais alguns dos pequenos painéis que ora nos dão informações sobre o que vemos, ora nos dão indicações relativas à toxicidade das coisas e nos aconselham a termos algum cuidado.

A paisagem coaduna-se perfeitamente com o nome de uma de duas caches que nos aparecem no GPS (infelizmente do lado oposto da margem por onde se desenrola o passeio), a Estou na Lua [GC3CHN4]. São realmente imagens lunares aquelas imagens que nos assaltam a mente ao longo dos primeiros cinco ou seis km. A outra cache é a “P´rá Mina” [CG3CHNG] cuja listing tem mais imagens muito bem ilustrativas do que se pode encontrar.

Estamos a dirigir-nos para a Achada do Gamo, a zona mais espetacular de todo o conjunto mas não podemos deixar de reparar na(s) ribeira(s) e lençóis de água com que nos deparamos (e que transpomos por diversas vezes até terminarmos a primeira parte da PR)… toda a mina encerra graves problemas a nível ambiental pois os antigos locais de extração e os materiais depositados à superfície são áreas de libertação de metais pesados e representam fontes de poluição. O maior problema coloca-se nas áreas onde a pirite está exposta ao ambiente pois, em contacto com o ar e com a água, sofre um processo químico (drenagem ácida) e liberta metais pesados que acabam por atingir os aquíferos e são arrastados pelos antigos canais até à ribeira do Mosteirão, um dos afluentes da ribeira do Chança (que tem ligação ao Guadiana).

A paisagem leva-nos a pensar que estamos na ausência total de vida, quer animal quer vegetal. Mas não, não é assim… um olhar mais atento revelará, mais cedo ou mais tarde, simpáticos coelhos a fugir à nossa passagem, há bastantes por ali. Mas mais do que mamíferos, esta zona está referenciada como local privilegiado para a observação de Aves! Existem algumas espécies bem interessantes por aqui, entre elas o Andorinhões-cafre, o que faz desta zona uma das poucas onde pode ser observado com regularidade no nosso país. Tendo também o chamado BirdWatching como hobbie, juntei aqui três dos meus favoritos… geocaching, bicicleta e observação de aves. Consegui muito boas fotos de Andorinha-dautrica e de Andorinha-das-rochas (os meus primeiros registos de ambas as espécies), curiosamente ambas pousadas nos edifícios da Achada do Gamo.

É no entanto na flora que ocorre a maior surpresa relacionada com os seres vivos locais. O rosa das flores de uma urze de nome Erica andevalensis não passa de todo despercebido em diversos pontos, principalmente ao atravessarmos as pontes que cruzam as ribeiras. Esta urze consegue sobreviver e tirar partido destas condições, de tal modo que só existe aqui e nas minas de Rio Tinto. Suporta valores de pH muito ácidos e esta tolerância torna-a num objecto de estudo para a recuperação vegetal em zonas degradadas… além disso, são bem bonitas!

Regressando à Achada do Gamo, estas ruínas foram em tempos o albergue das máquinas dedicadas à moagem do minério mas hoje em dia são algo de Fantástico (pelo menos para nós)! Não é de todo inocente o nome dado à excelente e velhinha cache, colocada pelo pcardoso em 2003, Apocalyptic Visions [Mértola] [GCC353]. Está colocada num local soberbo e permite uma das melhores vistas do complexo (a melhor?). A aproximação feita pela PR permite encontrar mais um bom painel informativo junto a um edifício (perto de um outro painel que chama a atenção para o perigo de derrocada das instalações), antes de treparmos até à cache e à vista oferecida pela mesma. Na base do complexo e confirmando o que se pode ler na listing desta cache tradicional - “Cuidado com as águas contaminadas, alguns lagos são extremamente ácidos”, temos uma segunda enorme lagoa (rasa), mais uma Earthcache do Daniel Oliveira, a Alchemy 101 - DP/EC32 [GC1HFRT] e uma receita caseira para medição de PH que envolve couve roxa e água destilada. Uma delícia.

A restante primeira parte do percurso faz-se de forma célebre, parando nas pequenas pontes sobre a ribeira para mais uns olhares curiosos e numa zona que leva, habitualmente, mais água… Santana de Cambas, uma pequena povoação, já se adivinha ao fundo e são “apenas” 1,5km de subida até lá, o ponto mais longínquo do percurso, onde iniciamos o regresso a Mina da São Domingos.

Se seguirmos o trajecto proposto não estamos na localidade mais que 100 metros… e voltamos aos trilhos de terra batida.

O regresso é feito por uma zona que não tem, aparentemente, nada a ver com a extração de minério… mas tem, tem mesmo. Grande parte destes trilhos da segunda parte (à excepção da excelente descida da localidade, pelo menos para quem a faz de bicicleta) proporcionam belas e frescas sombras, graças ao grande número de excaliptos que ali existem. Ora, estas árvores foram inicialmente plantadas para fornecerem madeira aos fornos da fundição e para mitigar os efeitos dos gases, fumos e poeiras libertadas pelos trabalhos na zona.

Esta espécie australiana, importada para Portugal pela qualidade da madeira e pelo seu rápido crescimento, consegue desenvolver-se em locais algo inóspitos (e este é um deles, sem dúvida). Engraçado como as características do próprio eucalipto ajudam a deteriorar o meio ambiente… a mais conhecida é a de que consomem muita água. Pois bem, é verdade. E se plantados em zona com pouca precipitação desenvolvem um grande número de raízes que acabam por secar o subsolo impedido o crescimento de ervas e arbustos, ajudando na erosão do solo e afastando a fauna.

Desta segunda parte retemos o avistamento dos ocasionais, e lindíssimos, Abelharucos (no verão) e a passagem por Montes Altos, localidade que faz jus ao nome e que nos brinda com uma excelente vista para Sul. Mas a melhor vista aparecerá um mero quilómetro e meio junto a um… adivinharam… um Vértice Geodésico. “O” Minas, aos seus 188 metros de altitude proporciona uma vista BRUTAL em redor, especialmente para Norte e Este… vale bem a pena parar um pouco aqui a recuperar as forças, até porque estamos quase de volta ao ponto de partida.

Apenas mais uma paragem… O antigo cemitério dos Ingleses! Um pequeno cemitério a uns metros do caminho, destinado a sepultar a população inglesa que ali habitava. Um facto interessante é que vinha terra de Inglaterra para que pudessem ser sepultados em solo inglês (pelo menos é o que se diz, e lê, por aí).

E fim! Estamos de regresso a Mina de São Domingos… dezenas de km2 de “atentado ambiental” que nos fazem sentir parte de uma dos famosos filmes “Mad Max”, um gigantesco Urbex, playground perfeito para nós, Geocachers aventureiros!

Fontes: http://www.icnf.pt/portal/turnatur/visit-ap/pn/pnvg/miner

Trajecto: http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=13997108

 

Texto / Fotos: Rui Duarte (RuiJSDuarte) 

Artigo publicado na GeoMagazine#23.



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