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LGA_A320 wants a bailout for cities and states
Acompanhar a viagem Google Street View do Uday Schultz de costa a costa dos EUA, lendo primeiro uma reflexão sobre o futuro das viagens do Luís Pedro Nunes...
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2492/html/revista-e/o-mito-logico/o-mundo-sem-turismo
https://exame.com/casual/viajar-na-pandemia-aluno-de-harvard-cruza-pais-pelo-google-street-view/
https://twitter.com/A320Lga
Já faltou mais para chegar ao Geocaching HQ
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2492/html/revista-e/o-mito-logico/o-mundo-sem-turismo
Lembro-me do impacto que teve em mim quando em adolescente descobri “O Velho Expresso da Patagónia”, de Paul Theroux. Afinal, para viajar até ao fim do mundo bastava comprar o primeiro bilhete de metro à porta de casa. E depois o de comboio até à próxima cidade. E assim sucessivamente. Theroux saía da suburbia americana e acabava na ponta sul do continente, na Patagónia, sem nunca ter usado outro meio de transporte que não o comboio. E pelo meio capturava as histórias. Hoje é algo mil vezes copiado, mas na descoberta da pós-adolescência foi “revolucionário”. Parecia “fácil” partir. Bastava querer.
Estamos a chegar ao agosto em que não vamos viajar mais longe do que o nosso retângulo. Por esta altura deveriam estar centenas de milhões de pessoas a fazer as malas e a encher os aeroportos. Só chineses seriam 160 milhões. O vírus é antiturista. Por todo o lado aparecem as “alternativas” ao “novo normal”. Um puto de 19 anos, estudante de Harvard, decidiu atravessar os Estados Unidos via Google Street View. Um clique de cada vez. De Brooklyn até Seattle, cruzando todo o Norte do país. Uday Schultz clica aproximadamente uma hora por dia, o que faz com que a viagem vá durar vários meses. Para mais, o seu interesse em estruturas industriais abandonadas e em urbanismo obriga-o a muitos “desvios”, e nem há muitos “pontos mortos”, ou seja, locais não fotografados pelo Google. A viagem está a ser devidamente documentada na sua conta Twitter @LGA_320. Schultz diz que só sente falta do “cheiro a ar”. Não sei o que quer dizer com isso. Sei que eu tinha programado atravessar os EUA lá para a velhice. Não me vão apanhar na Route 66 no Google a fazer 50 milhas todos os dias sentado em casa. Mas o que é que resta?
Há cada vez mais museus digitalizados — “dado que não pode ir fisicamente”. Esta semana vi que a nova experiência imersiva de Pompeia era “melhor do que estar lá”. E os curadores entram em pequenos combates online para não cair na irrelevância. O Yorkshire Museum desafiou museus de todo o mundo para que seja eleito “o melhor rabo” da história da arte, com estátuas gregas e romanas em força, mas também com bundas de lutadores de sumo do Japão ou a traseira da armadura de Henrique VIII, os rabinhos gamados das Três Graças ou as portentosas nádegas do David... Em prol da mundialização dos museus — agora sem turistas.
Está tudo abananado. Fiz uma pesquisa sobre “futuro de viajar”, artigos recentes, e a conclusão é só uma: ninguém sabe o rumo que isto vai tomar. Uns dizem que o turismo, ou seja, as viagens se vão tornar “mais exclusivas e luxuosas”, que os termos “overturism” ou “veneziação” de cidades morreram. Que os mais velhos nunca mais irão para destinos longínquos, dado que têm medo de apanhar o vírus e de se verem sem sistemas de saúde para os salvar. Só os mais novos, mais dados a riscos, irão fazer as viagens longas para locais exóticos. Mas esses não têm dinheiro. Outros falam na chegada de um momento de viragem para um turismo de sustentabilidade, mais democrático, mais atento à pegada de carbono: quem é que vai querer entrar num navio de cruzeiro, o primeiro símbolo da “praga”?
Eis o que sei. Faz agora um ano estava a tirar as malas de viagem da arrecadação e a preparar-me para viajar em agosto, para deixar-me engolir por uma turba ansiosa, frenética, furiosa ou desesperada numa qualquer escala de oito horas para mais um voo de dez. Levava comigo — e juro que isto é verdade — “A Arte da Viagem”, de Paul Theroux, um livro que ele escreveu para celebrar os seus 50 anos de viagens com uma recolha de textos literários e filosóficos de grandes autores sobre os prazeres ou sofrimentos de quem decide partir com essa ambição de não desprezar anotar ideias sobre o tempo que se leva a chegar ao destino. Agora, retrospetivamente, parece que foi uma cena simbólica. Um fecho de ciclo. Mas viajar não pode ter morrido. Tem de estar em suspenso.
Vivemos um momento que só podia ter sido imaginado num filme de ficção científica. Se o Google Street View conseguisse fotografar o planeta no dia 1 de agosto de 2020 e nós fôssemos clicar, veríamos as praias das ilhas da Tailândia vazias, o Machu Picchu deserto, os gorilas do Congo sem ninguém a tentar fotografá-los, os leões do Quénia sem safaris ao largo, os mares sem os monstruosos cruzeiros que são cidades apinhadas, os grandes aeroportos com pouco tráfego. E isto, que podia parecer uma dádiva, é uma enorme catástrofe.
O fim abrupto do turismo levou à devastação económica de comunidades inteiras, à fome, ao desespero e a guerras que podem surgir a qualquer momento. Cerca de 10% da força de trabalho do planeta dependia dele. O fim dos “safaris fotográficos para elites” pode levar à extinção dos gorilas. O fim da observação de animais pode levar ao desaparecimento dos rinocerontes. Não é idílica a imagem da Natureza a resplandecer, dos canais de Veneza a ficarem mais limpos, das comunidades devolvidas à sua vida.
E nós, os turistas, os viajantes, os papalvos de livrinho e toalha e pulseira, “tudo incluído”, ficaremos mais intolerantes, mais pobres, mais estúpidos. Viajar, mesmo sem arte, nunca será substituído por um clique no Google, onde não se é assaltado, onde não se perde o avião, onde não se é picado por um bicho qualquer, onde distraído e enojado numa viagem de grupo se descobre a grandeza do Outro.
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