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Aventura - Caça ao tesouro do Geocaching
24 January 2012 Written by  TempoLivre

Aventura - Caça ao tesouro do Geocaching

Caça ao tesouro do Geocaching

Um Indiana Jones dos tempos modernos à procura de pequenos tesouros escondidos pelo mundo fora.

 
 

É mais ou menos isto que é um geocacher, ou seja, alguém que pratica a atividade de lazer conhecida por geocaching, um jogo criado em Maio de 2000 pelo norte-americano Dave Ulmer e que tem conquistado milhares de fãs em todo o mundo. Portugal não é exceção. O geocaching não é nada mais do que um upgrade dos jogos de caça ao tesouro da nossa infância, em que com uma bússola e um mapa partíamos com os amigos à descoberta de um tesouro que os nossos pais tinham escondido, normalmente uma caixa com brinquedos ou doces. A caça ao tesouro, que parecia em desuso, continua a existir e agora numa versão hi-tech para miúdos e graúdos.

 

Descobertas

É com a ajuda de um GPS que se joga ao geocaching. No site da Groundspeak (www.geocaching.com) onde qualquer pessoa se pode registar, estão registadas mais de um milhão e quinhentas mil caches e em Portugal existem mais de oito mil. No mundo inteiro existem cinco milhões de geocachers, doze mil só no nosso país. O site fornece uma lista de caches, que basicamente são caixinhas ou tupperwares, com as respetivas coordenadas para introduzir no GPS e tentar a sua sorte à procura desse pequeno tesouro. O que encontra lá dentro? Um logbook para efetuar o registo e, se a cache tiver uma boa dimensão, alguns brindes ou souvenirs para troca. Ao mesmo tempo que procura esses tesouros, descobrem-se novos monumentos, locais e um pouco da história. "Nasci e cresci em Lisboa, mas quando comecei a fazer geocaching, há quatro anos, descobri algumas esplanadas, praças e pormenores da cidade que nunca tinha visto", recorda António Valente, de 58 anos, conhecido no mundo do geocaching por Wolfraider.

Hermínio Veiga, de 51 anos, tem uma opinião semelhante. Este oficial da Marinha, conhecido por SawCastro, sempre foi um apaixonado pela Serra da Arrábida, mas após o geocaching redescobriu os encantos escondidos deste património natural. "Desde pequeno convivi de perto com esta Serra, mas nunca como desde que iniciei a prática do Geocaching a conheci tanto e tão intimamente. Vistas maravilhosas, grutas esquecidas, caminhos quase impenetráveis, rochedos majestosos, escarpas desafiadoras, praias fantásticas e muito mais", conta à Tempo Livre. Há tesouros escondidos que põem a resistência física do geocacher à prova, fazendo-os sentir estarem a viver as aventuras do filme "Os Salteadores da Arca Perdida", como a cache "SaltaDouro", no Gerês, que exige descidas de rappel, canyoning e escalada perto de cascatas, num percurso que pode durar mais de cinco horas. António Valente passou pela experiência e considera-a a cache "mais difícil" que já fez.

Arte e engenho

Porém, nem todas as caches obrigam a este esforço. As citadinas, por exemplo, exigem arte, engenho e, sobretudo, discrição ao estilo do "Inspetor Gadget". O importante é evitar chamar a atenção dos muggles, as pessoas não praticantes desta atividade. Na zona da Grande Lisboa existem centenas de caches escondidas, algumas em locais onde todos os dias passam milhares de pessoas que nem desconfiam que ali se esconde um pequeno tesouro, como no Miradouro de São Pedro de Alcântara, na Praça Luís de Camões ou no Panteão Nacional. Matthias e Simone Lange, que usam o nickname Rote Teufel, estiveram recentemente em Lisboa de férias e durante quatro dias aproveitaram para descobrir 30 caches. Este casal alemão pensa que foi uma boa forma de conhecer a capital portuguesa. "Essa é a razão pela qual fazemos geocaching. Conhecermos locais novos, mas não da maneira como faria um turista. Vemos com os mesmos olhos de um nativo e, graças a isso, conseguimos ver muito mais do que um simples turista".

O casal elege "Passeio à beira Tejo", no Parque das Nações, a sua cache preferida. Matthias e Simone revelam à Tempo Livre que já visitaram "27 países por causa do geocaching" e que têm feito imensas amizades. Também António Valente, que esteve de férias este verão na Dinamarca, não resistiu a alimentar o "vício" com um grupo de amigos. "Fizemos 24 horas de geocaching sem parar e descobrimos 255 caches, um recorde nacional", conta este professor de educação física, que soma 5908 caches, algumas delas feitas com os seus alunos, valendo-lhe o quarto lugar do ranking. "É um passatempo, mas às tantas começamos a trabalhar para os números e dá gosto ser o primeiro a abrir o logbook e escrever FTF (First to Find)". O geocacher Prodrive é o líder nacional, com cerca de 7000 caches encontradas. Por outro lado, quem detém mais caches escondidas, conhecidos como Owners (proprietários), é o Eterlusitano, com 268.

Hermínio Veiga está na oitava posição do ranking e diz que não sofre da "febre" de ser o primeiro a fazer FTF, mas que já cometeu algumas loucuras nesse sentido, como "sair às duas da manhã de casa porque foram publicadas duas caches na Mata da Machada e ir para o meio do mato de lanterna à procura delas ou acordar às cinco da manhã para ser o primeiro a chegar a uma cache publicada na Arrábida na noite anterior". A corrida para ser o primeiro é incentivada pelo próprio filho, mas o resto da família partilha o gosto pelo geocaching. SawCastro é muitas vezes acompanhado pela mulher quando vai à "caça", mas não é o único que gosta de fazer em família.

Todas as idades...

Nuno_Ka, Tigre_das_Arábias e Lufi69 são outros exemplos e partilham a visão que esta é uma atividade para qualquer idade. Dependendo do grau de exigência, Luís Semião (Lufi69) gosta de contar com o filho de 10 anos, considerando-o "um excelente compincha para encontrar tupperwares". O geocaching também serve de desculpa para ir passar alguns dias fora. "Já aproveitei as instalações da Inatel do Luso e de Cerveira para passar miniférias, incluindo no roteiro o geocaching", acrescenta. Já Ricardo Manuelito (Tigre_das_Arábias) parte à aventura com a mulher, os três filhos e até "um batedor de quatro patas" que chama amigavelmente de Geocão. "O geocaching tem o cuidado de identificar as caches aconselhadas a crianças e as que não são, logo podemos planear sempre as nossas viagens a pensar em todos". Este vigilante, de 32 anos, sente que as relações familiares se fortalecem com esta atividade, por aliviar o stress dos adultos e retirar os mais pequenos do mundo "virtual" das consolas.

Nem um bebé recém-nascido está impedido de fazer geocaching. Nuno Almeida, conhecido por Nuno Ka, foi pai de Lourenço há cerca de ano e meio e com apenas três dias de vida o pequeno KAzito, como "batizou" o pai, já estava a registar a primeira cache à porta do Hospital São Francisco Xavier. Na verdade, o geocaching começou ainda na barriga da mãe, que na véspera do parto andava com o marido à procura de caches. "Estava em Belas quando senti contrações. No dia seguinte entrei no hospital e o bebé nasceu", recorda Ana Almeida, de 32 anos, que até já teve a ideia de criar o evento GeoBaby para juntar "os muitos geocachers que levam os filhos". Desde então KAzito já acompanhou os pais em mais de duas mil caches. "Há quem faça isto pelos números, eu faço pelo convívio da família. Antes de conhecermos o geocaching ficávamos em casa a ver filmes, a partir do momento em que começámos a fazer nunca mais ficámos em casa", diz Nuno Almeida, de 34 anos, que mesmo assim ocupa o 16o lugar na hierarquia nacional com cerca de 4200 caches. Como resume Hermínio Veiga, há "geocachers desde o colo da mãe até ao avô com o neto às cavalitas e todos se divertem".

Glossário

  • Cache - Caixa ou tupperware escondido
  • DNF - Did Not Find. Acrónimo usado quando um geocacher não encontra a cache escondida
  • FTF - First to Find. Acrónimo utilizado pelo geocacher no logbook físico e virtual de uma cache, para assinalar o facto de ser o primeiro a descobrir
  • Geocoins / Travel Bugs (Trackables) - Items colecionáveis adquiridos no site www.geocaching.com que se deixam nas caches para troca; o seu percurso pode ser registado e acompanhado online
  • Ground Zero (GZ) - O ponto onde o nosso GPS indica que chegámos às coordenadas da cache
  • Logbook - Bloco de papel obrigatório na cache para o geocacher registar fisicamente a sua visita
  • Muggle - Não geocacher. Baseado na expressão "Muggle" dos filmes de Harry Potter que designa um não mágico
  • Spoiler - Informação em texto ou fotografia que pode revelar a localização exacta de uma cache, "estragando" assim o prazer de a descobrir
  • TFTC - Thanks For The Cache. Acrónimo usado pelos geocachers no logbook físico e online para agradecerem mais uma cache descoberta com sucesso

HMC (texto) HMC e D.R. (fotos)

Fonte: TempoLivre Nº 233 Janeiro 2012



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