21de abril,2026

28 June 2017 Written by  Ricardo Ribeiro

Momentos: Aquele cais em Ayutthaya

Tinha sido um dia abrasador e bem prenchido. Chegámos de manhã, no comboio de Bangkok, e percorremos a antiga cidade de Ayutthaya a pé. Ao serão tinhamos um outro comboio para apanhar, que nos levaria até à fronteira com o Laos, lá bem no norte da Tailândia.

Mas para já tinhamos tempo para queimar. O dia chegava ao fim e havia que apanhar o pequeno “gasolina” que atravessava o rio Chao Phraya, unindo a margem onde se encontra a estação ferroviária com o resto da cidade. Passámos, e do outro lado apeteceu-nos simplesmente sentar um pouco, mesmo ali no lancil que separava o asfalto esburacado de um beco do declive que descia até ao rio. O céu tingia-se daquelas cores magníficas que só o pôr-de-sol trás e, esquecendo o “tuc-tuc” ritmado do motor do barco que ia cruzando o curso de água, sentia-se no ar uma tranquilidade muito bem vinda depois de um dia de estafa.

Ali mesmo, manhã cedo, tinha ocorrido o meu primeiro contacto com a Ásia rural. Não a da grande cidade, invadida pelo trânsito louco e pelas vendedeiras de fruta. Afinal, uma cidade é sempre uma cidade, cada uma com as suas peculiaridades mas todas com muito em comum. Ali, à chegada, tinha visto aquela outra face asiática, que ocupava o meu imaginário, a dos rios castanhos de lama, com gaiatos a chapinhar na água e barcos obsoletos em movimento. A da vegetação luxuriante, um verdadeiro hino ao verde, com plantas de todos os tamanhos e feitios. A das faces de idosos desdentados que por mais rugas que tenham não páram nunca de sorrir.

E agora, horas depois, estava de volta, desta feita com mais calma, disposto a despedir-me daquele local que apadrinhou a chegada à verdadeira Ásia. Ali ao pé, partilhando o encanto do local, um jovem bem vestido come qualquer coisa, fitando as águas plácidas do Chao Phraya, Mais tarde há-de partir, e mais ou menos no mesmo ponto uma senhora parará uma motorizada e também ela se quedará por uns minutos apreciando a envolvência. Mais à direita um velhote de costas tatuadas mantém-se imóvel durante todo o tempo que ali permanecemos, vendo sabe-se lá o quê, pensando em algo que nunca ninguém saberá.

Às tantas estala uma discussão. Passa-se algo mas nunca perceberemos o quê. Envolve aquele terreno que se vai desde os nossos pés até à beira do rio, mas a disputa não passa de palavras acessas e morre tão depressa como surgiu. De repente, outra surpresa: deslizando rio abaixo, pela calada do entardecer, em silêncio quase total, surge um rebocador de grandes dimensões…. e a seguir vem a carga… um, dois, três batelões, enormes, carregados… mas… não se ficam por aqui… os monstros flutuantes continuam a passar defronte dos nossos olhos atónitos… quatro… cinco… seis. Caramba, que visão. Ainda estava a digerir aquilo quando um segundo rebocador surge, também ele puxando seis plataformas repletas de qualquer coisa, certamente destinadas a Bangkok, que é, também ela, atravessada por este mesmo rio que lá se alarga e se enche de vida, como uma imensa aorta da urbe.

O calor acalmou, mas apenas porque já não somos directamente agredidos pelos raios de sol. Mesmo assim a temperatura mantém-se alta e a humidade no ar garante que suamos calmamente mas sem interrupção. Há pequenos ruidos que pela sua natureza não quebram a tranquilidade reinante: são os sons da selva, o cantar de pássaros exóticos, a excitação permanente das cigarras.

Mesmo ali em baixo, junto a uma plataforma, um pai procede a um qualquer concerto enquanto duas das suas crianças mergulham, nadam, voltam a mergulhar. Placidamente as luzinhas das casas e das ruas defronte vão-se acendendo. É a noite que chega enfim. Tudo isto cria uma cena bucólica, cheia de harmonia. É um símbolo do tempo que não devia nunca transformar-se em passado.

 

Artigo do blog Cruzamundos. Mais textos em http://www.cruzamundos.com/



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