A minha última aventura foi ser “bicigrino” nos caminhos Portugueses de Santiago. Comecei no Porto e fiz cerca de 260 Km até Santiago de Compostela em 4 dias. Bicigrino é a identificação que se dá a um peregrino que faz os caminhos de bicicleta.
Claro que como geocacher ao preparar a viagem, tive o cuidado de colocar algumas caches no GPS que se encontravam no caminho. Coloquei só caches tradicionais, porque sabia à partida que não teria muito tempo para fazer multis ou letterboxes e mesmo assim não tive tempo para fazer muitas, ou porque ao passar pelas caches não queria parar e fazer parar os meus companheiros de viagem, porque isso fazia-nos perder o ritmo e para quem tem que pedalar cerca de 60 Km por dia em montes e vales e com carga extra nos alforges, não é fácil de retomar o ritmo. Ou então porque as caches estavam, um pouco desviadas do caminho e até a falta de pilhas a dada altura me fez passar por algumas sem saber.
No entanto de todas as que fiz gostei e recomendo. Uma ou outra pelo container, mas as restantes sobretudo pelos locais magníficos onde se encontram. Basta ver que o caminho atravessa duas regiões lindíssimas. O nosso Minho verdejante e com todas aquelas Igrejas, capelas e cruzeiros centenários e a Galiza com os seus canastros tão tradicionais e bosque de uma beleza incrível.



A primeira cache que encontrei, foi a Portas da Maia (GC1WM7D ) do team emlino, uma cache de que gostei sobretudo pela historia daquela infraestrutura que nos aparece do nada e que para além de ser uma porta não sabendo a historia da mesma não se dá nada por aquilo.


Para encontrar a próxima cache percorri alguns quilómetros, passando por algumas incluindo as de São Pedro de Rates, normalmente onde ficam na primeira noite os peregrinos que iniciam o caminho a pé a partir do Porto. Nesta localidade para além do albergue, existe um Powertrail com varias caches.
A terceira cache encontrei-a já perto de Barcelos, numa altura em que parámos para retemperamos forças e abastecer o depósito com umas guloseimas para nos dar energia. A cache foi a Capela de Santa Cruz das Coutadas (GC33FTM) do team rafapata+patafurdio. Como o próprio nome da cache indica, esta mostra-nos uma pequena capela com uma história curiosa do aparecimento de uma cruz no solo.

Ao entrar em Barcelos sabia da existência de uma serie de multis e mistérios, mas como não tinha nenhuma no GPS e tínhamos parado há pouco tempo, não quis procurar a única tradicional que tinha no GPS. Só paramos para umas fotos e continuamos caminho logo de seguida. No entanto acredito que as caches ali existentes sejam de qualidade, pelas tradições, património e pela lindíssima cidade que é Barcelos.

Acabei o dia em Tamel no albergue dos peregrinos e com uma cache relacionada com o mesmo Albergue de Peregrinos Casa da Recoleta (GC27BEF) do team TEOTONIO + ELSA+HELDER. Mais uma cache num local muito bonito e com uma envolvência paisagística tipicamente Minhota. Cache com muitos logs estrangeiros pelo facto de estar ao lado do albergue e os caminhos serem percorridos maioritariamente por eles. Por incrível que pareça nos 260 km, dos vários peregrinos que encontramos e que respeitosamente nos cumprimentamos e desejamos “Bueno camiño”, só 4 eram Portugueses.
Deixem-me que vos diga, este foi o melhor albergue onde pernoitei em todo o caminho. Tem umas condições espetaculares que mais parece um hotel.

No segundo dia as coisas começaram mal logo pela manhã. A Ana (Namorada do meu Filho Ricardo, companheiros de viagem) começou a ressentir-se com dores nas pernas dos 63km do dia anterior e para piorar o Ricardo tinha criado uma bolha infetada nas virilhas que o impediam de se sentar no slim da bicicleta. Os ânimos estavam tão em baixo que se começou a falar em desistir, a progressão era penosa para eles e lenta para todos, tão lenta que os peregrinos a pé conseguiam-nos acompanhar, até um Irlandês maluco, que começou em Lisboa e já caminhava há 45 dias, passou por nós e desapareceu. Mas como se diz na comunidade dos peregrinos dos caminhos de Santiago – “Quando estás em baixo o caminho dá-te sempre alguma coisa para teres força e continuar” – e assim aconteceu. Ao chegarmos a Labruja encontramos um rio de águas translucidas que com o calor que estava não hesitamos e fomos a banhos. Este banho para nós foi a oferta que o caminho nos deu. Ganhámos vida, força e ânimo para continuar. Sentíamos o mundo aos nossos pés (eu pessoalmente, só senti os pedais da bicicleta).

A seguir veio a tão temida subida da Labruja, com um desnível brutal que só a entreajuda nos fez vencer tal dificuldade. Exaustos, chegámos a Ponte de Lima e o cansaço era tanto que nem me apeteceu ir procurar caches enquanto fazíamos uma pausa para comer. No entanto fiquei com pena de não fazer pelo menos a A PRINCESA DO LIMA (GC1C6VM) do team eterlusitano.


Com isto tudo passamos Rubiães onde se encontra outro albergue e a tentação foi grande de ali ficarmos, mas tínhamos que continuar até Valença para atingir o nosso objetivo do dia. Foram os 20 kms mais penosos do caminho.
Com um dia tão cheio de paradoxos, emoções e dificuldades, acabei por não procurar nenhuma cache neste dia, no entanto foi um dos melhores dias que passei no caminho. As paisagens brutais e o sentimento de ter conseguido ultrapassar as dificuldades, a cumplicidade do grupo, encheram-me a alma, mesmo sem ter feito umas caixinhas.
O terceiro dia, foi o dia de entrar na Galiza. Na Galiza não há tanta intensidade de caches como do lado Português. Os Galegos ainda não descobriram o prazer do geocaching. Por isso não tinha muitas pelo caminho e tentei ainda assim fazer algumas. A única que fiz neste dia foi já no fim, em Pontevedra, mesmo ao lado do albergue. Uma cache desinteressante PONTEVEDRA con el MEGA 2013 LA PINEDA do team almaran, acredito que tenha sido ali colocada só mesmo por causa de um evento.


No último dia, estávamos todos entusiasmados. Se tínhamos chegado até ali, não era agora sessenta e tal quilómetros que nos iam fazer desistir.
Em Pontevedra existem uma serie de caches maioritariamente urbanas e que acredito serem de qualidade dado que a cidade é muito bonita e tem um património riquíssimo. Mas como o albergue estava afastado do centro da cidade quando iniciamos a última etapa não tive coragem de pedir aos meus companheiros logo pela manhã para esperarem que eu procurasse por ali umas caches e assim com muita pena minha deixei por fazer todas aquelas caches.
No entanto e até Santiago, ainda consegui fazer mais uma, perto de Caldas de Reis, IMOS LAVAR? FONTE DE TIVO do team bajamundos (agora para meter um bocadinho de veneno) a cache encontra-se perto de um cruzeiro e de um fontanário muito engraçados, com uma dica curiosa “en el muro”.

A chegada a Santiago de Compostela, foi uma emoção enorme, o sentimento de conquista, da superação das dificuldades, o descarregar da adrenalina depois de uma aventura tão intensa, faz com que as emoções fiquem ao rubro. Quis que este momento também ficasse eternamente gravado na minha parte geocachiana e depois de arranjarmos um albergue para pernoitar, de uma bela jantarada para comemorar, fui à procura de umas caches com a Ana, o Ricardo e o Carlos (Pai da Ana e o outro companheiro de viagem).
Como o cansaço era muito acabei por encontrar apenas duas caches para a imortalização do momento. A Broma picheleira e algo mais do team O Golpe, uma cache com um container engraçado e inserido no meio envolvente de uma forma brutal. Foi a melhor que fiz e para ter um smile na praça emblemática de Obradoiro, fiz uma earthcache Catedral de Santiago do team almaran, uma cache que nos faz observar as partes mais importantes da praça e respetiva catedral. Assim acabei a minha peregrinação com uma cache que para mim já mais a esquecerei.
