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Montanhas Nebulosas by António Cruz
24 September 2012 Written by  António Cruz

Montanhas Nebulosas by António Cruz

Para lá das Montanhas Nebulosas, frias,
Entrando em cavernas, calabouços cavados,
Devemos partir antes de o sol surgir,
Em busca de tesouros há muito esquecidos.

J.R.R Tolkien, "O Hobbit"

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No princípio, é a ideia; não nasce, aparece.

Sempre ali esteve escondida, à espera do momento oportuno, como um anel que repousa no fundo de uma caverna de uma montanha à espera da pessoa certa para se revelar.

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É então que a nossa imaginação é subjugada pela sua vontade. As ilusões do dia-a-dia tornam-se espelhos de uma vida inacabada.

Tentamos conjugar o destino na nossa consciência e acreditamos, por um momento quase fútil, que seremos capazes.
Apenas o tempo nos separa do que jaz à nossa frente e esse, como sabemos, passa a correr.

Existe um apelo intrínseco e quase secreto, ao qual não se consegue resistir, para percorrer os trilhos de montanha no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Basta um olhar, um toque, ou mesmo qualquer experiência indefinida, e fica sempre a vontade do regresso.
Após algumas trocas de ideias, e outras tantas sugestões, com o joom, separou-se por momentos o Cruz da Valente e seguiu para norte onde, entre a hospitalidade da família joom, ultimámos os preparativos.

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Depois de enganarmos o sono com as expectativas, às quatro horas da manhã partimos para Castro Laboreiro e, após um pequeno-almoço improvisado, metemos as mochilas às costas e iniciámos a nossa viagem.

Sabíamos que a partir do primeiro passo já não havia nada a fazer.

As dúvidas e os medos toldaram-nos depois a consciência; questionámos quem éramos e esquecemos quem fomos. Seriamos capazes?

Entre o emaranhado de pontas soltas, percebemos que mais valia desistir de entender a meada.
Deslizámos com um sorriso confiante entre a ambiguidade perene.

Quisemos desistir; ir para o espaço-casa da nossa memória, para lá das quatro paredes que nos abrigam.
Porém, não desistimos e avançámos ao arrepio da esperança.

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Ver nascer o dia nas encostas rochosas daquelas serranias foi o primeiro momento que guardámos, entre a memória da máquina e da alma.
Os quilómetros sucederam-se, ziguezagueando entre a linha de fronteira.
O cansaço ia-se também acumulando, como se fosse uma barragem na nossa determinação, criando uma albufeira de marasmo. Contudo, continuámos.

Ao anoitecer tínhamos percorrido muitos quilómetros, sendo que os últimos foram em corta-mato e num terreno difícil.
Por esta altura já tínhamos que inclinar a vontade para frente ou o peso da mochila iria vergar-nos para o chão.
O som dos deuses ecoou então pelos céus, sendo que uma trovoada nas estepes é uma experiência a evitar, pelo que fizemos uma pequena alteração nos planos.

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Durante a noite, entre o muito cansaço e o pouco que dormimos, os sons imiscuíram-se entre os nossos sentidos e, quase ao amanhecer, tivemos ainda o canto de uma coruja que, entre os gritos de estranheza, nos ia inquietando a alma e a paciência.

Ao alvorecer juntaram-se o Fernando Rei e o //Link\\, sendo que os quatro partimos para a segunda parte desta odisseia.

Em certos momentos percebemos a nossa essência a definhar; o olhar baixava em tristeza e dor e sentíamos que não conseguiríamos dar nem mais um passo.

Levantávamos depois as perspetivas e vislumbrávamos quilómetros de picos de montanha onde sabíamos que teríamos de passar e, continuávamos.

Foi então que notámos que, na realidade, nunca soubemos quem éramos.
Vingámos as dificuldades e continuámos.

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Ao olharmos à nossa volta notámos que não estávamos sós; formávamos uma irmandade e um propósito.
Deixámos de ser nós e passámos a viver todas as vidas daqueles que estavam connosco.
Esquecemos as fraquezas e inventámos forças.
Traçámos um destino e uma história: concluir a travessia das Montanhas Nebulosas apenas e só para nos reencontrarmos do outro lado.
O nada e o tudo unidos num momento único.
Fomos um e todos em cada instante; cada um carregava o seu anel, histórias e memórias de outros tempos.

A montanha, perene como o tempo, acompanhava o nosso percurso.
Entre o silêncio das fragas há algo inefável que perpetua a nossa existência para lá de quem somos ou do que pensamos conhecer; um regresso às brumas das nossas origens, verdadeiras e intemporais.

No final, com a aldeia de Pitões das Júnias lá em baixo envolta numa miragem de vontades, reinventámos forças e subimos ao monte da perdição, cálice do mundo, encontrando por fim, entre o horizonte, o consolo por todas as dificuldades vividas.
Atirámos o anel às profundezas e voltámos com um sorriso, apenas isso.
Os outros, esses, nunca saberão o que pendeu sobre as suas vidas, entre o que ganharam e perderam, enquanto atravessávamos as nossas Montanhas Nebulosas.

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Obrigado aos companheiros por tudo, nesta aventura memorável.



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