21de Janeiro,2021

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ValenteCruz

ValenteCruz

Monday, 21 December 2020 17:00

Trilhos e Quinta do Comandante

A Quinta do Comandante (GC92CH6), em Santiago de Riba-Ul de Oliveira de Azeméis, tem um passado trágico-romântico, engalanado por muitas histórias e mitos ao melhor estilo camiliano. Pertenceu a João Paes de Carvalho, comandante da Marinha Portuguesa. De visita ao Porto, o comandante apaixonou-se perdidamente por Inês Eugénia Knall. Venceu dogmas familiares para ver o amor correspondido e os dois foram habitar a mansão seiscentista da então Quinta do Outeiro, envolvida pela pacatez da província e longe do rebuliço citadino portuense. Várias lendas embrulharam depois a história de ambos, algumas com contornos fantasmagóricos, mas o que parece certo é que Inês faleceu a meio da vida e João enlouqueceu com a perda, acabando por suicidar-se em 1970.

Quando soubemos que a CM de Oliveira de Azeméis tinha criado vários trilhos pela quinta não quisemos adiar mais a redescoberta. Visitámos pela primeira vez a Quinta do Comandante nos idos de 2011 em busca da lendária Fallen Angels, que redefiniu e inspirou o letterboxing no país. Dessa noite, para além da extraordinária experiência de caça amaldiçoada a tesouro, recordo que ao terminarmos a busca notámos a chegada de algumas pessoas. Sem que eles nos tivessem notado e estando dentro da mansão, pegámos num lençol que encontramos por lá e escondemo-nos no cimo da escadaria. Quando o grupo começou a subir a escadaria, entre a escuridão e as lanternas medrosas, deixámos cair o lençol sobre as suas cabeças. Foi tão assustador e divertido que chegou a fazer cócegas na alma.

Chegámos ao lugar de estacionamento do edifício da Escola Superior de Aveiro Norte numa manhã cinzenta, mas de boas promessas. À escolha tínhamos os trilhos de caminhada, BTT e trail, que coincidem em alguns troços. Com alguns desvios pelo meio, optámos pelo da caminhada. O arvoredo outonal envolvente e as ruínas abandonadas tornam o percurso muito interessante, ideal para uma passeata bucólica. Chegámos à mansão com o entusiasmo em alta e começámos por visitar o esconderijo final dos anjos caídos, atrás dos bonitos azulejos, cujos fantasminhas ainda se mantêm colados à parede esquecida.

Por sorte, ainda conseguimos aceder ao interior da mansão, que as obras de emparedamento das janelas e portas não assegurará por muito mais tempo. Apesar da ruína e abandono, nota-se o rico passado. Subsistem resquícios de tectos elaborados, azulejos e várias pinturas. Em muitos locais, o chão e as paredes esburacadas parecem que irão ceder à próxima brisa. Cirandando por lendas e histórias, subi ao último andar e fui à procura dos registos do comandante. Talvez a meio caminho de um desespero de amor enlouquecido, entre o visível e o invisível, subsistem os escritos nas paredes que o comandante terá escrevinhado em forma de diário. É, simultaneamente, uma leitura fascinante e aterradora!

Após a redescoberta da mansão, fomos em busca das ruínas envolventes. Parece uma viagem ao passado ao melhor estilo de uma caça ao tesouro. Seguindo as pistas, encontrámos a versão mais recente do diário do comandante e registámos a nossa visita. Adorámos encontrar um recipiente e um livro que fazem jus ao legado histórico da experiência, tanto pela cache que a precedera como pelo cenário envolvente.

Continuando pelo trilho da caminhada, e após alguns desvios ao percurso de trail, alcançámos o edifício da escola e o final deste capítulo. O carácter futurista do edifício contrasta com as ruínas circundantes e perfaz um panorama muito peculiar e interessante. Na memória fica a redescoberta fantástica, por entre as reminiscências esquecidas de um amor infinito, assim como a promessa de um regresso para explorar melhor o circuito de trail.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Saturday, 17 October 2020 17:00

Reserva Natural Dunas de S. Jacinto

Numa manhã estival de outono rumámos até S. Jacinto à descoberta da reserva natural (GC32XTW), onde há dez séculos apenas existia mar. Outrora, locais como Ovar, Estarreja e Aveiro confrontavam-se diretamente com o Atlântico. Criou-se desde então uma língua de areia, que se consolidou ao longo dos séculos e formou uma ampla baía que antecedeu a laguna contemporânea. O cordão dunar conservou-se por vegetação espontânea e a florestação criada a partir do século XIX, quando decorreu também a abertura artificial do canal da Barra, que permitiu o regresso da água salgada à zona, adocicada por várias ribeiras e rios que ali desaguam, entre eles o Vouga. E assim se formou a Ria de Aveiro.

Estacionámos junto ao edifício da reserva, onde ficámos a conhecer mais pormenores sobre a história da mesma. Percebemos também que existem dois percursos circulares com distâncias distintas. Optámos pelo maior, com cerca de 7.5 km. De passagens anteriores pela zona envolvente havíamos ficado com a ideia que o percurso arenoso serpentearia apenas por vegetação rasteira comum e pinheiros bravos. Estávamos enganados. Ficámos impressionados pela qualidade do percurso e pela diversidade de vegetação, desde estornos, cardo-marítimo, soldanelas, camarinhas, cedros e acácias, como também pela sombra generosa que cobre boa parte do mesmo. Naturalmente, várias razões deveriam existir para a criação da reserva.

A meio do percurso surgiu o passadiço, com cerca de 500 metros, que dá acesso ao mar. Apesar de precisar de manutenção e ainda que a placa não o aconselhe, decidimos ir espreitar o mar. Na verdade, apenas o início do passadiço precisa de manutenção urgente e curiosamente está numa zona em que o mesmo não seria necessário. Chegámos ao final do passadiço e sentámo-nos a apreciar as pitorescas dunas protegidas, na fronteira com o mar. Após a descoberta, voltámos pelo passadiço e prosseguimos o caminho, seguindo em direção ao observatório de aves da pateira, que estava a ser utilizado por um fotógrafo especialista. Demos depois corda às sapatilhas e, sempre envolvidos por sombra e vegetação diversificada, fizemos o percurso de regresso ao edifício da reserva.

Passaram dez anos desde que descobrimos o geocaching. Geralmente descrito como uma “caça ao tesouro moderna”, rapidamente ficámos fascinados pelo contexto de secretismo do passatempo e sobretudo pelo potencial para descobrir novos locais e experiências. Dez anos depois chegámos às 4000 descobertas! No nosso caso, o passatempo acabou por nos aproximar da natureza. É sobretudo uma forma mais interessante, informada e contextualizada para descobrir locais e experiências que de outra forma poderiam não ser tão evidentes ou seriam mesmo desconhecidas. Obrigado pela partilha!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Friday, 10 July 2020 17:00

sunrise@CântaroMagro_20

Já se tornou tradição em mim que o solstício de verão seja acompanhado pelo vislumbre do nascer do sol no imponente Cântaro Magro, na serra da Estrela, onde a infinidade das vistas sobre o horizonte quase dão a volta ao mundo. Este ano, pelas limitações da pandemia Covid-19, a nona edição do sunrise@CântaroMagro_20 decorreu um pouco mais tarde e tornou-se familiar.

Durante o sábado, o meu plano inicial era fazer parte da subida iNtO tHe WiLd e assim engendramos a logística do carro. Chegamos a meio de uma manhã quente à Senhora do Desterro e iniciamos a caminhada junto ao canal de água do rio Alva, beneficiando da sombra. Após a passagem pela câmara de carga, seguimos pelo canal de água da ribeira da Caniça até aos Cornos do Diabo.

Após revisitar o curioso maciço rochoso, investi pela encosta até ao Porto dos Bois. O percurso complicou-se pouco depois, pela vegetação intransponível, e já não consegui chegar à Crista do Carvalhazinho. Desde a última vez que ali passei, na noite da grande aventura Oh Meus Deus – Ultra Trail Serra da Estrela 2016, o trilho deixou de ser frequentado, inclusive por pastores. Ainda fiz uma tentativa de subida pela ribeira, mas as variáveis eram muitas e não poderia atrasar o encontro na Lagoa Comprida.

Voltei para atrás, ainda a tempo de uma mudança de planos. Acabei deposto da organização e passei a tarde em praias fluviais. Fomos primeiro à interessante praia da Lapa dos Dinheiros e acabámos na concorrida praia fluvial de Loriga, onde nos delongamos no doce fazer nada, estendidos ao marasmo.

Rumamos depois ao Cântaro Magro e ficámos a saber que a estrada para Covilhã/Manteigas está cortada desde a rotunda de acesso à Torre, há já alguns meses, para arranjo do túnel que fica mais baixo. Deixamos o carro por ali e seguimos finalmente para o Cântaro Magro. É sempre fascinante admirar o gigante de pedra, sentir um assombro de inacessibilidade e vencê-lo logo de seguida.

À chegada ao topo tivemos oportunidade de contemplar um pôr-do-sol com cores magníficas. Os últimos raios de luz pintalgaram as nuvens num tom escarlate no céu azul. Instalou-se depois a noite e o silêncio. Como estava lua cheia nem precisamos de lanternas para vaguear pelo topo do cântaro. Aproveitei também para revisitar o manuscrito d’O tempo inquieto, que vai sobrevivendo à humidade. Com a ajuda de uma aplicação de telemóvel percorremos o caminho das estrelas e encontramos a lua alinhada com Júpiter e Saturno. O jantar arrastou-se depois por petiscos vários, mais ou menos serranos, e bom vinho.

O bom tempo e a ausência de vento acabaram por tornar a estadia muito agradável e deu para descansar mais do que o habitual. O sol apareceu pouco depois das 6h00, num céu limpo e sem nuvens, mas com a mesma magia de sempre. O astro rei pode nascer em todo o lado, mas ali tem uma envolvência e significado especiais.

Após um pequeno-almoço nas alturas, a descida do cântaro fez-se sem problemas. Passamos pela Torre para cumprimentar o pináculo lusitano e seguimos depois para a Lagoa Comprida, onde aproveitamos para uma caminhada, com vistas para o manto de água, até à Lagoa do Covão dos Conchos, onde pudemos assistir à romaria ao funil. No regresso ainda passamos na outra extremidade do túnel, onde a água desagua na Lagoa Comprida.

Foi um sunrise@CântaroMagro atípico, mas excelente! Teria gostado de ter mais amigos lá em cima, mas gostei de me reencontrar com o silêncio do cântaro e com uma certa essência original que se foi perdendo ao longo dos últimos anos. Gostei de viver a experiência sem a preocupação constante de colocar e retirar dezenas de pessoas do cântaro. Gostei de gerir a escolha do fim-de-semana conforme a meteorologia (em condições normais, seria uma semana antes e estaria mau tempo). Gostei de ter tempo para mim, nesta singela homenagem anual a uma experiência e locais inspiradores. Por tudo isto, talvez algumas mudanças venham para ficar. Para já, acrescento excelentes memórias a mais um sunrise@CântaroMagro.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

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