19de abril,2026

21 March 2014 Written by  Bruno Fernandes

O Cântaro, por Bruno Fernandes

Fiz meu o sonho de um amigo, o Cruz, e na verdade fui egoísta, porque também era amigo do sonho. A ideia era subir a um rochedo, por nenhum outro motivo que não ver acender o interruptor que se esconde debaixo do horizonte, lançando o beijo com que o Sol se volta a apaixonar pela Terra, reeditando um namoro eterno que se repete e nos apaixona também nesse tango que luz e sombra dançam. Onde muitos vêem direcções, eu prefiro ver sentidos, e o Cântaro Magro era o que me fazia sentido. Sentar-me no seu topo, como quem domina uma besta indomável, dormir no seu dorso debaixo de um cobertor de breu e estrelas, com a música das esferas em repeat e aguardar por esse momento que nos relembra porque é que acordar e ressuscitar são primos direitos, embora de graus diferentes. O sonho do amigo não era esse, mas o meu sim, e por isso digo que é egoísta esta intenção de tomar para mim as penas de intenções de outros. Quando todos somos humanos, há sempre um chão comum, e todos pisamos este chão do maravilhamento, de abrir a boca ao espectáculo do mundo.

Imagem



Outros sonharam também, e todos partimos. Gordo era o sonho, mas o Cântaro que o guardava num cofre dizia-se Magro, o que me parece apropriado, visto que subi-lo é um bom programa de dieta. Mas chamava-nos um engodo curvilíneo e rochoso, nas bordas do Cântaro. Os primeiros homens construíram monumentos para honrar os deuses, e todos esses deuses eram preenchidos pelos elementos que os rodeavam: as montanhas, os astros, as paisagens que esmagam e abisma, e nos colocam a soberba no nosso devido lugar. Esta ideia de ser menos do que somos surgiu do bom senso: se esta bístone em forma de calhau é tão maior do que eu, como posso questioná-lo? E subir montanhas tornou-se na prova definitiva de que estávamos prontos para ser mais do que menos. Uma lenda diz que o verdadeiro espírito do Renascimento começou quando o italiano Petrarca alcançou o cume do Mont Ventoux só para saber o que estava do outro lado. Como se conquistar aquele macio rochoso e ermo marcasse a emancipação do Homem. As nossas intenções era bem mais prosaicas, mas revestidas daquele lirismo que enche quem se enamora das altitudes; e no fundo, todos os que ali estávamos tínhamos uma relação platónica com o desafio de trepar e de subir. Podem dizer que os motivos são caches, neste caso a do Cântaro Magro, mas é mentira, é sempre mentira: sobem-se montes e penedos para regressarmos ao que já fomos, e mesmo que digam que o que foi não volta a ser, sabe-se bem que se pode ser, sempre.

Imagem



Alcançado o topo, eis o esplendor no granito; e ao longe, o horizonte queimava em chamas que se desvanecem no turno da Noite. Outra coisa não há a fazer senão sentar e a única dúvida é se abrimos os olhos para tudo engolir, ou os fechamos para tudo absorver. Qualquer uma das opções é gourmet, mas nenhuma delas substitui duas latas de atum: a cabeça adora o Ideal, mas o estômago é bem mais amigos das proteínas do que dessas côdeas etéreas. Distraímos o vento cortante debaixo de um rebordo de calhau, entre cartas e paleio, e quando a hora do lobo chegou, cada um recolheu à sua toca e puxou o fecho éclair. A autoestrada celeste estava congestionada, mas entre tantos veículos parados, alguns aceleras cadentes brindavam quem contemplava com ultrapassagens à velocidade da luz, a mesma que marcava o compasso do meu coração. Tantas vezes sinto que o meu corpo é incapaz de conter a beleza do mundo, e nessa noite, enquanto puxava o sono com uma guita, era isso que berrava em mim. Olhos bem abertos, deixando entrar tudo, com Ludovico Einaudi nos ouvidos, num lapso de tempo onde se vê passar o infinito em segundos. As estrelas são tantas que parecem poeira, e a poeira que se desvanece devia sumir, mas não: fica em cada um de nós, nas frinchas das memórias, e só pode ser sacudida por um fenómeno tão poderoso quanto o Universo: o Tempo. Mas naquela noite, porque o Sonho era maior, tínhamos quase a certeza de vencer o Tempo.

Imagem



Quando regressámos do outro lado do sono, as cinco e meia marcavam o compasso de espera. O Cruz abeirava-se do Cântaro como um esfaimado se acerca de uma mesa de banquete, e ao longe, os tons cada vez mais alaranjados do horizonte anunciavam o que pressentíamos: era o momento de começar o romance. Demora o seu tempo, mas vê-se um globo de luz a flutuar atrás daquela linha, como se tivesse sido largado de uma qualquer mão invisível. Vai subindo, e os recortes das montanhas tornam-se cada vez mais nítidos. Destapa-se um lençol, e muda-se a cama de rocha, onde as pregas e as engelhas são os montes e montanhas e cântaros e fragões. O frio que nos esboça a face em traços cortantes é apagado e nasce, num desenho aconchegado, o calor do entusiasmo que provoca o confronto com essa fonte de vida que renova a sua visita e o seu amor pela parceira onde temos os pés: um planeta que nos esmaga e no entanto torna a nossa existência mais leve com mais sentido do que direcções. Ali, em pé, no topo do Cântaro, olhei o Sol e não tive medo da vida, naqueles minutos. Não senti que havia um depois, apenas que existia um agora, e que vivê-lo era a única coisa que interessava. Caches e eventos para segundo plano, agora existia eu e o Sol. Guardei várias fotos na máquina, e na minha cabeça um retrato impresso a fogo: eu, a Montanha e aquele que nos abençoou; e quando meti a mochila às costas e abandonei o topo, senti-me mais alto do que uma Lua em Quarto Crescente.

michaelcarmichael (Bruno Fernandes)

 

Imagem



Imagem
Este artigo participou no passatempo Geopt "Uma aventura, 1000 palavras"


4 comments

  • Comment Link Bruno Fernandes 24 March 2014 michaelcarmichael

    Obrigado a todos pelo apreço! :)

  • Comment Link prodrive 24 March 2014 prodrive

    Foi o meu favorito do passatempo. Tenho pena que não tenha ganho :)

  • Comment Link RuiDuarte 21 March 2014 RuiJSDuarte

    x2!
    Gostei bastante!

  • Comment Link JoãoGouveia 21 March 2014 Felinos

    excelente texto!

Login to post comments
Geocaching Authorized Developer

Powered by the Geocaching API..
Made possible through the support of Geocaching Premium Memberships, the API program gives third-party developers the opportunity to work with Geocaching HQ on a full suite of integrated products and services for the community. API developer applications are designed to work with the core services of geocaching.com and provide additional features to the geocaching community.

Geocaching Cache Type Icons © Groundspeak, Inc.
DBA Geocaching HQ.
All rights reserved. Used with permission..

Connect

Сыграйте на покердом. Вы сможете тут победить. Это точно...
Disfruta de más que un simple juego en winchile. Puedes ganar aquí...
Aproveite o cashback semanal de até 20% nas suas apostas no wjcassino777.org, sem complicações.

Newsletter