No princípio, é a ideia; não nasce, aparece.
Sempre ali esteve escondida, à espera do momento oportuno, como um anel que repousa no fundo de uma caverna de uma montanha à espera da pessoa certa para se revelar.
É então que a nossa imaginação é subjugada pela sua vontade. As ilusões do dia-a-dia tornam-se espelhos de uma vida inacabada.
Tentamos conjugar o destino na nossa consciência e acreditamos, por um momento quase fútil, que seremos capazes.
Apenas o tempo nos separa do que jaz à nossa frente e esse, como sabemos, passa a correr.
Existe um apelo intrínseco e quase secreto, ao qual não se consegue resistir, para percorrer os trilhos de montanha no Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Basta um olhar, um toque, ou mesmo qualquer experiência indefinida, e fica sempre a vontade do regresso.
Após algumas trocas de ideias, e outras tantas sugestões, com o joom, separou-se por momentos o Cruz da Valente e seguiu para norte onde, entre a hospitalidade da família joom, ultimámos os preparativos.
Depois de enganarmos o sono com as expectativas, às quatro horas da manhã partimos para Castro Laboreiro e, após um pequeno-almoço improvisado, metemos as mochilas às costas e iniciámos a nossa viagem.
Sabíamos que a partir do primeiro passo já não havia nada a fazer.
As dúvidas e os medos toldaram-nos depois a consciência; questionámos quem éramos e esquecemos quem fomos. Seriamos capazes?
Entre o emaranhado de pontas soltas, percebemos que mais valia desistir de entender a meada.
Deslizámos com um sorriso confiante entre a ambiguidade perene.
Quisemos desistir; ir para o espaço-casa da nossa memória, para lá das quatro paredes que nos abrigam.
Porém, não desistimos e avançámos ao arrepio da esperança.
Ver nascer o dia nas encostas rochosas daquelas serranias foi o primeiro momento que guardámos, entre a memória da máquina e da alma.
Os quilómetros sucederam-se, ziguezagueando entre a linha de fronteira.
O cansaço ia-se também acumulando, como se fosse uma barragem na nossa determinação, criando uma albufeira de marasmo. Contudo, continuámos.
Ao anoitecer tínhamos percorrido muitos quilómetros, sendo que os últimos foram em corta-mato e num terreno difícil.
Por esta altura já tínhamos que inclinar a vontade para frente ou o peso da mochila iria vergar-nos para o chão.
O som dos deuses ecoou então pelos céus, sendo que uma trovoada nas estepes é uma experiência a evitar, pelo que fizemos uma pequena alteração nos planos.
Durante a noite, entre o muito cansaço e o pouco que dormimos, os sons imiscuíram-se entre os nossos sentidos e, quase ao amanhecer, tivemos ainda o canto de uma coruja que, entre os gritos de estranheza, nos ia inquietando a alma e a paciência.
Ao alvorecer juntaram-se o Fernando Rei e o //Link\\, sendo que os quatro partimos para a segunda parte desta odisseia.
Em certos momentos percebemos a nossa essência a definhar; o olhar baixava em tristeza e dor e sentíamos que não conseguiríamos dar nem mais um passo.
Levantávamos depois as perspetivas e vislumbrávamos quilómetros de picos de montanha onde sabíamos que teríamos de passar e, continuávamos.
Foi então que notámos que, na realidade, nunca soubemos quem éramos.
Vingámos as dificuldades e continuámos.
Ao olharmos à nossa volta notámos que não estávamos sós; formávamos uma irmandade e um propósito.
Deixámos de ser nós e passámos a viver todas as vidas daqueles que estavam connosco.
Esquecemos as fraquezas e inventámos forças.
Traçámos um destino e uma história: concluir a travessia das Montanhas Nebulosas apenas e só para nos reencontrarmos do outro lado.
O nada e o tudo unidos num momento único.
Fomos um e todos em cada instante; cada um carregava o seu anel, histórias e memórias de outros tempos.
A montanha, perene como o tempo, acompanhava o nosso percurso.
Entre o silêncio das fragas há algo inefável que perpetua a nossa existência para lá de quem somos ou do que pensamos conhecer; um regresso às brumas das nossas origens, verdadeiras e intemporais.
No final, com a aldeia de Pitões das Júnias lá em baixo envolta numa miragem de vontades, reinventámos forças e subimos ao monte da perdição, cálice do mundo, encontrando por fim, entre o horizonte, o consolo por todas as dificuldades vividas.
Atirámos o anel às profundezas e voltámos com um sorriso, apenas isso.
Os outros, esses, nunca saberão o que pendeu sobre as suas vidas, entre o que ganharam e perderam, enquanto atravessávamos as nossas Montanhas Nebulosas.
Obrigado aos companheiros por tudo, nesta aventura memorável.









