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MAntunes
11 July 2016 Written by  Rui Duarte

MAntunes

Bem-vindo Manuel, ao papel principal deste número da GeoMag! Sem dúvida o mesmo papel que assumiste durante muito tempo perante "todo" o Geocaching, na minha modesta opinião e  certamente na de um grande leque de outros companheiros. É com grande prazer que assumo a responsabilidade de te trazer, a ti e às tuas estórias, (mais uma vez) para as páginas da revista.

GeoMag - Foste um dos grandes impulsionadores do geocaching cá no burgo, ou não estivesses registado no Geocaching.com desde Abril de 2002. O que te trouxe afinal para este nosso hobbie? Como deste com isto? Em 2002 não deveriam  haver assim muitas formas de se "tropeçar" no geocaching.

Manuel Antunes - Não haveria muitas formas de "tropeçar" no Geocaching mas existiu uma que foi determinante: a revista "Semana Informática" apresentou, algures em Fev/2002, um quadrado na última página a falar de Geocaching. Eu li, achei interessante, investiguei na net, li todas as FAQs (literalmente) do Geocaching.com na altura, li os fóruns deles e comecei a melgar o "pregalla" (que era o que tinha mais caches colocadas na altura e, por isso, pareceu-me o mais experiente) com algumas perguntas e, essencialmente, com a escolha do GPSr. Foi muito importante para mim a ajuda dele, porque não existia qualquer método dos geocachers se contactarem como existem hoje os fóruns ou a mailing list do Yahoo. Por isso sempre o considerei o meu mentor (ou, o meu adoptante, porque ele praticamente me adoptou e respondeu aos variados emails que lhe enviei a esclarecer dúvidas).



GM - Eia! Uma revista portuguesa já saber o que era (ou que existia) o geocaching em 2002?! Estou deveras surpreendido! Também o estou com alguém ter "mais caches colocadas"... [risos] Consegues quantificar esse número? Acaba por ser muito complicado obter esse tipo de dados passado tanto tempo. Basta dar uma cache para adopção para se ter meio caminho andado para "desaparecer" qualquer registo do owner original (eu próprio acabei por ficar com uma do Pedro Regalla à minha guarda).

MA - Se fores a http://geostats.geocaching-pt.net/ no menu lateral, tens a listing das caches (sai em Excel) e ordenares por HiddenDate, tens visível a coluna do owner onde se lê o autor original e quem a adoptou.

Eu comecei no dia 11/4/2002 e já andava a visitar o site há um mês, mas mesmo assim, o Pedro Regalla tinha a maioria,  7 em 19 - ignora as das linhas 2,3, 4 e 7 porque não existiam no terreno quando comecei, embora tenham data de colocação da altura): 

 

GM - Sempre tive os "primeiros geocachers" como geeks da informática que já teriam acesso a GPSr, por motivos profissionais... não terá sido portanto o teu caso. Acabaste por seguir a orientação dele? Que modelos haviam disponíveis em 2002?! Já era aquela rivalidade, Garmim vs Magellan?

MA - Sim, segui todas as indicações dele (comprei o Magellan Meridien Platinum).  Não havia rivalidade porque não havia comunicação de todos com todos - apenas havia comunicação individual, por email. A listing do Yahoo só apareceu em Setembro e só aí começamos a "falar" todos juntos.

Na altura a Magellan tinha a linha SporTrack e os Meridien. A Garmin ainda não estava a usar os satélites de correcção de sinal e, por isso, a Magellan tinha vantagem. Uns anos mais tarde, a Garmin apostou mais no Software e nas funcionalidades enquanto a Magellan continuou a apostar no hardware e perdeu cota de mercado, tal como aconteceu entre a IBM e a Microsoft. Mas isto já é off-topic.  :)

 

GM – Portanto, um mês a recolher informação antes de te inscreveres, e depois mais um mês antes de te lançares efectivamente à aventura? Confirmas a Pela Pré-História do Alentejo [GC25BB] como a tua primeira busca? Conta-nos tudo!

MA - Sim, documentei-me bem antes de começar a praticar geocaching de forma efectiva. Desconfiava que fosse algum "andar aos gambuzinos" e agi com desconfiança e cuidado. Era algo completamente novo! Mas, conforme ia lendo e ia absorvendo os princípios básicos do geocaching, ia ganhando confiança, e a certa altura o foco estava no fazer bem as coisas e por isso demorei ainda mais umas semanas antes de procurar a primeira cache depois de ter criado conta. 

 E sim, foi a "Pela Pré-História do Alentejo - I ", porque: 

a) era uma cache que levava à aventura ao longo de vários locais. Portanto, prometia um primeiro orgasmo duradouro. :)

b) era uma forma de agradecimento ao "pregalla", começar com uma cache dele, por me ter ajudado.

c) era uma cache física longe de Lisboa mas não demasiado longe. 

Quanto à procura, convidei o meu colega de trabalho, com o qual tinha comentado a descoberta do novo hobbie, e o mesmo que, depois, desenhou o primeiro logotipo de Geocaching-pt, e lá fomos com as nossas mulheres e o meu filho procurar a cache. Imprimi o mapa MapQuest (que era o único disponível na altura e apenas nos dava o ponto inicial com a sua posição relativa às estradas nacionais e ao Norte mas sem curvas de nível ou estradas secundárias e de terra batida, nada).

Nesta primeira procura, dei duas "barracas": 

1) fiz o percurso ao contrário (comecei pela cache final e pelos pontos de referência a visitar e só no fim fui procurar o ponto inicial - na altura ainda não era multicache como é hoje).

2) a outra "barraca" foi meter-se-me na cabeça que tinha de conseguir ter no ecrã do GPSr as exactas coordenadas publicadas! Então ali andei eu a dançar com o GPSr na mão, a tentar que os dígitos no ecrã fossem os mesmos que estavam publicados. Estás a ver a dificuldade? Agora sabemos que 2 GPSrs podem não chegar exactamente às mesmas coordenadas no mesmo exacto ponto, por causa do factor de erro dos dois aparelhos (o que "esconde" a cache e o que "procura" a cache) e pelas condições meteorológicas que afectem a "visibilidade" dos satélites. Então... foi confrangedor e ainda hoje me rio de mim mesmo por causa desta cena. 

GM – Depois desse primeiro “Found it”, e pelo que se pode ver pelo teu perfil, o Geocaching como que passou a ser a tua ocupação de fim de semana, certo? Mesmo com tão poucas caches disponíveis como nos disseste, no primeiro mês deste conta logo de mais meia dúzia delas. O facto de ser praticamente verão, e de serem todas relativamente perto de Lisboa, também deve ter ajudado, aposto. Alguma história que recordes como verdadeiramente especial dessas primeiras semanas? Tens como segunda descoberta a Last Home of Gertrude [Mafra], uma cache que eu gostei bastante (e onde já regressei um par de vezes).

MA - Certo, o geocaching, depois de toda aquela preparação teórica, passou a ser o meu hobbie principal porque se ligava a várias facetas da minha personalidade e experiência de vida - basta dizer que nasci em Lisboa mas aprendi a falar e a andar em Castelo Novo, na Serra da Gardunha, a guardar rebanhos de ovelhas e cabras. Por isso o meu desembaraço fora das cidades, no meio rural. 

A segunda cache, foi realmente a Last Home of Gertrudes (meu log), porque já com a certeza de que isto não era uma "caça aos gambuzinos" lá me arrisquei a levar mais membros da família, especialmente os jovens. Adoraram, como era de esperar. :)

Depois continuei a procurar as caches que existiam na altura mas, entretanto, dei mais uma barraca no geocaching: não reparei que a "A Great View of Lisbon" (log) era virtual, encontrei um lápis partido, pensei que a cache tinha desaparecido e loguei um "DNF"... Mas o "orebelo" enviou-me um email a dizer que era virtual e voltei lá para obter os dados que permitissem validar o "Found it" da cache - eu tinha lido sobre caches virtuais mas na altura não me apercebi.

As outras caches que fui procurando, todas elas foram desafiantes, especialmente a "Pequena Gruta" e assim fui ganhando experiência e ficando cada vez mais aficionado do Geocaching.

 

GM – [risos] Essas “pézadas” são sempre engraçadas de recordar! De vez em quando leio sobre pessoal que procura imenso tempo pelos containers das EarthCaches! Numa altura em que se fala sobre a longevidade vs efemeridade das caches é com genuíno prazer que vejo que a maior parte das tuas primeiras encontradas estão bem e recomendam-se (algumas com a tua mão, outras com a minha, com a do BTrodrigues, Felinos, etc.).  Olhando para a primeira página dos teus “Founds”, que apresenta oito caches, só a Cabo da Roca [GC7A2D] é que foi arquivada por ter sido vandalizada. As outras duas arquivadas foram-no devidos a questões com os locais onde foram colocadas. A Visit to Frei Agostinho da Cruz [Setúbal] [GC45D6] foi mesmo resgatada pelo Joaquim Safara em 2013 (relato publicado no Nº8 da Geomagazine) e a da A Pequena Gruta [Mafra] [GC26C3] salva em 2011 por alguns ilustres membros do Gang da Pata Negra. E é sobre esta última que recai a próxima pergunta já que tu próprio a destacas como “especialmente desafiante”! Para nós outros, que não tivemos o prazer de a procurar, com que podíamos contar?

MA - A "A Pequena Gruta" era a minha segunda cache de eleição para procurar na altura - aquela que, da análise inicial da oferta mais desafiava a minha procura - mas optei por algumas outras caches antes para ganhar confiança e experiência e só depois enfrentar esta. O motivo era a descrição da cache, o facto de se ir entrar numa gruta, a entrada/acesso pelo "túnel" que parecia complicada... tudo pormenores que desenvolviam um "Adamastor" no meu íntimo.  

Quando lá fui, mais uma "barracada"... Chegámos a andar com os pés no topo do monte por cima da Pequena Gruta. Enfim, era uma festa, cada caçada, cada aventura nem que eu tivesse que inventar a aventura. :)

O que devia esperar quem lá não foi? O log do Fonsecada-Portucalense ilustra bem o local da gruta, e por onde eu andei. Além do acesso a desafiar a aventura, dava-se de caras com um local onde havia uma galeria de pequenas grutas interligadas e com "janelas" naturais para o exterior e para o Rio Lisandro que desenha, na zona, um serpentear engraçado. Nos mais recônditos recantos, testemunhavam-se formações geológicas em bom estado, frágeis estalactites e estalagmites como se pode testemunhar no log do "MCA", a quem acompanhei mais ao "PH", numa altura em que fui lá fazer manutenção.

Já agora, e em jeito de estória lateral, esta visita em conjunto talvez tenha sido a primeira em que geocachers, que se conheceram apenas no geocaching, se juntaram para ir procurar uma cache sozinhos, sem ser em passeio de familiares e/ou amigos. Foi nesta caçada conjunta que nasceu aquilo que viria a ser "Os Expedicionários". :)

 

GM – “Os Expedicionários”… já lá iremos! Muito mais difícil do que investigar as tuas primeiras aventuras “com sucesso” é rastrear os malogrados DNFs! Que recordações guardas do(s) teu(s) primeiro(s)? Não daquele no Castelo de Lisboa, claro, mas de um DNF a sério!

MA - O 1º DNF foi na "Cold Spring" e foi devido à dificuldade de obtenção de um sinal GPS de jeito porque andei a procurar muito longe da cache (soube depois quando a encontrei mais tarde).

A recordação mais traumatizante foi a "Uma Aventura Na Lagoa II" (a original, do "pregalla"). Como era longe... uma hora a procurar e nada. 

Depois desta, mais alguns DNFs se seguiram mas o mais complicado de digerir, a seguir, por ser muito longe e por o local ser muito especial, foi a "Fraga da Pena". Aqui o problema foram as coordenadas publicadas que estava mal e foram corrigidas mais tarde.

Sempre loguei os DNFs e em várias chegava a procura de forma muito insistente no início (agora já não procuro uma cache durante 1 hora como então). 

Enfim, nada de especial com os DNFs para além do tempo extra a procurar porque, o passeio, as vistas e a descoberta do local esses ficam.

 

GM - Aproveito este momento para te agradecer! Obrigado! Confuso?! [risos] Não devias estar... isto é o que se pode encontrar no site Geocaching.com quando se pesquisa por "Charter Member". É lá pedido que lhes agradeçamos visto ser responsabilidade deles o facto de o site existir. Durante muito tempo foste o "nosso" Charter Member... O que te levou a apostar/apoiar o geocaching logo no seu início? Houve algum tipo de "apelo" ao registo como membro pagante? Como se processou a coisa? E não menos importante, porque é que deixaste de o ser? Foi algo recente, se não me engano.

MA - Os Charters Members são os Premium Member que surgiram no início e que constituíram o primeiro dinheiro que o Jeremy conseguiu para começar a evoluir o Geocaching.com. O titulo de "Charter" foi uma distinção honorífica prometida a quem aderisse. Houve um apelo feito por email que recebi algures entre junho e setembro de 2002, altura em que decidi contribuir com 30$usd anuais. Inicialmente, estava previsto que seriam Charter os primeiros 1000 que aderissem (fiquei entre os primeiros 850) mas a iniciativa teve tanto sucesso que alargaram aos que aderiram durante o primeiro ano e chegou-se a um número a rondar os 3000. Todos estes números circularam nos fóruns da Groundspeak, que eu acompanhava diariamente.

Deixei de ser Premium Member em 2014 por não concordar com a diferença de tratamento entre os que pagam em $usd e os que pagam em €uros, no preço pela subscrição de Premium Member. 

GM – É um tema mais ou menos recorrente esse da diferença cambial entre as duas moedas… de vez em quando leio num dos fóruns que alguém tem de renovar a assinatura e que não faz sentido esse tratamento diferenciado. De qualquer modo digo-te que fiquei com pena de perder o “nosso” CM! O que nem sequer faz muito sentido, o de perderes o estatuto de Charter Member, se esse “titulo” foi atribuído aos primeiros que contribuíram. A única diferença é que agora seria CM Basic Member e não CM Premium Member.

Debrucemo-nos agora um pouco sobre a tua faceta de Owner! Setembro de 2002 é a data que consta naquela que é a tua primeira (excelente, diga-se) cache! Castelo dos Mouros [GC88D3]… como na altura não havia “log” de publicação, confirmas essa como a data real de colocação? É que a primeira tentativa para a encontrar foi feita apenas em Janeiro de 2003.

Porque ali? Era(é) um daqueles locais que tem mesmo de ter uma cache? Não faço esta pergunta tendo em conta o panorama actual das coisas… faço mesmo no contexto em que a colocaste, meados de 2002.

MA - Sim, confirmo a data de colocação da "Castelo dos Mouros". Ao fim de várias caches encontradas, senti que estava pronto para colocar a minha primeira. Já tinha visto vários tipos de container e de esconderijo e comecei a planear a minha contribuição. O local? Simples. Estava-se na época em que o herói dos filmes era o Indiana Jones e eu tinha, na família, 2 "Lobitos" (iniciantes nos Escuteiros) e então desafiei-os a irem comigo, para as redondezas do Castelo dos Mouros procurar um local para esconder uma cache. A zona e o tema escolhi eu, o local exacto da cache escolheram eles! 

Mas... há uma história secreta por trás desta cache. Ou quase secreta. Como já havia uma cache na Serra de Sintra (a "O Lugar dos Mortos") eu senti  certo desconforto em colocar lá outra cache porque a que lá estava, considerando a densidade e distribuição de caches em Portugal, já 'mostrava' Sintra. Então, enviei um email ao "pregalla" a perguntar se ele não se importava que eu colocasse outra cache... na outra ponta da Serra de Sintra (a mais de 500m). Argumentei, algo comprometido e sem à vontade, que a cache estava longe da dele e tinha outro tema e, do que conhecia, aquele era o local certo para o meu tema, aventura tipo "indiana Jones", pela floresta densa e tenebrosa (na altura não havia limpeza de matas como vai havendo agora).

 

GM – Não era (é) uma cache “fácil”! Tem já 185 DNFs! Eu próprio demorei bastante tempo até me decidir a ir procurá-la e no dia demorei bastante tempo a dar com ela. Estávamos já em finais de Maio quando o Pedro(OCoyote) lá deu com ela. Chegaram mesmo a dizer que a cache se arriscava a ter mais visitas tuas do que de outros geocachers. [risos] Tiveste essa percepção? É(era) mesmo um “found” que cobra(va) o esforço? Provavelmente, a cache mais difícil de encontrar do seu tempo?

MA - Na página da cache escrevi: "Procurei este local com o meu filho (Filipe, 10 anos) e o meu sobrinho (João, 8 anos) e eles adoraram andar a fazer de "Indiana Jones".”

Eles foram terrivelmente sádicos... Como disse, eu escolhi a zona e o tema e eles escolheram o local exacto (spot). Dei-lhes corda e eles só pararam quando viram que não podiam subir a muralha. :)

Penso que era a cache mais difícil na altura, embora eu não tenha visitado todas as que existiam mas pelos comentários que fui recebendo... ficava com as "orelhas quentes". :)

785 found, 185 dnfs e 10 visitas de manutenção. Acho que o saldo é positivo e nem todas as caches têm que ser fáceis e rápidas de encontrar. Quem se desiludiu com esta cache é porque não leu bem a descrição e/ou não viu bem os atributos da mesma. 

 

GM – Agradece-lhes lá por mim!!! A mim deu-me muito trabalho [risos]… A tua segunda colocação encontra-se arquivada e lembro-me de (mais ou menos) recentemente ter lido algumas coisas sobre ela, pela escrita do Joaquim Safara. Temos no registo dele sobre a Lisbon's Monsanto - A Paleovolcano? [Lisboa] [GC9ACE] uma boa história para ler mas o que me chamou mais a atenção foi o teu registo com a indicação dos pedidos de colocação de caches em Monsanto aos responsáveis pelo espaço... Fala-nos um pouco dessa “Semi-Earthcache” e desses contactos. Já agora, sabes quantas caches por lá existem hoje em dia?

MA - A segunda cache foi ainda mais pensada e planeada do que a primeira. Num dos semáforos da Praça de Espanha, recebi uma publicação da "Cais" das mãos de uma das pessoas que são ajudadas por essa instituição. O tema era os vestígios paleovolcânicos da Serra de Monsanto. Interessei-me pelo assunto e decidi colocar uma multicache que levasse a visitar os pontos assinalados nessa revista.

No meu planeamento, fiquei a saber, pela minha irmã, que trabalhava nas Estufas de Monsanto, que havia um Dr. Paulo Lopes no EPEM que era muito acessível, aberto e focado em novidades. Telefonei-lhe e marcámos uma reunião. Eu tinha a noção de que Monsanto não era um terreno baldio, abandonado, e sabia que tem instituições a tratar dele. No dia marcado, lá fui falar com o Dr. Paulo Lopes, expliquei-lhe o Geocaching, levei o portátil já com paginas html e mapas  abertas (não tinha internet fora do escritório/casa) e, pedi-lhe autorização para colocar uma cache dedicada aos vestígios vulcânicos de Monsanto. Ele autorizou e até fez mais; publicou um banner publicitário na página da CML do EPEM sobre a minha cache e pediu aos guardas/vigilantes de Monsanto que verificassem de vez em quando se estava tudo bem. 

O Dr. Paulo Lopes, a quem eu apresentei o Geocaching em Setembro de 2002, é hoje o geocacher "plnauta". Depois desta cache, ele ainda autorizou uma outra "The (Imprisioned) Squirrel" [GCGD9A] que também não resistiu aos maus tratos e vandalismos.

Quantas caches existem em Monsanto? Bem, com a "Mistérios..." devem totalizar algumas 300...

Ainda sobre o pedido de autorização para colocar a cache em Monsanto, aqui está o que fui partilhando com a comunidade geocacher da altura - sim, a partir de Agosto/Setembro de 2002 já começou a constituir-se uma comunidade por iniciativa do Ricardo Bordeira Silva ao criar o grupo geocaching_portugal no YahooGroups:

(se não tiveres acesso a estes links, diz que eu envio copy&paste ou crias conta no YahooGroups e aderes ao geocaching_portugal)

(repara nos avisos À Brisa e aos Guardas Florestais sobre a presença da minha cache :) )

https://groups.yahoo.com/neo/groups/geocaching_portugal/conversations/messages/167

e o resultado da reunião com o plnauta, perdão, Dr. Paulo Lopes :)

https://groups.yahoo.com/neo/groups/geocaching_portugal/conversations/messages/172

e foi pena não ter feito um printscreen desta página web porque estava lá a referencia ao geocaching e à minha cache (agora a página já não existe...) https://groups.yahoo.com/neo/groups/geocaching_portugal/conversations/messages/178

GM – Eia! O que se descobre ao perguntar as coisas às pessoas certas! Tenho pena por ele andar algo afastado do geocaching por estes dias (anos)… passei bons momentos a procurar as caches dele cá pelo distrito de Lisboa.

Colocaste mais meia dúzia de caches durante o ano de 2002, três delas arquivadas e três activas (presentemente). As três que subsistem somam perto de 240 favoritos, o que demonstra o apreço que a restante comunidade vai tendo para com elas… mas a minha curiosidade vai para a Ancient Aqueduts [GCA9CE] visto que és a primeira pessoa que entrevisto que teve uma Geocache Locationless (reverse). Explicas-me um pouco do que era esse tipo de cache, hoje “grandfathered” e a história por detrás da tua?

MA - As LocationLess caches eram um tipo de caches  virtuais, sem contentor físico e sem os aspectos negativos de uma procura física (degradação do meio, perigo para a cache, etc.) mas com os aspectos negativos de uma cache virtual (tentativa de batota).

Como funcionavam? Alguém criava uma cache virtual em algum local, dedicada a um tema, e depois desafiava os outros geocachers a procurar um local/tema semelhante em qualquer parte do Mundo. Para logar esse tipo de cache virtual, o criador especificava um conjunto de regras que, normalmente, incluía um foto do local/tema "logado" a validar a sua semelhança com o original.

No meu caso escolhi o tema do Aquedutos Antigos, ou da antiguidade, e recebi logs de aquedutos espantosos, antiquíssimos (Incas, por exemplo)  e remotos, por todo o planeta (inclusive, Austrália). 

Deliciei-me a ler muitos dos registos que ia recebendo. O Orlando Rebelo criou uma sobre Pontes Romanas e o Ricardo Bordeira Silva, sobre Monumentos ao Vasco da Gama - impressionante a diversidade de locais onde foram erigidos monumentos a esta figura da nossa História!

Depois, mais tarde, quando as LocationLess caches foram transformadas em Waymarks Categories, abri a possibilidade aos canais de irrigação, a coisa abandalhou-se e desisti.

 

GM – Conhecendo a tua “reputação”, não duvido que cada uma das tuas outras colocações que referi (de 2002) tenham muitos motivos de interesse por detrás das mesmas… algum em especial que queiras destacar?

MA - Sobre as caches que coloquei na fase inicial, tentei focar-me em temas - os vestígios vulcânicos da Serra de Monsanto, os vestígios e dinossauros na zona do Cabo Espichel, os aquedutos antigos - e em locais especiais - a Gruta de Santa Margarida na Arrábida, o Pulo do Lobo no Rio Guadiana ou a Furna que Sopra em Peniche com o seu curioso sopro do Mar. Talvez que me deu mais prazer a colocar, dessa primeira meia dúzia, tenha sido mesmo a dos vestígios vulcânicos de Monsanto e a dos vestígios de dinossauros no Cabo Espichel. Foram duas caches que me levaram a bastante investigação e preparação. Também gostei da maneira como "encontrei" a Gruta de Santa Margarida: comecei a vasculhar os livros todos que tinha cá em casa e encontrei o "Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett que falava da Gruta de Santa Margarida. :)

 

GM – Sobre os primeiros arquivamentos, queres desvendar os motivos por detrás deles? Falo da The Aqueduct [GCA3E6] e da Centro Geodésico de Portugal [Vila de Rei] [GCA6CC].

MA - Os arquivamentos... a grande maioria deles foram, e serão, devido a falta de cuidado e/ou desleixo dos visitantes das caches e que as deixam em risco, seja de serem descobertas por não geocachers, seja o risco de sofrerem os efeitos das intempéries.  As caches virtuais e a multicache mais elaborada que criei [GCVYJQ] foi por constante tentativa, e em alguns casos prática mesmo, de batota de chico-espertos. 

Não fora isso, e praticamente ainda estariam todas activas hoje. É só consultar os logs de arquivamento para confirmar isso mesmo.

 

GM – A minha intenção não é fazer uma retrospectiva total e exaustiva das tuas aventuras/caches/etc. mas a verdade é que foste um dos primeiros (se não o primeiro) numa série de iniciativas e “inovações”! Interrompe-me sempre que achares necessário para falares de assuntos pertinente e interessantes que esteja inadvertidamente a ignorar [risos].

Chegamos a maio de 2003 e ao teu primeiro evento como organizador (a meias com o Lobo Astuto), o 2nd Geocacher's Meeting in Portugal [Lisboa]. No rescaldo do primeiro meeting (seis meses antes) podemos encontrar esta curiosa referencia na listing “Somos os únicos malucos por aqui”! Era o que achavam? Apareceram tão poucos no 1º meeting (três attends feitos)… neste vosso quase que quadruplicaram os presentes.

MA - Deixa lá, por esta altura já deves ter perdido metade dos leitores! [gargalhada] Lembra-te que eu, o clcortez, o zoom_bee, etc.... somos "corpos estranhos" no Geocaching vigente. Somos assim, uma espécie de "homens das cavernas" que são muito giros para ver numa montra, num museu mas nada mais do que isso. ;) Continuando, porque tenho prazer e orgulho no nosso percurso no Geocaching. Porque, para mim, esta entrevista é como criar uma cache; respondo com o prazer que criei as caches. Se depois as pessoas apreciam a entrevista ou as minhas caches, não é relevante. Eu fiz o melhor que podia. E há sempre gostos para tudo…

"Somos os únicos malucos por aqui?". Repara que se tratava de uma pergunta e significava que queríamos saber se, além dos que já se tinham apresentado no Geocaching_Portugal, havia mais. 

Mas, por outro lado, agora existem dezenas de milhares de Geocachers. Na altura conheciam-se, entre os que criaram caches e os que as procuraram, uns 20 ou 30. Mesmo que fossem o dobro (e não soubéssemos por não terem criado caches ou feito logs nas que existiam) seriam uns 60 ou, vá lá, uns 100 Geocachers em Portugal. Por isso, sim, na altura sentíamo-nos algo únicos, especiais. 

O 2º encontro de Geocachers foi um impulso e uma necessidade natural, até devido à meia desilusão que tinha sido o primeiro encontro, por terem ido tão poucos e até o organizador não pode ir.

Assim, para a organização deste segundo encontro nacional, esmerámo-nos e, além do local muito bem escolhido (tínhamos a percepção que Lisboa era a zona com mais geocachers e Monsanto é um local naturalmente atractivo para um picnic com a família), criámos um programa bem composto que incluía jogos (com prémio), distribuição de t-shirts, troca de prendas, actividades acessórias (a subida da parede de escalada que ali existe e que depois motivou caches, acompanhada por monitores do Parque de Monsanto e que eram os ajudantes do Dr. Paulo Lopes) e preleções por especialistas em GPS (O Afonso Loureiro, recentemente formado e o js-sms, Professor na Faculdade de Ciências) que nos ensinaram os conceitos por detrás do sistema GPS, com a ajuda de equipamento profissional.

 

GM  - Um Evento com “E” grande portanto! Monsanto é deveras um local TOP para a prática deste nosso hobbie, especialmente em família (já o fiz algumas vezes). Entretanto e pelo que se depreende pelos escassos dias que mediaram entre o meeting e a tua seguinte publicação, andavas bem activo! Um evento bem organizado seguido de uma interessantíssimo “projecto”, onde foste, novamente, pioneiríssimo! Falo, obviamente das famosas IMCs, European IMC No.1 P - P - Castelo de Bode e European IMC No.1 S - P - Tide Mills [Almada]. Qual a génese da coisa? Como surgiu esta ideia?

MA - As IMCs foi ideia do Hendrik Woelper, um geocacher alemão. Está tudo contado aqui http://forum.geocaching-pt.net/viewtopic.php?p=9495#p9495 e a página inicial do projecto é esta http://www.woelper.net/gc/imc-ec-no1.php

Um conjunto de multicaches, constituído pela cache primária e pela cache secundária em cada país em que, para se encontrar a secundária era necessário visitar a primária e depois trocar dicas com os outros geocachers estrangeiros. O projecto evoluiu até à versão 4, tendo eu representado Portugal nas versões 1 (água) e 2 (vento), o lynxpardinus (Ricardo Silva) na versão 3(terra) e o mtrevas (Miguel Trevas) na versão 4 (fogo).

 

GM – Uma pesquisa rápida revela 14 destas primeiras IMCs ainda activas, sendo que apenas três delas são tradicionais. Parece-me que apenas na Hungria subsistem ainda as duas, Tradicional e Multi. Parece-te que faz sentido existir a Multi sem a outra?  No teu caso, uma dependia em parte da outra… é(era) assim para todas?

MA - Foi um conjunto de projectos interessante mas foi-se degradando e quando começa a falhar em vários países, todo o conjunto vem abaixo.

 

GM – É uma pena. São estas coisas que dão (ainda) mais interesse ao Geocaching. Lembro-me de ter encontrado uma tua, na Serra de Sintra… agora chama-se apenas Feel The Wind [GCKJ9A] mas quando a encontrei julgo que faria parte da versão 2 (até pelo nome).

MA - Sim, a "Feel The Wind" era anteriormente a "IMC No. 2 P - PT - Feel the Wind".

GM- Outra das coisas que (me) dá bastante gozo é procurar caches antigas (como quase todas as tuas) e caches “descontinuadas”… não há como ignorar as três Virtuais no teu perfil, todas arquivadas. Referiste há pouco que o fizeste por causa dos Chico-espertos e Batoteiros mas, nem sei bem como colocar a pergunta, o que se sente ao arquivar uma cache de um género que não voltará a ter novos exemplares? A fazer fé na nota do Joaquim Safara, colocada na Memories of Stone and Water [Lisboa] [GL448JCB], esta tua terá sido mesmo a última virtual publicada.

MA - O que senti quando arquivava as minhas caches... Uma grande sensação de perda e revolta mas eu não sou de "dar a outra face" ou de "deixar andar". Se não respeitam alguma das minhas caches, então é porque já estão a mais. As caches que criei, os projectos em que me envolvi custaram-me tempo, dedicação, dinheiro, privações... Foram feitas de acordo com as guidelines da GroundSpeak, foram aprovadas pelos Revisores e eram para ser visitadas ou logadas da forma como foram idealizadas. Quem não concordasse, passasse à frente e fosse procurar outra cache.

No início, este conceito era perfeitamente aceite a respeitado. Por exemplo, existe um Geocacher que não procura caches onde não consegue chegar fisicamente devido à sua pequena estatura e está no seu direito. Ele acha que o Geocaching não deve ser uma prova ou mostra de aptidão física. Está no seu direito, ele ignora essas caches e procura outras.

Nas minhas caches virtuais e na multicache mais elaborada que criei, apareceram demasiados casos de contornar a cache na forma como foi elaborada e decidi acabar com elas. Quem as procurou e encontrou de acordo com o idealizado para a cache, não perdeu nada. A história das caches também não se perdeu - pelo menos enquanto ainda for relevante em termos de tempo histórico, quem não as encontrou por já não existirem... parece evidente que tem muito por onde procurar e os spots ficaram livres para outras criações iguais ou melhores que as minhas. Só fica mesmo irremediavelmente perdido as badges e as GC6... agradeçam aos batoteiros. Eu, pelo meu lado, nunca perdi a capacidade e dedicação para ir mantendo as minhas caches. 

Por outro lado, se elas não tivessem sido arquivadas pelos motivos que foram, será que ainda existiam tal como eu as criei? Não tenho a certeza. A GroundSpeak parece que está apostada em mudar tudo o que foi o seu início e o seu espírito inicial em favor de uma cada vez maior monetização do Geocaching...

 

GM – “(…) a capacidade e dedicação para ir mantendo as minhas caches”. Aqui está o mote para introduzir umas questões sobre as caches que adoptaste. As duas mais antigas do teu perfil, dos idos anos de 2001, vieram da pena do Pedro Regalla. O que aconteceu? Como se proporcionou a continuidade destas caches, pelas tuas mãos?

MA - O Pedro estava a desligar-se do Geocaching "no terreno" porque ia para Paris (onde terá estado uns tempos) e procurou adoptantes para as sua caches.

As três caches que aceitei diziam-me algo; uma porque foi a minha primeira (Pela Pré-história do Alentejo), as outras duas porque era um tema que me agradava (aventura na Lagoa) e estavam perto de locais onde eu tinha ligações, seja porque tinha outras caches na região (Mértola), seja porque passava frequentemente na zona e tinha sentimentos fortes por aquela cache, pelo que provocou nas minhas procuras. 

Senti também que eu, na altura, era o que tinha mais capacidade para adoptar caches distantes da zona de residência e, por isso, quando o Pedro colocou as suas caches para adopção, não me candidatei às caches mais perto, porque sabia que haveria candidatos para elas, como aconteceu.

 

GM – Se falarmos no Regalla, não podemos deixar de fora outro “dinaussauro”, o Pedro Cardoso. O que disseste para o outro Pedro aplica-se também ao pcardoso?

MA - Aplica-se tudo relativamente à consideração por ser mais antigo e experiente que eu e ser uma pessoal muito afável e acessível. Existiram diversos episódios que nos puseram em contacto (as caches dele na zona de Mértola) e que nos levou a ir visitá-los na Ilha Terceira, fazer uma caminhada guiada por ele e jantar com ele e família e fazer a manutenção da "Atlantis" [GCK1JY].

 

GM – No seguimento destas perguntas, destas caches adoptadas, impõe-se um pequeno interlúdio sobre os teus “planos de manutenção”! [risos] Não tenho dúvidas de que a tua postura no que refere este ponto (ter as caches em excelentes condições) é UMA das razões pelas quais és um dos chamados “Geocachers de Referência”. O que te apraz dizer sobre este assunto?

MA - Eu aprendi o Geocaching em 2002. Com as virtudes e defeitos que tinha. No espírito do Geocaching original estava implícita a manutenção das caches, o não colocar caches que não se pudessem manter, etc... Eu  mantive-me fiel a esse espírito. É só. Para mim, é uma coisa natural e é pena que eu me distinga por isso. Eu devia ser apenas um na multidão dos geocachers conscienciosos e que medem bem as consequências de colocar caches. O facto de eu ser de "referência" por esse motivo, só me preocupa em vez de me agradar.

 

GM - Julgo que haverão mais (muitos mais, espero) "geocachers conscienciosos" como referes. [Risos] Agora, conseguir manter essa "postura" ao longo de 15 anos não é para todos, disso não tenho dúvidas. Mas como disse, essa é apenas UMA das coisas em que te distingues! Tenho aqui uma pequena lista delas [Risos]

Ora veja-mos, "aproximação à MAntunes"! É uma expressão muito ouvida por esses montes e vales... haha, uma pesquisa no Google por essa frase (+geocaching) devolve mesmo um "quer dizer que dá para fazer a aproximação à MAntunes?" vindo do baú do @PT. Desvenda lá esta estória, s.f.f.! 

MA - A estória da "aproximação à MAntunes" nasceu neste log e nesta foto

Depois de um CITO em Monsanto/Estádio Nacional, fomos separadamente a esta cache (não me lembro se combinámos ou se calhou porque na altura havia muito poucas caches para procurar).

Como abordámos a cache de maneira diferente, ele chegou primeiro e ficou ali a observar aqui o artista e a rir-se enquanto me tirava fotos. A partir daqui, pegou a expressão e como eu sou mesmo assim, directo e simples, tanto na abordagem das caches como na abordagem das pessoas, a fama ficou. :)

 

GM – O bom do Cortez… tem o condão de lançar “essas modas”! [Risos]

Para terminar este périplo pelas “coisas que distinguem sobremaneira o Geocacher MAntunes” [Gargalhada], falemos um pouco daquela, para muitos, digamos, mais “estranha”. Parece-me que serás mesmo o único “adepto” desta. Falo obviamente do “Found It” como o entendes e aplicas. Diz-se, e lê-se, que, para ti, o “found” só conta se fores mesmo tu a encontrar a cache. Enquadra-nos lá essa tua faceta s.f.f..

MA - É muito fácil. Tem duas origens: 

- uma, o tempo em que eu aderi e a prática/espírito que se evidenciava na altura.

- outra, a minha maneira de ser.

Quanto ao tempo, estava-se no início e a maioria das pessoas "bebia" os conceitos dos Geocaching directamente da fonte oficial. Não havia intermediários e a informação era simples e directa. Encontrou = "Found", não encontrou = "Not found", outras situações = "Note". Não havia outros tipos de logs.

Eu comecei a praticar Geocaching com amigos, e família e depois continuei sozinho. Habituei-me a que o mérito ou demérito era meu (e/ou da minha equipa, família, que eu levei a passear) e esse hábito ficou assimilado desde o início.

A outra razão, porque não sou o único Geocacher ainda activo que aprendeu a actividade naquela altura, tem a ver com a minha personalidade. Se é verdade que sou simples e directo com as pessoas e não me coibo de ir directamente falar com elas - seja para o bem, seja para o... menos bem, também é verdade que sou algo restritivo e marco fronteiras que não ultrapasso. Eu não acho bem estar a registar como encontrada uma cache que eu não encontrei e assim procedo. Para mim é simples e óbvio mas aceito perfeitamente que os outros encarem esse aspecto de forma mais aberta e descontraída.

GM – Então e quando essas duas formas de encararem os “founds” se cruzam?! Nunca ouviste um “Ei! Onde para o Manuel?” ou “Então? Não vens?”? Lembro-me de ler alguma coisa sobre um “episódio” desses numa excelente cache na zona da Maceira, salvo erro. Por episódio refiro-me a teres ido procurar uma cache a solo enquanto o pessoal se dedicava a “rapellar” para dentro de uma gruta, claro.

MA - Sim, evito que a minha maneira de procurar caches provoque constrangimentos aos outros companheiros de caçadas. Normalmente, coordena-se as coisa de forma a que: ou vou antes deles ou vou depois. Depende da situação. Era comum a expressão "Busca Manel!" entre os Expedicionários, para me dizerem que já podia ir procurar a cache. :). Nessa situação que relatas, como o pessoal estava entretido a enfiar-se no buraco, e o tempo de espera na fila era alargado, aproveitei e fui procurar a cache.

O buraco onde nos metemos numa iniciativa do BTC , foi A Fenda e a vizinha foi a Lapa da Columbeira.

 

GM – Columbeira!!! Era isso! Estava a embirrar com Maceira e nunca mais chegava aí… bem podia procurar. Isto é mesmo como as cerejas [risos]… fui ver o meu registo e escrevi um brilhante “log later”, ainda em 2013, o que me fez lembrar de algumas questões relacionadas com SmartPhones. A mim, pessoalmente, dá-me muito jeito a possibilidade de criar e mandar para o site “field notes” (ainda no gz) principalmente porque ficam em “hold” no nosso perfil, evitando registo do tipo que referi atrás. Mas, parece-me, é das poucas vantagens que também beneficiam os Owners das caches. O que te parece? Julgo que também serás algo crítico da utilização dos ditos telefones inteligentes no Geocaching.

MA - De modo nenhum! Como informático que sou, adoro gadgets e brinquedos electrónicos que nos facilitem a vida.

Fui um dos primeiros a ter uma solução PocketPC + gpsr + cartas calibradas a funcionar e, uma vez, no Geocaching-pt, sonhei com um aparelho que combinasse gpsr + gsm + mapas e caches online. Ainda só havia pocket pc sem GPS integrado (era adicionado com um adaptador CF ou via bluetooth) nem gsm. 

Hoje em dia, depois do meu velhinho GPSr Magellan Platinum ter morrido de vez, uso apenas um smartphone com c:geo. 

Não costumo fazer "field notes" ou "logs de off-line". Quando encontro uma cache faço imediatamente o registo resumido e depois, em casa, completo e coloco fotos. 

O que me parece? Acho que é uma solução mais equilibrada porque dá a informação básica e essencial ao dono/autor da cache (encontrei/não encontrei e as impressões mais fortes da visita). 

 

GM – Hum… estava a referir-me a aspectos como os de se poder registar a visita sem na realidade se estar sequer registado no site oficial e por conseguinte não se ter maneira de contactar o geocacher, caso necessário. Julgo que tiveste alguns problemas relacionados, há alguns meses.

MA - Ah, esse tema... sim, infelizmente a GroundSpeak tem vindo, gradualmente, a afastar-se do espirito inicial do Geocaching, que ela própria criou, e tem alterado as regras e guidelines de forma a beneficiar os "procuradores das caches"/Visitantes em prejuízo dos "colocadores das caches"/Responsáveis. As ferramentas dos primeiros têm aumentado e as obrigações dos segundos têm-se mantido, o que está correcto, mas as ferramentas que tinham à sua disposição para exercerem o seu papel de responsáveis têm vindo a diminuir.

Existem vários exemplos que, ao longo dos tempos, me levaram aos foruns oficiais da GroundSpeak argumentar, sem resultado, pela defesa do papel do Responsável pela cache.

A sensação que tenho, já há vários anos, é a de que uma cache é um Serviço ou Produto disponibilizado pela GroundSpeak ao Visitante que tem o direito de a registar como encontrada a seu belo prazer, e o Responsável pela cache, é o apenas o encarregado da manutenção da mesma que tem a obrigação de manter esse produto em boas condições para os Visitantes.

Como disse, há vários episódios que se espalham ao longo dos anos e começou, para mim, com a possibilidade de os visitantes básicos poderem logar caches Premium (pmoc) se acederem ao formulário do log pelo link directo (um porta deixada propositadamente aberta?) porque de modo próprio, pela listing, com a sua conta, não o podiam fazer porque as pmoc eram só para Premium Members, tal como foi noticiado quando foi anunciado o aparecimento das pmoc, a que eu assisti. 

Depois, foi a proibição indiscriminada das ALR (Aditional Logging Requirements) facilitando a bandalheira em que se tornou o registar como encontradas as caches, no caso mais usual, virtuais.

Esse último(?) aspecto da aplicação oficial do Geocaching para dispositivos móveis, foi outra machadada no ânimo de quem tem que manter as caches de forma a respeitar as Guidelines, na parte da manutenção. É que, ao disponibilizar a BD das caches em dispositivos móveis sem os obrigar a criar conta com email validado, provoca que, caso necessário, o responsável pela cache não possa contactar o visitante para esclarecer alguma dúvida, pedir a eliminação de um log duplicado ou indevido, etc... 

Eu, depois de várias tentativas frustradas de contacto e de ter lutado nos foruns da GroundSpeak, outra vez sem sucesso, passei a apagar os logs de visitantes sem email validado, quando esses logs tenham alguma característica que os invalidem (duplicado, sem correspondência no logbook).

 

GM – Esse é outro aspecto em que me parece que te destacas de grande parte da comunidade… sempre tive a “impressão” de que és um dos mais atentos dos “nossos” geocachers ao que se vai passando com a GS e sobre os assuntos discutidos nos fóruns deles. Dizes mesmo que tens argumentado por lá, invariavelmente sem grandes resultados, certo? Parecem-te discussões em que pura e simplesmente são ignoradas as opiniões dos “jogadores” porque as decisões estão tomadas? Julgo que até a forma como isto se processa se tem vindo a alterar, certo? O Fórum em si não é uma coisa até recente?

MA - Sim, sempre estive atento aos fóruns da GroundSpeak, especialmente nos primeiros 10 anos da minha actividade. Mais uma vez, por razões históricas; no início não havia fóruns em Portugal (a mailing list do Yahoo aparece mais de 6 meses depois de eu saber da existência do Geocaching) e eu estava ávido de informação. 

Após a ajuda inicial dada pelo Pedro, eu precisa de saber mais. Os fóruns da GS eram a minha única fonte de informação. Acompanhava quase tudo que se passava lá.

Os fóruns da GS, algures entre 2006 e 2008 mudaram de plataforma e de orientação. Até aí, era usual ver-se o Jeremy contribuir ou responder nos fóruns ou, em resultado dos fóruns, responder directamente por email.

Sentíamos o Jeremy como um de nós. Depois dessa mudança tecnológica e de gestão, os fóruns tornaram-se maiores, mais organizados, mais formais e... mais distantes. 

Durante alguns tempos, o conteúdo dos antigos fóruns ainda esteve disponível para consulta na secção arquivo - tópico bloqueados a novos posts mas consultáveis. Agora já não estão acedíveis da primeira página (cheguei ao link acima através da lista dos meus posts). Praticamente deixámos de sentir a presença do Jeremy e passou a haver um conjunto de pessoas a servir de tampão entre a comunidade e a estrutura dirigente do Geocaching mundial.

Os foruns da GS, actualmente são uma ferramenta que, acredito, os "TPTB" ("The Power That Be", expressão usada lá) consultam mas já não lhe dá a importância que lhes davam nos primeiros anos. Basicamente, são uma válvula de escape da comunidade que eles tentam ignorar e apenas em casos mais importantes, intervêm e lá aparece um dirigente a responder - não estou a falar dos moderadores, esses são o tal tampão que foi colocado entre a comunidade e a GS, para além do papel principal de moderação. 

Mais uma vez o "Torgut" teve razão neste caso ao dizer que não valia a pena argumentar nos fóruns da GS, quando eu ia lá tentar lutar por causas em que acredito. O outro assunto foi quando disse que eu fazia mal em promover a divulgação do Geocaching.

 

GM – Estes assuntos, mais do “foro informático”, mais do “backoffice” do que actividade maioritariamente de ar livre que é o Geocaching, chamam pelo teu lado profissional? Referiste há pouco que és informático. Há uma relação directa entre a tua actividade profissional e a lúdica?

MA - Descobri o Geocaching através de uma publicação relacionada com a minha profissão e, no início, era necessário, não digo bagagem mas predisposição para entrar na tecnologia e nos gadgets. Sem essa força e curiosidade interior, as pessoas não entravam neste jogo de "maluquinhos da informática" - não havia mapas online, os GPSrs nem todos tinham mapas base e era mais difícil do que agora, em que um único aparelho faz tudo e actualiza-se quase automaticamente com as caches.

Devido à minha profissão, que me deu um certo à vontade na parte tecnológica e o facto de ter aprendido a falar e andar na província - apesar de ter nascido em Lisboa -, consegui entrar bem, tanto na parte técnica como na parte lúdica e tenho mantido a minha capacidade e postura em ambas.

GM – Pois foi… descobriste o geocaching num meio de comunicação e depois foste estrela em pelo menos um outro! Lembro-me de ter visto uma pequena peça de telejornal onde promovias o Geocaching, julgo que de 2005. Era a isso que o Torgut se referia? Como te viste envolvido em mais essa aventura?

MA - Sim, era a essa entrevista na RPT2, programa Magazine 2010, que ele se devia referir mas também a outras entrevistas que dei a jornais e revistas. Acreditava eu, na altura, que o Geocaching devia ser mais divulgado e partilhado por um maior público. 

Magazine 2010 - 13/Ago/05 link  // Pública (Revista semanal do Jornal o Público, nº 457, 27/2/2005)

Depois, ainda houve outra em que eu e o Cláudio fomos cachar de bicicleta em volta do Rio Trancão e combinámos encontro com umas jornalistas para nos entrevistarem em calças de lycra (nós). Mas não tenho o link da reportagem publicada. 

Como me envolvi nessas aventuras? Basicamente era contactado por alguém a pedir uma entrevista ou reportagem. Penso que os jornalistas me encontravam pela minha actividade, tanto no Geocaching.com como no Geocachig-pt e me contactava. Foi isso.

 

GM – Há que agradecer aos céus por não teres dado com esse link!!! [risos] Se bem que teria ferramentas para gozar com o Cortez durante muito tempo! Aproveitemos esta nova referência ao Cláudio para falarmos então de amigos e d“Os Expedicionários”. Começaram por seres Tu, o MCA e o BH, certo, como disseste no início da nossa conversa? Quando é que aparece a “designação”?

 

MA - "Há que agradecer aos céus por não teres dado com esse link!!! [risos]" Não encontrei a reportagem mas encontrei o log da ganda bosta de cache que encontrámos após a entrevista.  ;)

Designação dos "Expedicionários"? Acho que foi durante a primeira saída, em 2004, ao Gerês onde fomos só os primeiros três. :)

 

 

GM - Primeira saída a três no Gerês... Conta! Não é bem a mesma coisa que combinar ir ali à Ericeira procurar uma cache! Quero(mos) saber tudo!

MA - Depois da caçada à "A Pequena Gruta" ficou a vontade de repetir a experiência e o Gerês desafiava a nossa imaginação e espírito de aventura. Então, passámos uns tempos a tentar conciliar agendas familiares até que decidimos ir só os três. Contactámos o  Roberto "rob300_tdi" e combinámos encontro na Portela do Homem, onde ele nos esperaria para depois nos acompanhar na caçada à cache dele, "A fronteira de Baixo" aproveitando para ir à frente fazer manutenção. Até lá procurámos a "Fenda da Calcedónia", baseados na história do meu DNF encharcado. A história engraçada, foi quando nos encontrámos com o Roberto e o MCA viu que ele conduzia o LR serie II, de 1900 e troca o passo"... caíu de queixos no chão e fez logo por continuar a viagem no LR descapotável, mesmo com vento e frio nas estradas galegas, por onde fomos para ligar Portela do Homem com a zona do Rio Laboreiro.

No fim, foi 1 (um) dia com saída e regresso a Lisboa em que fomos ao Gerês, atravessámos um niquinho da Galiza, fomos a Castro Laboreiro, algumas pontes romanas, e terminámos numa cache na zona de Arcos de Valdevez, a 56411m de altura. "Os Geocachers deve estar doidos!", pensei eu na altura. :) 

 

GM – Essa foi a primeira de muitas! Já vi algumas fotos com bem mais de três aventureiros… foi a evolução natural do grupo? Crescer e adicionar mais e mais amigos? Se não me engano, numa das minhas viagens com o Cláudio, ele ter-me-á dito que o objectivo nunca foi ser uma verdadeira “excursão”…

MA - O objectivo dos Expedicionários... inicialmente era apenas fazer umas caçadas em locais longe da rotina e da área de residência. Gerês era o local que primeiro aparecia nas nossas intenções. Depois, foram-se criando hábitos, pequenos pormenores que davam sabor único às nossas caminhadas; o chouriço do "PH", os textos de Torga, os nomes mais ou menos pomposos de cada Expedição, inventados em resultado de ocorrências das mesmas... e sempre o convívio e a enorme satisfação pelas caminhadas em locais de eleição.

Em 2006, em resultado de conversas e/ou comentários, surgiu a possibilidade de dois geocachers do Norte se juntarem a nós e aí começou a expansão do grupo, que tinha começado com 3 em 2004, passou a 4 em 2005 com a junção do "clcortez" e, depois, evoluiu gradualmente até um ponto em que se tornou difícil fazerem-se caminhadas com todos presentes porque, quanto mais pessoas, mais realidades de vida, calendários, compromissos, etc... se misturavam tornando impossível o pleno, regra que nos primeiros 3 anos foi nossa pedra angular - só íamos quando todos pudessem ir.

Quanto à expansão, nunca houve uma estratégia definida. As situações evoluíram ao sabor do acaso. Algum dos membros sugeria outro geocacher e era aceite. Só se começou a fechar a porta a partir dos 20 e poucos membros.

 

GM – Este ano já houve alguma saída? Para onde foi a última passeata? Regra geral tentam organizar a coisa em torno da(s) cache(s) ou já é mais ao contrário? Primeiro o Destino e depois logo se vê a(s) cache(s) que se enquadram?

MA - Este ano (considerando os últimos 12 meses) não houve qualquer saída. A última saída foi a Montesinho e é assim que funciona(va): Primeiro, o destino e depois as caches que poderão haver sendo que tínhamos sempre cuidado em haver algumas caches para procurar durante a caminhada - somos geocachers, certo?

GM – Como participante activo dos dois principais fóruns, e em diversas redes sociais, acabei por tropeçar várias vezes em posts onde referias a pouca disponibilidade para o Geocaching devido aos estudos… Foi também por causa dessa valorização pessoal que, pelo menos até ver, não voltou a haver “excursão”?  E agora? Julgo saber que a “escolinha” já terminou… voltaste “em força” a estas lides? [sorriso]

http://geomag.pt/portfolio/edicao-21-geomag-2/ - É verdade que a Licenciatura me tirou disponibilidade para o Geocaching em geral mas os programas especiais sempre foram sendo realizados e as Expedições mais concorridas, em que eu participei, até decorreram quando eu já estava a frequentar o curso.

Eu não voltei às "lides", pelo menos por agora, de certa maneira porque perdi um pouco elã que tinha de puxar pelos outros e de organizar coisas. Estou disponível para participar no que for aparecendo (recentemente participei num evento de CITO, em Tomar) mas já não sinto aquele vício que tinha de colocar todas as "moedas" (do meu tempo disponível) no mesmo "pote" (Geocaching), e vou distraindo-me com outros hobbies - passeios TT e comecei a correr regularmente em Agosto e estou a correr semanalmente, >15km por corrida, o que para mim, com a idade que tenho e tendo começado a correr há cerca de 8 meses, é muito estimulante e tenho como objectivo fazer uma meia maratona oficial, antes do final deste ano. 

Por isso, Geocaching, sim, sempre, mas de uma forma moderada e não ao ritmo e envolvimento que tinha antes do meu Curso ter entrado na fase decisiva, porque existem outros hobbies para aplicar o meu tempo livre.

 

GM – Consigo relacionar-me com isso. No meu caso tentei sempre incluir um ou mais dos meus hobbies quando me dedicava(co) ao geocaching. Primeiro a bicicleta, depois as caminhadas maiores, agora a fotografia de aves. A massificação e proliferação de caches em tudo o que é sítio também ajuda na perda desse elã de que falas.

Parto desse teu envolvimento para o próximo lote de questões… começo pelo 1º Geomeetup, organizado por ti, certo? Consegui dar com a ata (http://geocaching-pt.net/64) mas queria saber como nasceu a ideia e qual a tua impressão de mais uma “barraca” das tuas (ser pioneiro dá muitas vezes nestas coisas, ao “desbravar” o terreno para os seguintes).

MA - O GeoMeetup nasceu do espírito de que estávamos imbuídos, nós, os pioneiros, de procura do convívio, da partilha de algo de que gostávamos e do espírito de divulgação da actividade e entreajuda dos novos que iam aparecendo. Era o espírito da altura.

A ideia surgiu do site Meetup.com que de destina a organizar convívios entre praticantes de hobbies / actividades. Eu inscrevi o Geocaching em Portugal, lá no Meetup.com e tentei, por três vezes, organizar um Meetup. Era necessário um mínimo de 5 confirmações (will attends) para o Meetup ter aceitação e ser publicado no site Meetup.com. À terceira vez foi possível (conseguiu-se os 5 WAs) e o evento ou publicado no Meetup.com. O local escolhido, pelo site, foi a Livraria Barata e a "barraca" ocorreu porque a Barata não tinha mesas para um café nem serviço de cafetaria. Então, recorrendo ao "cartaz" que o site me aconselhou a imprimir, no local e rapidamente, encontrou-se um local opcional para onde o pessoal foi e eu fiquei à porta da Barata com o "cartaz" à mostra para o pessoal vir ter comigo e eu indicar-lhes o novo local de encontro do Meetup.

A minha impressão sobre o acontecimento? Foi engraçado. O pessoal andou a rir-se de mim durante uns tempos mas eu sei que foi a melhor opção a tomar naquele momento, visto que estávamos a encontrar-nos pessoalmente pela primeira vez e só assim era possível estabelecer o encontro/diálogo. 

 

GM – Até eu estou a sorrir só de te imaginar de cartaz na mão, à porta da Livraria! Só me consigo lembrar de publicidades tipicamente americanas, com tipos a segurar setas, vestidos a rigor, de galinha e afins. [Risos] “Thumbs Up” mais uma vez pelo espirito empreendedor!

A próxima questão sublinha, mais uma vez, esta tua faceta. Refiro-me ao 1º CITO em solo nacional, a meias com o Paulo Henriques, certo? Como se proporcionou este miminho à Natureza (que cada vez necessita mais)?  

MA - Tal como a Groundspeak continua a fazer anualmente, eles decidiram dar um passo em frente no espírito do CITO e incitaram a comunidade a organizar eventos destinados a esta actividade de preservação da Natureza.  E nós decidimos aceitar o desafio em Portugal.

 Até àquela data, o CITO era sugerido e promovido como uma actividade que se fazia durante a procura das caches, depois, passou a ser também uma actividade com eventos específicos e periódicos.

 

 Nota-se que, agora, os CITOS se resumem apenas aos praticados nos eventos “logáveis” mas que ao menos continuem assim. A prática do CITO durante a procura de caches desconfio que se foi perdendo e muita gente imaginaria que os CITOS nasceram da actividade paralela à procura de caches. Faz-me lembrar aquelas pessoas que pensam que o leite vem do supermercado. ;)

 

 

GM – Sinceramente acho que o grande problema e a mudança de mentalidades se deve muito ao facto de que por estes dias há caches em todo o lado… no meio do lixo inclusive. Quem rege o seu geocaching numa vertente mais natural, fora das zonas urbanas manterá mais facilmente o hábito de praticar CITO do que aqueles que se vão acostumando a ver lixarada no dia-a-dia. E por mim falo. É-me mais frequente arrastar um saco cheio durante meia dúzia de km no meio de uma serra, em que vim pelos trilhos a apanhar alguns plásticos e afins, do que fazer o mesmo quando ando por Lisboa, apesar de haver muitos mais locais onde o depositar e não ter de andar com os sacos horas a fio.

Esta última pergunta, relacionada com o teu envolvimento e dedicação à causa geocachiana, prende-se com uma iniciativa, da GS e depois migrada para o seio do GeoPt, sobre aquilo que acabou por se chamar de “Geocacher da Década”.

Julgo saber que não foi uma iniciativa que te agradasse por aí além, tal como se pode ler em -http://forum.geocaching-pt.net/viewtopic.php?f=2&t=8495&hilit=est%C3%B3rias&start=15#p117956- onde referes que “sinto-me honrado que alguém tenha sugerido o meu nome para os nomeados mas peço a essas pessoas que não me levem a mal por não me sentir especialmente entusiasmado com tal votação, que prefiro ignorar.” por não dares valor a este género de iniciativas (que destaquem desta forma o “indivíduo”).

Não obstante a tua opinião (e passares a bola para o campo do Cortez ;) ), a verdade é que muita gente acha efectivamente que tiveste (e tens) um papel incontornável no desenvolvimento do Geocaching (com “Guê” grande) em Portugal e acabaste naturalmente para ficar no lote dos 10 “finalistas” (ao lado dos GreenShades, rifkindsss, btrodrigues, clcortez, danieloliveira, hulkman, prodrive, eterlusitano e OverdoseNesquik).

Olhando hoje para tuuudoooo isto que escrevi, o que te apraz dizer?  

 MA - Não muito. Sempre fui apologista de que o importante é a Obra e não o obreiro. Até porque, os feitos importantes, os que realmente marcam, são, normalmente, obra de um conjunto de pessoas. Por isso, nessa fase da pessoalização e individualização, não liguei muito. Prefiro receber logs agradáveis nas minhas caches e sentir que elas trouxeram alguma experiência nova a este ou aquele Geocacher do que ser, eu, distinguido por as ter colocado. Distingam as minhas caches com visitas em que apreciem mais o tema e a cache do que os números e com respeito pela manutenção da mesma e esqueçam-me a mim. A não ser que me queriam convidar para uma jantarada, ou um passeio TT, com missões fotográficas pelo meio, etc... isso, sim aprecio. ;)

 

 

GM – Olha, fizeste-me lembrar de mais uma coisa em que foste o impulsionador e que, de certo modo, é um pouco antagónico com esta última resposta e até com a postura da grande maioria (se não com todos) o que participaram no debate na altura. Foste tu o primeiro a sugerir o aparecimento de estatísticas (no @pt.net em 2004) relacionadas com geocaching cá no nosso cantinho. De onde te veio a ideia, e porquê?

Hoje em dia, as estatísticas estão muito conotadas com [estatísticas] = [concorrência e luta pelos “pódios”]… tens esta percepção? Não foi certamente com esta ideia em mente que te lembraste deste assunto.

MA - Essa é fácil de responder. Não, não tinha a competição em mente mas uma coisa que se chama Estatistica Descritiva com o intuito de saber factos e realidades sobre o Geocaching em Portugal. Quantos somos, quantas caches, como se distribuem as caches pelo País, as caches mais visitadas, os geocachers mais activos, etc...

 

Repara que na altura não havia nada que nos dissesse isso, além do site da GroundSpeak e do Buxleys. Se vires o tópico "Stats?" no Geocaching-pt, verás o historial de crescimento da ideia das Stats em Portugal.

 

 

GM – Sim. Foi exatamente aí que fui dar uma olhadela. Como geocacher histórico-curioso que sou mantenho atento a este tipo de coisas, em especial aquelas que o Joaquim Safara vai “desenterrando” com grande habilidade… algures no tempo lembro-me de ler alguma coisa escrita por ele sobre o assunto, provavelmente relacionada com a tua nomeação de que falámos há pouco.

Estamos a chegar ao final deste périplo sobre a tua visão, aventuras e desventuras, neste nosso hobbie mas ainda quero saber mais algumas coisas sobre as tuas colocações, nomeadamente sobre a Just get there! [GC27FGF], em que a minha curiosidade recai, claro, sobre o facto de ser a única que eu conheço com o Atributo “Seasonal Access”. Houve uma altura em que julgava que esse atributo não era possível em Portugal… tens noção de ser assim? Tiveste algum problema com isso, ao submeter a dita para revisão ou o atributo apareceu mais tarde?

MA - O Atributo veio depois. Quando a cache foi colocada, era para estar sempre disponível como esteve nos primeiros anos. Depois, quando lá fui fazer uma manutenção, conheci um dos barqueiros dos passeios no Tejo, que é também o representante ou contacto da Quercus e, ainda, é também Geocacher e ele disse-me que era conveniente a cache ficar desactivada durante vários meses no ano por causa dos ninhos de abutres que precisam de muito sossego - em alternativa, seria melhor remover a cache. Expliquei-lhe que tinha tido essa preocupação ao preparar a colocação da cache mas não tinha encontrado uma posição oficial da Quercus sobre aquele local. De qualquer maneira, ambos achámos que seria melhor começar por desactivar a cache sazonalmente e ver se era suficiente. Entrei em contacto com um dos Revisores e obtive o acordo para a manter desactivada durante oito meses por ano. O atributo veio depois.

 

GM – A outra colocação, a meias com o clcortez… uma das caches realmente míticas portuguesas, colocada a par com a sua irmã, as Na Linha do Douro [GC1BRPH] e La Ruta de Los Túneles - Barca d'Alva [GC1C1W9]. Vocês fizerem este passeio de uma assentada! Tens noção de mais alguém o ter feito como vocês? Alguma vez olhaste com atenção para as vossas duas listings e viste o quão diferentes acabam por ser? A tua, mais concisa e com “gaitinhas” e a dele, com citações de Eça de Queirós e com vários containers. Isto estava pensado? Parecidas mas nem tanto?

 

MA - Foram pensadas assim. Os percursos são diferentes e as caches embora parecidas, porque o tema é o mesmo, não precisavam de ser cópias uma da outra. Na Linha do Douro, era para ter apenas 2 pontos mas a colocação inicial não correu tão bem como esperávamos e então decidimos alterar um pouco a multicache. Fui lá sozinho fazer a manutenção, partindo do Pocinho pelas 18h00 e pernoitando numa das estações abandonadas, numa das mais interessantes aventuras que tive - Está aqui a estória toda dessa manutenção  (inclui link para a reportagem fotográfica). 

Houve muitos grupos que fizeram os dois percursos, Pocinho <-> Barca d'Alva <-> La Fregeneda,  num fim de semana. Inclusive, os "Expedicionários" foram lá algumas vezes. Aqui, a primeira delas (também com reportagem fotográfica).

 

GM – Estamos a entrar na recta final desta nossa belíssima conversa. Mas ainda tenho umas pequenas curiosidades para ver satisfeitas… É impressão minha ou no decorrer da entrevista alteraste o teu nome de utilizador no Geocaching.com?

MA - Mudei mas não teve a ver com a entrevista - espero que não tenha causado transtorno. A mudança que notaste foi o repor do meu nick original. Tinha-o mudado para experimentar o efeito na mudança do código de formatação dos logs.

 

GM – Ahaa, Ok, primeira não dava com o teu username, MAntunes… depois deixei de encontrar o _Mantunes_. Pensei que era para me baralhares.

Depois, há outra “marca MAntunes”, a do “aviador” no topo dos VGs! De onde nasceu esta?

MA - Foto no VG, em posição de "voador" que tenho no meu perfil? Foi tirada nesta caçada, "TT Grande Rio do Sul", na companhia destes companheiros. Quem tirou a foto foi o "Alieri", com a minha máquina fotográfica. Não dava para fazer selfie. ;)

 

GM – Hehe. Era mais difícil! Vamos então encerrar as hostilidades! Para terminar peço-te “apenas” que nos deixes um par de sugestões geocachianas. Um par de caches e/ou passeios que, enchendo-te as medidas, queiras recomendar aos nossos leitores para este Verão.

MA - Sobre o par de sugestões de passeios/caches a recomendar... 

 

Felizmente, apesar de ter 'apenas' <800 caches encontradas, a maior parte foram caches escolhidas a dedo e todas elas me trouxeram experiências únicas e rara, ou quase nenhuma, terá sido... mais uma para os números. Assim, a minha tarefa nesta resposta é mais difícil porque são tantas as memórias que detenho que não consigo decidir-me por 'um par de caches'. Arrisco-me então, a sugerir uma região onde, procurando as caches Natura que lá existem, o retorno em termos de aventura, caminhada, passeio... são garantidos. A zona é o Gerês e, tendo em atenção a questão das autorizações, as zonas interiores do Gerês propiciaram-me passeios inesquecíveis. Caminhadas de várias horas que passem pelas caches mais interiores do Gerês são o máximo para mim. Apenas como exemplo, aponto "Rocalva", "Heart of Darkness", "Aos grupos expedicionários"...

GM – Obrigado mais uma vez Manuel, pela tua simpatia e disponibilidade em partilhares connosco estes teus, já longos, anos dedicados ao Geocaching. Foi uma belíssima viagem! Espero sinceramente que continues a manter as tuas excelentes caches nas condições a que nos tens habituado, e com a dedicação que todos te reconhecemos (até porque ainda me faltam encontrar algumas).

 

Entrevista publicada na GeoMagazine#21.



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