24 de Abril de 2013 é uma data que ficará gravada na memória coletiva de uma equipa extraordinária, por muitos e bons anos. Organizar uma missão solidária para apoiar o povo Guineense parecia à partida um objetivo desmedido e difícil de concretizar, mas a vontade falou mais alto do que qualquer fator limitativo. Aos comandos da caravana alguns geocachers ocasionais, mas também dois nomes bem conhecidos da comunidade Leiriense: o marinhense Flávio Cruz [Pulga], e o portomosense Olharapo, owner das míticas “Tremelgo das Alturas” e “Porta da Traição”.
É nas próprias palavras deste singular aventureiro que nos chega o relato destes 4800km, descritos na primeira pessoa, por Paulo Sousa.
A ideia surgiu após várias incursões até Marrocos. Ir mais a Sul obrigava a um número de dias incomportável e por isso a coisa demorou a tomar forma. A ida em carros velhos que lá ficariam, regressando os condutores de avião acabou por ser a solução. O projeto assumiu a forma de missão humanitária quando decidimos que os carros seriam oferecidos a instituições que se dedicassem a apoiar desinteressadamente os guineenses mais necessitados. Surgiu então o contacto com a Fundação João XXIII de Mafra. O relato do Sr. Francisco Filipe de uma viagem recente de ida e volta por terra à Guiné foi precioso para a nossa preparação logística. Já no destino foi o Sr. Celestino, que reside em Bissau e que representa a Fundação na Guiné, que nos apoiou a ajudou a contornar as complicações decorrentes do estado em que o país se encontra. Importa salientar que a Fundação João XXIII está na Guiné há 20 anos e o trabalho que lá faz é fantástico.

Ao todo fizemos 4800 km e demoramos 8 dias a chegar à fronteira de Pirada. Os carros tiveram um desempenho notável, sendo que todos tinham mais de 15 anos. O mais antigo era um Datsun de 1982 com 4 mudanças... Apenas foram precisas algumas pequenas afinações feitas pelo nosso mecânico e nem um furo registámos, o que é incrível lembrando as centenas de buracos com que nos deparamos pelo caminho.
Os membros da caravana foram recrutados informalmente. Amigos da vida inteira, amigos de outras viagens, amigos de amigos... O grupo no Facebook foi um suporte pensado à última hora e ao longo da viagem fomos surpreendidos por centenas de seguidores que dias após dia acompanharam a nossa aventura. No total foram perto de 800 apoiantes... Sempre que tínhamos net e carregávamos uma foto, choviam likes e comentários.
A partida foi um momento marcante. Contactamos com o Centro Paroquial de Assistência do Juncal e com a Escola Primária, no sentido de pedir um brinquedo a cada criança para doar os meninos da Guiné. A partida oficial acabou por ser feita às 9:00 do dia 24 de Abril, à frente da Escola Primária do Juncal, antes das aulas começarem, rodeados por dezenas de crianças.
Todos os dias foram vividos com muita intensidade e grande camaradagem entre os participantes, sendo que alguns nem se conheciam. Uma parte significativa da viagem foi feita entre o Atlântico e o deserto. Junto ao monumento que assinala o Cabo Bojador foi dito o mais conhecido poema de Fernando Pessoa, Mar Portuguez, de onde retiro um excerto.
“Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor”
No sul da Mauritânia a paisagem muda e o Sahel começa. Os embondeiros começam a aparecer e pouco a pouco o verde começa a invadir a paisagem. No interior do Senegal encontramos estradas com muitos buracos e antes da entrada na Guiné o alcatrão desapareceu totalmente. Só o voltamos a pisar em Gabu, antiga Nova Lamego. Depois de tanta francofonia, fomos recebidos na fronteira com um 'Bem Vindos à Guiné'. Fotografamos o marco de fronteira com as inscrições RP e RF que separavam as colónias portuguesa e francesa.
Desde o primeiro momento que nos deparamos com um país em grandes dificuldades. Após o golpe de estado de Abril passado deixaram de ser pagas as remunerações a todos os funcionários públicos, polícias, professores, médicos, etc. A electricidade aparece apenas algumas horas por dia. É frequente o hospital central estar às escuras, assim como as ruas do centro de Bissau. Neste momento o país é claramente um estado falhado. Não fosse a simplicidade e solidariedade do seu povo, que divide o pouco que tem com o vizinho se ele precisar, e a situação seria bem pior.
Em contraposição encontramos uma natureza generosa e abundante que impede que a fome se propague.
No meio de tanta falta de organização, foi incrível notar a importância do papel das missões religiosas no país. Todos concordamos que são eles que seguram ‘as pontas’ e sem eles seria o caos. Visitamos as instalações de uma congregação franciscana no centro de Bissau que toma conta de mais de 300 crianças em condições totalmente europeias. Conhecemos o Prof. Raul que fundou e gere a Cooperativa de Ensino de São José que tem mais de 4000 alunos desde o ensino básico até ao 12º ano. Visitamos também o Centro Social de Ondame gerido pela Fundação João XXIII e que graças a um intenso trabalho de voluntariado, a que chamam férias solidárias, construíram ao longo de 20 anos, e a mais de trinta km do alcatrão mais próximo, um dos melhores centros hospitalares do país, sendo ainda assim bastante modesto. Tudo financiado por donativos portugueses.
Todos os sete carros da caravana foram entregues a estas e outras instituições que prestam ajuda aos mais necessitados e foi até comovente ver a reação de agradecimento de quem os recebeu.
Num dos dias em Bissau, e acompanhados pelo adido militar da Embaixada Portuguesa, visitamos também o talhão dos combatentes no cemitério de Bissau. Ali homenageamos os combatentes portugueses. Tivemos ainda a oportunidade de ir ao antigo quartel do Pelundo, onde um dos elementos da caravana serviu há 40 anos. Foi por isso também uma viagem às memórias.
Com quatro ou cinco geocachers no grupo, alguns pouco activos, a possibilidade de fazer umas caches pelo caminho foi assunto. No entanto os dias eram preenchidos com muitas horas consecutivas de condução. As paragens eram mínimas e rápidas. Num dos dias levantamo-nos as 4:00 da manhã e ainda era de noite quando nos fizemos à estrada... Locais visitados merecedores de caches foram muitos e destaco o Cabo Bojador, a passagem pelo trópico de câncer ou o imenso poilão (arvore) no centro do antigo quartel do Pelundo. Já estava ali a ver uma cache geminada com a do Tremelgo, mas mais alta e rodeadas por colónias de abelhas...
Regressamos apaixonados pela simplicidade e pelo calor dos guineenses que apesar da difícil situação que vivem recebem os portugueses com um sorriso rasgado e de braços abertos.
Um forte abraço.
Paulo Sousa
Créditos fotográficos: Paulo Sousa e Nuno Rebocho
GeoMagazine, Edição #3