Olá a todos(as) os(as) colegas geocachers.
Desde Marinha das Ondas (Figueira da Foz) escreve-vos o colega Tiago Lino aka Arkeosublino, Arqueólogo Subaquático e Terrestre, e geocacher.
Não podia ter ficado mais contente ao receber o convite da GeoMagazine para escrever algumas linhas sobre Arqueologia e Geocaching.
Aliar formação, profissão, paixão e ocupação é ou não é motivo mais que suficiente para me sentir feliz? Pois bem, o desfio a que aqui me proponho é tentar em apenas algumas linhas partilhar convosco breves noções sobre o que é então a Arqueologia, para que serve, como se faz, e de que maneira o Geocaching se pode tão frequentemente cruzar com os caminhos da Arqueologia.

Bem, primeiro que tudo parece-me pertinente esmiuçar o que é então essa “coisa” da Arqueologia. Segundo Gordon Childe (1892-1957), filósofo e arqueólogo australiano que muito me tem inspirado, a Arqueologia é uma forma de história e não uma simples disciplina auxiliar. Os dados arqueológicos são documentos históricos por direito próprio e não meras abonações de textos escritos. Exactamente como qualquer outro historiador, um arqueólogo estuda e procura reconstituir o processo pelo qual se criou o mundo em que vivemos e a forma como as sociedades evoluíram – e nós próprios, na medida em que somos criaturas do nosso tempo e do nosso ambiente social. Os dados arqueológicos são constituídos por todas as alterações no mundo material resultantes da acção humana, ou melhor, são os restos materiais da conduta humana. O seu conjunto constitui os chamados testemunhos arqueológicos. Estes apresentam particularidades e limitações cujas consequências se revelam no contraste bem visível entre a história arqueológica e a outra forma de história, baseada em documentos escritos.

Nem toda a conduta humana se conserva registada materialmente. As palavras que dirigimos a alguém que as ouve, enquanto ondas sonoras, são sem dúvida alguma, alterações que o homem realiza no mundo material e que podem ter grande significado histórico. No entanto, não deixam qualquer indicação arqueológica, a menos que fiquem memorizadas num gravador ou registadas por um dactilógrafo. Um outro exemplo que podemos aqui referir para nos ajudar a compreender é um movimento de tropas num campo de batalha; pode “mudar o curso da história”, mas sob o ponto de vista arqueológico, também é efémero. Além disso, o que talvez agrave a situação, a maior parte dos restos materiais orgânicos são perecíveis. Tudo o que é feito de madeira, couro, lã, linho, vegetais, cabelo ou materiais semelhantes, quase todos os alimentos animais e vegetais, se decompõem, desaparecendo em apenas alguns anos ou séculos, a não ser em condições muito excepcionais. Num espaço de tempo relativamente curto, os vestígios arqueológicos reduzem-se a meros pedaços de pedra, osso, vidro, metal cerâmica, vasos vazios, vidraças partidas sem caixilho, machados sem cabo, buracos de poste sem poste.
Importa ainda partilhar que podemos facilmente encontrar objectos antigos à superfície de um terreno, no decurso de uma lavra ou da abertura de uma vala. Esses objectos só potencialmente é que são dados arqueológicos; mas em compensação, a sua localização é um dado arqueológico, embora não seja um monumento. Os vestígios e monumentos só se transformam em dados quando se ajustam a tipos já classificados, à luz dos conjuntos em cujo contexto foram encontrados.

Assim sendo, a informação histórica só pode ser conseguida com exemplares encontrados, juntamente com outros, em estações. Estas são de natureza muito variada – habitações, túmulos, fontes, minas, santuários, poços, etc.
Huauuuu, então temos muitas, muitas geocaches na maioria das estações arqueológicas portuguesas já identificadas? Certíssimo. E é precisamente aqui, que como arqueólogo me apaixono pela extraordinária importância que, mesmo inconscientemente para alguns, o Geocaching tem contribuído para a divulgação do nosso património. Eu próprio já conheci inúmeras estações arqueológicas através do Geocaching. É ou não é fascinante? Para mim é mais do que isso. Actualmente vejo o Geocaching não apenas como uma mera brincadeira de pequenos e crescidos que jogam à caça ao tesouro; vejo o Geocaching como uma ferramenta brutal na identificação, divulgação e até preservação das nossas estações arqueológicas, em suma, do nosso património, da nossa história.

Ahhhhhhhhhh e sabem uma coisa? Aposto que vão ficar surpreendidos: aquelas fábricas em ruínas que adoramos explorar, as tais URBEX onde muitas vezes encontramos uma geocache LetterBox, também são alvo do estudo da Arqueologia, pois uma das especialidades é precisamente Arqueologia Industrial, UAUUUUUU.
E a cereja no topo do bolo, puxando a brasa à minha sardinha, são os naufrágios que o nosso mar encerra com as suas histórias, barcos, canhões, verdadeiros tesouros. Aqui o Geocaching português ainda não progrediu muito mas acredito que lá chegaremos, pois a nossa veia de exploradores dos mares não foi apenas coisa da época dos Descobrimentos.
Parece-me que este retrato já nos permite aproximar-nos do trabalho de um arqueólogo, da realidade arqueológica e da complexidade da abordagem desta ciência.
Podemos então afirmar que a Arqueologia e o Geocaching são um casamento perfeito.

Da próxima vez que procurarem uma cache nas imediações de um sítio arqueológico, aproveitem a oportunidade e vejam com um novo olhar os pequenos pedaços de história que o tempo se encarregou de preservar. Representam um legado de valor inestimável, e com certeza uma enorme mais-valia para as nossas saídas de campo de Geocaching!