O processo responsável por levar a energia, que inunda o bem-estar, desde os acumuladores até aos pedais é algo complexo e, para evitar que este relato não seja substituto do bom processo de contar carneiros para adormecer, vou fazer aquela coisa que os camones chamam de “skip it and go ahead”.
Com a imaginação polvilhada pelas recordações do local que ia revisitar, e que está vários degraus acima da classificação de “bem conhecido”, a motivação para converter o movimento alternado de vaivém das pernas em movimento de rotação contínuo das rodas estava no máximo. Cheguei até a pensar que desde minha casa até ao inicio da Ribeira de São Pedro, o caminho fosse sempre a descer, já que praticamente não dei pela distância passar.

A euforia, não abusiva que me acompanhava, converteu-se, nas primeiras centenas de metros daquela magnífica mata, num sentimento difícil de explicar e aceitar. A mãe natureza deveria estar desesperada para infligir tanta destruição e dizimar tantas daquelas que morrem de pé.
Já me tinham dito que a destruição era muita, mas o superlativo absoluto de qualquer adjectivo utilizado na descrição do desastre natural ficaria sempre aquém da realidade. Tentei não me deixar intimidar pelo semblante triste da floresta que contemplava as irmãs que jaziam por todos os lados, mas não pude evitar que uma lágrima rolasse acompanhada de outras solidárias com toda aquela melancólica devastação.
Um percurso que em condições normais demoraria uns escassos cinco minutos levou-me mais do que cinquenta dos sessenta espaços redondos do mostrador do relógio, tentando mesmo por vezes conseguir a minha desistência. Não sei como consegui, mas acabei por chegar ao local onde se escondia o primeiro dos tesouros que me tinha proposto visitar.
Com o caminho marcado pelos pés de quem procura tupperwares com conteúdo espiritual, rapidamente encontrei o que procurava.
Ali, nem um vestígio dos resquícios da tempestade. Apenas a calmaria apressada da água ferrosa que corre na ribeira, quebrava o silêncio ensurdecedor da natureza, correndo impaciente na ânsia de beijar o oceano uns milhares de metros mais abaixo.

Depois de atravessar uma espécie de campo de batalha, onde as mais intrépidas não resistiram, lá consegui vislumbrar o caminho de regresso a casa, já com o prenúncio da hora dourada a clamar como suas as nesgas que restavam por entre a vegetação e árvores que escaparam ao martírio selectivamente natural.
Quando cheguei a casa e acomodei a minha fiel montada no seu local de descanso, pareceu-me escutar algo idêntico a um suspiro, daqueles que se soltam quando se tem a alma inundada de tristeza.
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