20de abril,2026

04 July 2014 Written by  João Malheiro

Berlengas, por João Malheiro

Este ano resolvi fazer uma semana de férias low-cost.
Eu e a cara-metade, que na comunidade dá pelo nome de GS, fizemos as trouxas, tirámos o pó às tendas e seguimos para o Litoral centro.
Quando terminei esta bela experiência, andava pelo fórum a atualizar-me com o que por cá se vivia, e não pude deixar de comentar: a Berlenga daria um belo artigo!
Com o sentido de oportunidade que lhe reconhecemos, o Prodrive, numa partilha do alinhamento preliminar para esta edição da GeoMagazine, lá infiltrou um tópico: “Berlengas by Pintelho”.

 


Ora pronto. Agora precisava descalçar esta bota. Como vou eu escrever um artigo sobre um arquipélago tão pequeno e tão conhecido, em que as caches são quase todas “normalíssimas”, e as mais diferentes não tiveram sequer a minha visita? Como vou eu interessar leitores que conhecem a Berlenga melhor que eu? Vou tentar ser descritivo, intenso, sensacionalista… Bem, nem preciso ser sensacionalista, que a beleza da ilha chega para, em recordações, nos deixar de sorriso rasgado. Vamos então a isso! Vou, contudo, tentar ser um pouco crítico, que nem tudo são rosas na ilha. Há muitos espinhos. Todos a bordo!
Quinta, 29 de Agosto. O dia fechou com um DNF na Varanda de Pilatos. Nem o Geopt Helpdesk ajudou, e o cerne da questão estava cumprido: ver aquela curiosa e muito bela estrutura. Seguimos em direção a casa de uns amigos, para aquele que foi o jantar mais requintado da semana. Dormimos em Peniche, no conforto de um teto, mas no chão, sobre os colchões tripartidos que viajariam connosco para a ilha.


Acordámos na sexta, e a ansiedade já era muita. “É hoje!”, pensava eu. Ia conhecer, mais, pernoitar, numa das mais selvagens reservas portuguesas.
Já no porto, poucos eram os que levavam a trouxa às costas. Fôramos avisados: sem água potável, com a luz a apagar-se à 1 da manhã, cobertura de rede móvel intermitente e um espaço muito – muito – reduzido para conhecer, pouco poderia atrair nas Berlengas para passar uma noite. Embarcámos, então, decididos!
Já no Cabo Avelar Pessoa, a maior das embarcações que transporta passageiros entre Peniche e a Ilha, foram-nos distribuídos sacos para o enjoo. Mau sinal, pensei.
E assim foi. A viagem de ida foi atribulada. Costuma sê-lo. Vários foram os passageiros que deram uso aos sacos para o enjoo. Da nossa parte, apesar de alguma indisposição, tudo “OK”!

Ao aproximarmo-nos da ilha, a primeira sensação é algo mista: por um lado estamos perante uma pequena multidão, ali, concentrada na “entrada” da ilha. Por outro, basta olhar em volta, além do espaço ocupado pelo bairro, nada mais é propriamente “habitado”.
Pegámos nas “trouxas” e logo demos de caras com alguma falta de dedicação aos turistas que, à partida, mais interessam, por terem que, forçosamente, deixar mais dinheiro na ilha. Enquanto subíamos, com a tenda e os colchões, foi com alguma displicência que fomos abordados pela senhora que “controlava” as pernoitas. Simpatia não era o seu forte. Subimos, ainda meio abananados com a naturalidade com que as gaivotas passeiam por entre as gentes, e no local destinado ao campismo, nova desilusão com a exploração turística. Sujidade. Muita sujidade pautava aqueles socalcos. Os caixotes do lixo estavam estrategicamente colocados… Acima das tendas, para que o vento que, de noite, é forte, o possa dispersar por entre os campistas. De madrugada, alguém iria recolher o lixo, barafustando com os “porcos” que “não sabem manter isto limpo”, sem sequer se questionar sobre a possível ação do vento.
Montámos, com alguma dificuldade, que o terreno não é fácil, a tenda e, com isto, era hora do almoço. Piquenique, claro!


Com o calor a apertar, e a pequena praia cheia que nem um ovo, optámos por nos atirarmos às caches da ilha. E é aqui que a história se torna interessante.
A pequena ilha terá, em trilhos, menos de 3 Km de extensão. Ainda assim, como o objetivo era passear, dividimo-la em dois percursos mais curtos. Se pensarmos no trilho como um “oito” deitado, reservámos para o início de tarde deste primeiro dia o maior 0 do 8. E a coisa não se inicia nada meiga. Com o sol a pique, a subida, curta mas íngreme, até ao farol, não é nada mole. Ao chegar somos, contudo, brindados com fantásticas vistas sobre o bairro dos pescadores, com as únicas casas da ilha, a praia, apinhada, e os socalcos do campismo. Aqui, aproveitamos para observar as curiosas formações geológicas que, apesar dos dejetos dos milhares de gaivotas que aqui habitam, dão origem à única EarthCache da ilha: Pretty in Pink DP/EC 59 (GC2XP0Y) do danieloliveira.


Seguindo, encontrámos o farol que, por vezes, o responsável deixa visitar. Não tivemos sorte, pois não encontrámos ninguém.
Continuando o percurso, deparámo-nos com outro dos ex-libris da ilha, o Forte de S. João Baptista (GC1EDEV, do PLNauta). Dali de cima, a construção, no meio da água, parece impossível. Descemos, mais de 300 degraus, e visitámos a fortaleza. Ainda quis um café, mas a falta de eletricidade, que só seria disponibilizada às 19h, levou-me a optar pela cerveja.
Era, então, hora de subir os degraus e, por esta altura, já eu tinha rogado múltiplas pragas a mim próprio. A cache devia ter sido procurada na subida, e nunca na descida, para aproveitar e descansar.
Nesta altura, nova pausa na beleza natural para falar de mais um dos problemas da ilha: as pragas – ratos, gaivotas e cagarras. Na Reserva Natural, não há concorrentes para estas três espécies, e uma série de decisões questionáveis tomadas há algumas décadas atrás levaram a esta dramática situação. Se as cagarras e as gaivotas não estão a ser controladas, os ratos são alvo de campanhas sazonais, pelo que é frequente cruzarmo-nos com ratoeiras e até mesmo veneno, sobretudo nas zonas em que os turistas pernoitam e na praia. Ali, na subida, um rato envenenado conferia um aspeto depreciativo à paisagem.
Seguiu-se uma curta caminhada até à Ponta de França. À direita de quem caminha, próximas de nós, conseguimos vislumbrar as Estelas, pequenas ilhas selvagens do arquipélago. Mas a grande surpresa está mesmo reservada para a ponta de França, onde diligentemente a Lusitana Paixão escondeu uma cache (GC1EZMV) que serve dois propósitos: levar os geocachers a conhecer este local de rara beleza e, em simultâneo, homenagear o Cabo Avelar Pessoa, a tal embarcação onde, horas antes, dezenas de pessoas enjoaram. Ainda bem que, esta noite, durmo aqui, pensei.

 


De regresso, com a vista cheia de um azul límpido e da paz da ilha, fomos à praia. Por esta altura, já poucas pessoas por lá andavam. Melhor assim.
As águas, particularmente agradáveis nesse dia, foram uma surpresa maravilhosa, e foi com umas braçadas que fechamos o expediente.
Ainda antes de jantar, um pouco às apalpadelas, cirandámos pelo bairro dos pescadores, que agora serve sobretudo como albergue aos que ali trabalham e a uns quantos turistas que lá pernoitam, e demos de caras com a última cache do dia: Reserva Natural da Berlenga (GC29PD9, Team GeocacherZONE).
Mais tarde, ao jantar, as camisolas do Geopt denunciaram-nos, e fomos abordados por uma geocacher penicheira que trabalhava no restaurante da ilha. Segundo ela, uma das caches que estava na lista para o dia seguinte (GC4GDHR, by Team GeocacherZONE) estaria desaparecida, o que nos levou a nem tentar uma das caches mais distintas, pelo acesso difícil. Em contrapartida, foi-nos dito que uma cache estaria inativa, junto ao farol, e que por isso não aparecia na query. Talvez amanhã lá vá.
Deitámo-nos cedo, com as galinhas, que a noite fria a isso convidava, não sem antes olhar o céu estrelado e descobrir um grasnar bastante distinto. Se de dia a banda-sonora era conhecida, sobejamente – as gaivotas – de noite a música era outra. Serão as gaivotas a acasalar? Pensei. Descobriria no dia seguinte, pelas palavras de um sábio guia, que se tratavam das famigeradas cagarras. Que belo grasnar!
Com a primeira luz do dia a entrar pela tenda, era hora de ir ver o sol erguer-se de lá do topo da ilha.


Vesti-me, ainda ao som das cagarras mais retardatárias que, por esta hora passavam o turno às gaivotas mais madrugadoras, e lá subi a pequena encosta. Por entre a neblina, vi o sol erguer-se, espreitei o forte, que com este ambiente se erguia ainda mais mágico, e fui verificar o que me dissera a geocacher na véspera. A cache sempre estaria lá (GC30184). Só mais tarde, já no continente, reparei que estaria arquivada e, portanto, se trata de geolitter. Fica aqui o repto a que quem se deslocar à Berlenga de lá retire o lixo.
Desci e fui ter com a GS, por esta altura também ela acordada. Os planos para o dia incluíam praia logo pela manhã, mas o sol teimava em não furar a neblina, o que levou a que fôssemos, primeiro, visitar as grutas de barco.
Um passeio agradável, por águas límpidas e cristalinas, e por entre formações rochosas sui generis, como a Rocha do Elefante e os Furados. Maravilhoso e recomendável, com a “cereja no topo do bolo” de se visitar o forte por fora, por baixo, por água!


Regressados ao bairro, estendemos a toalha e lá ficámos, a bronzear. Por entre um e outro mergulho acabei por nadar até mais uma cache (GC4GDJ6), à qual acedi por mera sorte. Recordava-me do mapa e, mesmo com o GPSr em terra, decidi nadar até ao local provável. Apareceu facilmente, como se nunca tivesse abandonado o aparelho. Ainda que próxima da praia, ter que nadar até esta cache faz dela, uma das mais especiais da ilha.
Após o piquenique, fomos percorrer o “0” pequeno do 8, mais selvagem que o percurso maior, e durante o qual pudemos encontrar mais duas caches, uma (GCKGCX) com vista para o Cerro da Velha, pequena ilha a oriente da Berlenga, e outra (GC4E7XM) com vista, lá ao longe, para os Farilhões.
Esta parte do percurso, que leva menos de uma hora, é também aquela em que podemos ver mais aves mortas. Algumas serão, certamente, cadáveres de animais vencidos pelo tempo, mas outros, não o duvido, são vítimas de envenenamento acidental.


Na viagem de regresso, após um gelado, imensamente mais tranquila que a de ida, pensei numa cache que, com pena, não visitei, e que será a “jóia da coroa” das Berlengas: o Vapor do Trigo (GC1F4FN). Esta multi, com o ponto final em terra firme, requer, no ponto inicial, um mergulho que não pude realizar por falta de tempo, ainda que o container final esteja já ali.
Regressámos a Peniche, com a sensação de que toda aquela beleza natural, ainda que subaproveitada, enche as medias a qualquer um. E enche! Em Peniche, só pensava em voltar, rapidamente, à ilha! Haverá, contudo, forma de tornar a ilha mais atrativa para os turistas, preservando o seu estado “selvagem”. Fica o apelo às entidades responsáveis.
Visitem. Com tempo, com calma. Pernoitem: a Via Láctea, a reduzida quantidade de pessoas, o grasnar das cagarras e o frio da solidão merecem a pernoita. Usem e abusem da máquina fotográfica, dos cheiros, das vistas. Deixem-se enjoar no Cabo Avelar Pessoa, vejam os ratos, falem mal do lixo, mas vão! As Berlengas merecem!

Publicado em GeoMagazine, Edição #5



Login to post comments
Geocaching Authorized Developer

Powered by the Geocaching API..
Made possible through the support of Geocaching Premium Memberships, the API program gives third-party developers the opportunity to work with Geocaching HQ on a full suite of integrated products and services for the community. API developer applications are designed to work with the core services of geocaching.com and provide additional features to the geocaching community.

Geocaching Cache Type Icons © Groundspeak, Inc.
DBA Geocaching HQ.
All rights reserved. Used with permission..

Connect

Сыграйте на покердом. Вы сможете тут победить. Это точно...
Disfruta de más que un simple juego en winchile. Puedes ganar aquí...
Aproveite o cashback semanal de até 20% nas suas apostas no wjcassino777.org, sem complicações.

Newsletter