Este momento excepcional, devo-o por inteiro ao acaso. Quis primeiro que, no retorno de mais uma expedição a Tomar, tivesse decidido procurar umas caches algo fora da rota habitual. Depois, que ao sair do acesso de uma dessas, me enganasse a ler o GPS e virasse na direcção oposto. Dei pelo erro uns quilómetros mais à frente, e por essa altura já os gnomos que habitam aquela caixinha me tinham encontrado uma rota opcional. Não tinha muitos quilómetros acrescentados, e então, porque não, aproveitaria para variar e quiçá encontrar caches que de outra forma nunca seriam tentadas.

Foi assim que cheguei a Brotas e encontrei a bela Aldeia Nova, uma cache que nos mostra uma panorâmica daquela castiça aldeia e que me deixou logo com um sorriso de satisfação pelo desvio inesperado. Ora quando me dirigia a esta cache vi casualmente uma indicação que apontava “Torre de Águias”. E quando acabei de lidar com a Aldeia Nova, vendo qual seria a próxima cache no trajecto, aquela “Torre de Águias” (Torre das Águias [Brotas] II) voltou a aparecer-me perante os olhos. Mas era relativamente longe, e aparentemente no fundo de um caminho de terra batida que me levaria na direcção oposta à da minha viagem. Indecisão. Ir ou não ir, era a questão. E foi-se. Abençoada decisão, onde o acaso voltou a colocar o seu dedo.
O caminho era de facto longo. Talvez uns 5 km de terra mais ou menos mal tratada. Já perto, um portão. Aberto. Esperemos que ninguém o tranque na próxima hora. E então vejo-a, aquela torre. Mágico! Junto a ela, aos seus pés, um casario, aparentemente abandonado. Já estou em pulgas para sair do carro e percorrer tudo aquilo, de câmara em punho. Para esfriar os ânimos, quando chegamos ao pé da torre e estacionamos o carro, noto que a porta da estrutura medieval está trancada com um cadeado. Encolho os ombros. Mesmo assim valeu bem a pena. Louvo de novo a decisão na indecisão.

Descobrimos que afinal existe um acesso lateral que está escancarado. Yupi! Toca a subir. Atenção, o piso pode abater se for sujeito a alguma pressão. É preciso ir com cuidado. Subo ao piso de cima através de uma escada de madeira ali colocada por alguém. E ao seguinte. E por fim estou no topo, entre ameias agora habitadas por pombos mas antes frequentadas por senhores de brilhantes cotas de malha, capacetes de madeira e metal, pontiagudos, olhos postos no horizonte.

Olho em redor. Tenho uma vista única sobre o lugarejo, de facto abandonado, que se encontra em redor da torre. Ao contrário do que pode parecer, a estrutura nunca teve uma função militar. Erigida cerca de 1520 por D. Nuno Manuel, homem chegado ao rei D. Manuel I, era usada pelos nobres nas suas pândegas viris. Indo à caça, pernoitavam aqui, trocando histórias da montaria, partilhando uma rica refeição regada certamente com muito vinho. Veio o grande terramoto de 1755 – que tanta miséria provocou pelo Reino fora – mas a Torre das Águias resistiu-lhe estoicamente. Foi preciso chegar-se ao século XX para que a estrutura se começasse verdadeiramente a degradar, encontrando-se hoje numa situação algo precária.

Lá em baixo, um homem conduz um tractor pela rua do lugar. Inesperado. Guarda-o escrupolosamente num barracão agrícola, monta-se numa motorizada e abala, não sem antes nos dizer para fecharmos o portão quando sairmos. Yes sir! Ficamos de novo a sós com as almas que habitam o local. Percorremos a via que lavra por entre as casas. Algumas estão em ruínas, outras, fechadas a cadeado, indiciam um certo método no abandono. Os seus proprietários terão recolhido às suas famílias ou a lares de idosos.
Foi muito depois de ter chegado a Torre de Águias que me lembrei do que me tinha ali conduzido. Ah, pois! Uma geocache. De GPS na mão segui a agulha do compasso. De início ainda procurei num sítio completamente errado, mas logo o engano se desfez e caminhando na direcção correcta, pedindo a todos os santinhos que aquela experiência extraordinária não ficasse reduzida por um DNF, encontrei a caixinha com facilidade e com um enorme suspiro de alívio. Sai um favorito!
Uma cache a fazer, aconselhada a todos. É preciso aproveitar este local antes que as condições se degradem mais. Pode levar algumas décadas, mas pode suceder no próximo Inverno. Assim, como está, já é algo arriscado, mas mesmo para os menos ousados uma visita exterior compensa largamente todos os quilómetros necessários. O estado miserável da estrutura é compensado pela sensação de quietude, pelo isolamento, pelo silêncio.
Nota: Como o seu nome indica, a cache Torre das Águias [Brotas] II, colocada em 2011, é a segunda existente no local. A primeira (Torre das Águias [Brotas]), criada por Manelov, apareceu em 2008, e foi arquivada por razões não especificadas pouco antes da criação a actual cache.
Artigo do blog Papacaches. Mais textos em http://papacaches.wordpress.com


