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Quinta da Regaleira, por RuiJSDuarte
16 May 2014 Written by  RuiJSDuarte

Quinta da Regaleira, por RuiJSDuarte

Em pleno Centro Histórico de Sintra (Património Mundial da UNESCO) existe um espaço prenhe de magia, misticismo e mistério que, mesmo numa zona pejada de pontos de interesse, e onde a cada esquina podemos dar de caras com um Palácio lindíssimo, um Jardim exuberante ou outra coisa do género, se consegue destacar dos demais e que constitui um dos mais surpreendentes monumentos locais, a Quinta da Regaleira.

 

A História...

Apesar de não existir muita documentação histórica, anterior à sua compra por parte do Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, é de certa forma possível identificar alguns momentos chave para os destinos da propriedade:

1697 - Os terrenos são comprados por José Leite (data provável de origem da quinta);

1715 - É adquirida em hasta pública por Francisco Alberto Guimarães de Castro (conhecida então por Quinta da Torre ou do Castro), altura em que se canalizou a água da serra para alimentar uma fonte existente;

1800 - É cedida a João António Lopes Fernandes;

1830 - Por esta data já estará na posse de Manual Bernardo e ganha a designação actual, Quinta da Regaleira;

1840 - É vendida a D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida (mais tarde agraciada com o título de Baronesa da Regaleira);

1892 - É adquirida pelo detentor de uma grande fortuna, o Dr. António Augusto Carvalho Monteiro, que a transformará, entre 1904 e 1910, naquilo que é hoje.

 

A Arquitectura...

E em que é que o excelso senhor "Monteiro dos Milhões", nome pelo qual também era conhecido (por motivos óbvios), transformou os terrenos da Quinta da Regaleira!?

Ora bem, aliando a sua imaginação à de Luigi Manini (arquitecto e cenógrafo italiano que projectou também o Palace Hotel do Buçaco, além de outras obras consideradas "menores" quando comparadas com estas duas), criou um fantástico mundo "mito-mágico" com influências das mais variadas correntes artísticas - gótico, manuelino e renascença no qual incluiu diversos elementos relacionados com o esoterismo, com o imaginário mítico e mesmo com a tradição e cultura portuguesas (como a Cruz de Cristo ou os motivos que aludem aos Descobrimentos) repartidos e espalhados pelos diferentes pontos que compõem o todo desta singular obra.

Pensa-se que toda a disposição dos elementos edificados (Palácio, Capela, Fontes, etc.) foi concebida como fazendo parte de um contexto edénico, um Jardim do Éden, opinião para a qual contribui certamente a existência das galerias subterrâneos e do famoso Poço Iniciático com os seus nove patamares (referência, entre outras, ao inferno da Divina Comédia de Dante). Um mundo inferior e outro superior, Inferno e Paraíso.

 

A Quinta e o Turismo - Pontos de Interesse e Interesses de Carvalho Monteiro...

Como já foi dito, o espaço vale como um todo, não basta descrever o que se pode ver, temos de o ir lá "sentir e apreciar". Não obstante, podemos assinalar e explorar um pouco alguns locais e estabelecer a sua relação com a do seu mentor.

Palácio - é o edifício principal e o nome mais comum da Quinta da Regaleira, estando classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2002. Teve a sua deslumbrante decoração a cargo do escultor José da Fonseca.

Está organizado, pelos diferentes pisos a que temos acesso, como um enorme museu, em que cada sala tem uma palavra a dizer durante a visita. Existe uma alternância entre as salas "despidas" em que os elementos da sala são o ponto de interesse e as que têm exposição própria (fotografias, serigrafias, maquetes, planos de construção, etc.) aliada à sala em si.

Em 1997, ano em que a Câmara Municipal de Sintra adquiriu o espaço, iniciou-se um exaustivo trabalho de recuperação de todo o património (edificado e jardins) pelo que iremos encontrar tudo muito bem cuidado mas com alguns espaços fechados. Nesta minha visita não foi possível visitar os curiosos terraços do Palácio, onde podemos encontrar uma série de interessantes e estranhas estátuas e gárgulas… a título de exemplo, um Coelho Vampiro!

Patamar dos Deuses – trata-se de uma “avenida” ao longo do muro da estrada, localizada logo à entrada da Quinta onde estão dispostas estátuas de deuses greco-romanos (nove). Uma inspiração clara na mitologia clássica.

Capela da Santíssima Trindade – Tem uma lindíssima fachada apostada no revivalismo gótico e manuelino e duas representações, uma de cada lado da entrada, de Santa Teresa d'Ávila e Santo António. No interior, além de mais uma série de representações de ordem religiosa (algumas em mosaico e vitral), tem como elementos mais curiosos a representação no chão da Esfera Armilar e da Cruz da Ordem de Cristo, rodeados de pentagramas. Inspirações nas Tradições Portuguesas e na Espiritualidade Cristã.

Bosque - ocupa a maior parte do espaço da Quinta e, como tudo o resto, diz-se que não está disposto ao acaso. Começando mais ordenado e cuidado na parte baixa da quinta, vai se tornando mais selvagem ao dirigirmo-nos para o topo, reflectindo o que seria a crença do seu proprietário no Primitivismo.

Poço Iniciático e Poço Imperfeito - os dois locais mais enigmáticos de todo o conjunto e a grande atracção por constituírem algo de misterioso e invulgar e por suscitarem diversas influências e interpretações. Existem sobre os mesmos referências que se tornam autênticas amálgamas dos mais diversos quadrantes e ideologias. Por exemplo, a rosa-dos-ventos sobre uma cruz templária, representada no fundo do Poço Iniciático, é ao mesmo tempo referência ao emblema heráldico de Carvalho Monteiro, à Ordem Rosa-cruz (organização mística e esotérica) e à já referida Divina Comédia de Dante (é na mesma que aparece pela primeira vez referida a dita Ordem).

Os Poços são galerias subterrâneas, com escadarias em espiral, e que se encontram ligados por túneis, entre si e a outros pontos da quinta (Entrada dos Guardiães, Lago da Cascata, etc.). Acredita-se que eram utilizados para rituais de iniciação à maçonaria (daí o nome de Iniciático no principal e maior).

O Geocaching...

Em meados de 2005 o local ganhou um novo ponto de interesse... uma Geocache que não poderia ter melhor nome e que é, com toda a justiça, uma das caches mais favoritadas do País (Top15). Em percentagem, com os seus quase 70% de votos PM, perde protagonismo para apenas uma mão cheia de outras (excelentes) caches (nesta tabela, a das mais favoritadas).

A (GCN3EY) Quinta da Regaleira (Poço de Mistério) é uma cache num local de eleição, que proporciona uma aventura à medida de toda a família e que deixa muito tempo livre para se explorar o resto do espaço...

 

A visita…

Se possível, leiam um pouco sobre o local antes de o visitar... Um dos grandes gozos que retiro ao investigar para estes pequenos artigos é conhecer um pouco melhor a sua História e as suas Estórias... e ambas são riquíssimas aqui!

Sugiro que o passeio seja feito logo pela manhã, pela abertura das portas (10:00), para que possamos desfrutar da calma, dos locais ainda desertos, e, deste modo, potenciar a nossa experiencia.  É algo extraordinário percorrer as galerias subterrâneas sem outro som que o dos pingos que caem à nossa volta… o mesmo se aplica ao podermos percorrer o bosque, sem outra distracção que a causada pela aves canoras (e o ocasional carro lá em baixo, na estrada).

Deixem os Edifícios (Palácio e Capela) para o fim, iniciando o passeio pelo lado oposto, percorrendo o Patamar dos Deuses até ao final e subindo progressivamente até ao topo por essa zona, fazendo depois o trajecto contrário até ao Palácio.

É visita para uma manhã, nas calmas, das 10:00 às 12:30, seguida de uma pausa no café local, para apreciar as fotos.

 

O desejo de viver rodeado pelos símbolos dos seus interesses e ideologias fez com que Carvalho Monteiro construísse aqui um espaço magnífico, que beneficia do microclima da Serra de Sintra e dos seus constantes nevoeiros que lhe emprestam uma áurea de (ainda mais) mistério. Um bem-haja para o Senhor e para aqueles que um dia decidiram que a sua obra estaria desta forma disponível para os demais!

Muito obrigado!

 

In GeoMAGAZINE, Edição #6



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