prodrive Escreveu:Isto que estamos aqui a assistir não é mais do que um choque cultural entre duas gerações distintas

Não pretendo julgar ninguém, nem dar razão a ninguém, mas para que percebam melhor a forma de estar e de "jogar" do Bolacha, gostaria de fazer aqui um pequeno enquadramento do Geocaching em 2006 ou 2007.
Basicamente, na altura não havia um Geocaching de proximidade. O geocaching urbano era um conceito pouco instituído. Lisboa tinha na altura umas 20 ou 30 caches, espalhadas por parques e jardins e não existia sequer aquele conceito de esconder uma cache à porta de casa com um texto copiado da Wikipédia sobre o "artista" que dá o nome à rua.
As caches estavam escondidas em locais recônditos, longe da civilização e mais longe ainda de casa dos owners

Na altura, o Almeidara era o owner que tinha mais caches escondidas, quase uma centena delas, que iam desde Rio de Onor (fronteira entre o distrito de Bragança e Espanha), até Bensafrim (o extremo oposto no Algarve, junto a Sagres), passado por distritos como Viseu, Setúbal, Guarda, Portalegre, Beja, Évora, Coimbra, etc., etc.).
Esse era o caso mais notável, mas havia muitos outros, como os GreenShades, ClCortez, MAntunes, Touperdido, etc., com caches escondidas fora das áreas de residência. Nessa época não havia quaisquer restrições à publicação de caches fora das áreas de residência. Felizmente que não havia, pois foi essa liberdade que proporcionou o desenvolvimento do Geocaching nas áreas Natura e em distritos sem Geocachers.
Estamos a falar de uma época em que os nicks de Geocachers se conheciam quase todos. As caches tinham todas identidade própria e os Geocachers mais activos conseguiam acompanhar os logs todos que eram feitos em todas as caches de Portugal Continental e Ilhas. Os logs minimalistas eram raros e havia muitas referências ao estado das caches e necessidades de manutenção.
Neste cenário, era impensável, apesar dos esforços que consumiam aos owners, quer em viagens propositadas quer em enormes desvios, conseguirem dar conta do recado sozinhos. O espírito comunitário era muito sólido, e a manutenção era assegurada pela comunidade. Se houvesse uma referência a uma falta de lápis porque o Geocacher anterior tinha referido no seu log que tinha levado o da cache por engano, o Geocacher seguinte tratava de o recolocar em vez de colocar um Needs Maintenance para o Almeidara ir num instante a Rio de Onor, recolocá-lo

O mesmo para a Recolocação de Caches. Se havia uma consciência que a cache tinha efectivamente desaparecido, o Geocacher seguinte que tivesse intenção de visitar a cache, oferecia-se para a recolocar, sem necessidade de uma deslocação propositada do owner. Claro que também havia excepções e havia owners que não aceitavam essa oferta de ajuda, e faziam questão de manter exemplarmente as suas caches, com todos os sacrifícios que daí advinham.
Foi esta a cultura que o Bolacha apreendeu e é esta a cultura que continua a manter em prática.
Pessoalmente, consegui adaptar-me à nova realidade de caches descartáveis "paridas em ninhadas", e não me atrevo a recolocar uma cache desta geração, contudo se me deparar com uma situação destas, mais recônditas, de um Geocacher da "Velha Guarda" não terei a mínima dúvida em recolocá-la em concordância com o owner
