Claro que existem saídas mais simples, em meio urbano ou em caches à beira da estrada, durante as quais o geocacher nunca perde o contacto com o habitáculo acolhedor do seu cachemobile. Aí, a fruta é outra. Tendem a ser expedições para acumular mais umas quantas caches à lista de achamentos, e não tanto para apreciar os locais para os quais os seus criadores pretenderam chamar a atenção. Podem seguir-se à paródia de um jantar de Geocachers, ajudar a ultrapassar uma noite de insónia ou preencher um par de horas em aberto na nossa agenda. Mas por regra são caches procuradas, por assim dizer, para encher chouriços, para a desbunda.
Contudo, existem notáveis excepções, e essas são representadas pelas caches especificamente concebidas para serem caçadas de noite. Em princípio, considerando as suas características e as técnicas empregues, nem poderão ser “atacadas” em pleno dia. É que o uso de fitas reflectoras ao longo de um percurso exige escuridão quase total, e, já agora, uma lanterna capaz de produzir um foco de luz intenso. Com estes ingredientes estão asseguradas algumas experiências notáveis. A alteração dos ambientes costumeiros resulta na geração de emoções novas, e não é raro os velhos praticantes guardarem umas quantas cachadas nocturnas entre as suas memórias mais acarinhadas.
No plano técnico, há a acrescentar que a procura de um contentor à luz de lanterna transforma o simples em complicado e o complicado em simples: se por um lado a perda da noção do espaço evolvente pela privação de luz dificulta a pesquisa, também é verdade que a utilização de uma lanterna incrementa os níveis de concentração na análise da pequena área que iluminamos a cada momento. Além disso, as fortes sombras projectadas, por estranho que pareça, tornam mais fácil identificar elementos estranhos, nomeadamente quando as caches se encontram escondidas em muros, meios rochosos ou árvores.
Nunca é demais sublinhar que os cuidados de segurança devem ser duplicados numa caçada nocturna. Um passo em falso pode projectar o geocacher por uma ribanceira da qual a existência nem suspeita, ou fazê-lo mergulhar num poço a céu aberto que se mantém na obscuridade até ser tarde demais. E depois, há a eterna questão dos muggles, esses velhos “inimigos” do geocacher. Se a discrição deve ser uma constante no comportamento do caçador de caixas, pela noite a recomendação ganha outro significado. As pessoas estão mais alertas para movimentações estranhas, e o foco da lanterna é um indicador de actividades que à luz do dia passariam completamente despercebidas. Já não se encontra apenas em causa a segurança da cache. É preciso respeitar os habitantes locais, pormo-nos na sua situação: certamente que se habitássemos num local ermo, nos sentiríamos preocupados e mesmo angustiados se de tempos a tempos sentíssemos estranhos chegar a altas horas da noite, munidos de lanternas, e internarem-se nos matos ali mesmo à beira da casa, desenvolvendo sabe-se lá que actividades. De novo, respeito e civilidade impõem-se no comportamento do geocacher. Se cachar de noite, seja discreto, para bem do jogo e por respeito para com o próximo.
P.S. - Não, este artigo não foi redigido segundo as regras do Acordo Ortográfico.


