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Fim-de-semana nas montanhas com o objectivo principal de participar neste evento, aquele da dormida no topo do mundo e que segundo consta dá mais dez anos de vida a quem participa.
Nem sei por onde começar. Se calhar por dizer que este evento é muito mais que ver o nascer do Sol. O verdadeiro evento, aquele cujo convívio é mais animado e aproxima as pessoas é durante o tempo entre os dois luscos-fuscos: do da véspera quando sua majestade imperial se vai deitar e nos deixa com o topo do mundo só para alguns, e o da data do evento quando se admira, como se fosse a primeira vez, o aparecimento da bola de fogo, agora alargado a uma plateia alargada.
Mas assim corro o risco que qualquer dia não há espaço cá em cima e a partilha de experiências, quando há demasiadas pessoas, nunca é melhor. Antes pelo contrário. Este é daqueles eventos que deixam marcas para recordar, algumas físicas pois a escadaria para o topo nem sempre é a mais simpática e há sempre alguma planta mais espinhosa no caminho que demonstra o seu apreço por ser empurrada. E até devia ser ao contrário: eventos deste calibre não atribuíam um décimo de favorito. Era logo retirado, tipo dízimo, dez favoritos da conta. Seguramente não ficavam mal entregues.
Para mim o evento começa na curva, ali quando se janta e aligeira o peso da mochila que vai para cima, e antes da subida. Ali onde começa a confraternização daqueles que seguem as palavras dos Monty Phyton: “this is the meaning of life”. Para alguns parece inacessível e é ver, numa passagem quase iniciática, as expressões nas suas caras quando se explica o acesso. Parece simples depois da escalada da montanha.
Este ano tivemos a sorte de podermos ver alguma neve pela serra mas infelizmente não havia nenhum bocado no topo. Tinha servido para arrefecer algumas bebidas.
Antes de subir, uma cevada líquida gelada guardada para o momento e partilhada pelo grupo que saiu de Barcelos. Há quem manter as coisas boas que dão sentido à vida.
Com a chegada da hora da partida, nunca a mesma pois depende essencialmente dos preparativos de quem decide ir ver as estrelas de outro ponto de vista, lá fomos ultrapassando os obstáculos tal Frodo na escadaria de Cirith Ungol, sem Shelob à vista mas rodeados pelas várias andorinhas que ainda voavam aproveitando a última luz do dia.
Lá em cima o ritual repetia-se: a escolha do local da dormida, o da tainada e depois escolher a varanda natural para ver a chegada da noite. E mais um jantar.
Depois convívio pois houve quem transforma-se ali o cantinho por debaixo do penedo num 3 estrelas Michelin com a quantidade de acepipes partilhados. Fantástico, sois grandes. E ainda se houve dizer que o geocaching é convívio no café a partilhar field notes e fotos de “containers”. Why are we here, what's life all about?. O queijo que deixava no final um picante saudável e capaz de avivar as pupilas gostativas era simplesmente divinal.
Com o avançar da hora a malta foi arrochando, aqui e ali apagavam-se as luzes, ali já se fazia tábuas serrando todos os eucaliptos em Portugal, ali ouvia-se uma rádio manhosa e depois, já quase sem muitas conversas Pink Floyd. Perfeito. De vez em quando uma estrela cadente aparecia e ouvia-se shine on your crazy Diamond. O gajo, que ainda há pouco foi referido pelas vezes que aqui veio, estava de certeza lá em cima a ver-nos.
Tal como as noites passadas ao relento só com o saco-cama, esta estava a ser igual a centenas de outras. De vez em quando uma aragem a obrigar a fechar o carapuço, um entreabrir de olhos para ver as estrelas como pausas num sono leve. E de repente sem rufar de tambores anunciar oiço alguém que seguramente calça o 57 e tem o nariz de plástico vermelho.
Desconhecia totalmente que por por aqui, nos Montes Hermínios havia membros da família Cardinali. Afastados seguramente mas iniciados nestas artes.
Ouvi um bocado e concluí que nem sequer valia a pena dizer nada, isto mesmo depois de ser o alvo da luz do frontal. Há quem demonstre da melhor maneira a arte de ser hospitaleiro. Deixei-os a exercitar o discurso, tal beatas de igreja num tanque da roupa, pois percebia-se que tinham falar e esperei pelo início do dia. Tal como há caches que não interessam ao menino Jesus e que existem para se dar valor a outras, aquelas com C grande, há experiências que só elevam, ainda mais, as que têm qualidade. Por exemplo este evento.
Em pouco estava a chegar a hora oficial do evento, o nascer do Sol, mas primeiro o pastor tinha que ir lá abaixo conduzir o resto dos participantes em que alguns já tinham feito anunciar. Inclusive uns apregoavam a viva voz a profissão de alguma senhora. Seria da família?
De repente a zona, o topo do mundo e perfeito anfiteatro para assistir, mais uma vez, ao aparecimento da bola laranja para os lados de Espanha, tornava-se pequena. Esperei calmamente pela hora certa, as seis, e fui encontrar a virtual.
Passado algum tempo tinha chegado a hora da foto de grupo, com alguns a agoirar a manobra, e desta vez fiquei em local diferente.
Demos avanço a malta que tinha hora para o regresso à curva da estrada, para não esperar muito tal engarrafamento no IC19 na descida, com tudo arrumado e registada a minha passagem no livrinho do evento, este é ainda à moda antiga com logbook e tudo, começámos a descida.
Tinha chegado ao fim o evento. Para nós, era o regresso a casa com alguns desvios previamente escolhidos para alegrar o caminho.
Obrigado a todos os que se preocuparam pela bolsa azul. Esta acabou por aparecer dentro da arrumação e na parte das arcas congeladoras. Parece que teve calor pela manhã e resolveu ir ver se ainda restava alguma cevada líquida fresca.
É sempre fantástico voltar aqui e continua a ser uma formidável ideia, António. A repetir sempre que possível.
O gccode, por artes mágicas, foi bem escolhido: máxima qualidade.
Sem trocas
Obrigado pelo evento