Há umas semanas houve um certo alvoroço na chamada “comunidade portuguesa de Geocaching”. A razão? Terem aparecido fezes, ordinariamente conhecidas como “merda”, no interior de uma cache. Na ocasião, quem atentasse nas vozes, seria levado a pensar, entre outras, duas coisas: que era acto inédito e que se tratava de um ajuste de contas muito pessoal, entre membros da dita comunidade. Ora, inédito, certamente não era. E quanto á segunda possibilidade, sinceramente, tenho bastantes dúvidas. Com mais facilidade um “muggle” javardo pespega com uma destas do que um bem asseado geocacher, mesmo aqueles de mente conspurcada, que os há. Mas adiante, o que eu queria mesmo era retirar uma certa nota conspiracionista a estes inconvenientes episódios, porque o que tenho hoje para contar está comprovadamente despido de qualquer factor comum. Trata-se isso sim, do mais porco dos elementos aleatórios. Senão vejamos…
A cena passa-se durante a minha visita de Maio de 2012 a Praga. Como alguns saberão, Praga é a minha segunda cidade, capital de uma Pátria adoptiva a que tantgo quero. E portanto não sertá de estranhar que por lá me desloque com bastante à vontade, conhecendo bem a rede de transportes públicos e procurando caches em cantos rebuscados da urbe. Ora neste dia, não particularmente bonito, nem particularmente frio, nem particularmente nada, em suma, completamente banal, sai eu para uma pequena caçada que implicava quatro ou cinco caches. A primeira, era um ajuste de contas. No ano anterior tinha lá estado e não tinha encontrado nada. Agora, o contentor está de volta, num novo local, ligeiramente afastado da posição original. Trata-se de um local sem nada de especial, à beira de uma via rápida e de uma ponte que a atravessa. Desta vez encontro-a e em poucos segundos. Aquele sorriso de vitória que todos conhecemos desenha-se-me nos lábios. “Estás ai…”. É um ovo de plástico, alojado numa reentrância de uma árvore. Apanho-o, desco-o à altura do peito e é nesse ponto que o abro… uma surpresa que dura milésimos de segundo… a caixinha estava cheia de líquido, que desaba sobre o meu corpo e pernas, apenas ressalvadas por um instintivo desviar. Água… talvez tivesse ficado mal fechado e a chuva tivesse feito das suas..? Errr. não. O cheiro é ligeiro mas não deixa enganar. Acabei de ser brindado com um duche de urina. Pronto, fecho o ovo, deixo no local onde o encontrei, dou o “found” como “found” e afasto-me a matutar na minha má sorte.
A cache seguinte não fica nas imediações. Vejo o autocarro certo passar por mim, levanto os olhos, vejo uma paragem a uma centena de metros e corro. Entro ofegante. Passados alguns minutos apeio-me e reinicio a caminhada que me levará ao próximo “found”. Esta cache é dedicada a um pequeno clube de futebol e está colocada no muro que demarca o seu campo desportivo. Encontro-a sem qualquer dificuldade. Está escondida atrás de um painel publicitário e é de tamanho regular. Abro a caixa e, maravilha… cheia de bosta, felizmente já algo seca, pelo que o cheiro é suportável. Abro-a e fecho-a mais depressa do que o diabo pisca os olhos. Tive sorte dentro do azar. Não me caiu em cima nem me conspurcou para além da memória visual que ficou.
Portanto, se um dia encontrarem fezes numa cache, dêem-se como felizes. Isso não será nada, em comparação com este espectacular um, dois. Ou dois em um. Duche de urina, caixinha de merda, no espaço de meia-hora, separados por 3 ou 4 km.
Fonte
Artigo do blog Papacaches. Mais textos em http://papacaches.wordpress.com