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Momentos: A Tribo do Fogo
27 September 2017 Written by  Ricardo Ribeiro

Momentos: A Tribo do Fogo

Era mais uma noite de fireshow, um evento que se repete de duas em duas semanas, sempre às Quartas-feiras, entre a Primavera e a chegada do Outono. Nesses serões que se iniciam por volta da hora do pôr-do-sol, um grupo de jovens reúne-se, sempre em locais públicos mas relativamente remotos, e, quem o sabe, brinca com as chamas. Há coreografias e malabarismos, cuspidores de fogo e correntes a arder. Para marcar o ritmo, os tambores e batuques, incessantes, com a batida arrancada por tocadores que se vão revezando.

Os cenários dos eventos vão rodando, e naquela noite sabia que não podia perder a festa. A cena ia-se passar em Baba – um bairro funcionalista dos anos 30 – no morro lateral, onde de uma ruina se diz ter sido o ninho de amor secreto de um rei, e de onde se podem usufruir vistas magníficas sobre uma Praga que não é a que chega aos conhecimento dos turistas.

No autocarro identifiquei com facilidade outros convivas. Alguns transportavam as ferramentas do ofício, estopa e combustível, tochas e batuques. Outros, só pelo aspecto, vanguardista, com o penteado rasta, muito popular por aqui. Da última paragem até ao morro ainda é uma boa caminhada, agradável, sempre pelo meio das ruas que são um paraíso para os interessados em arquitectura funcionalista, por vezes com a falésia que dá para o rio  a fazer-nos companhia. E às tantas, começa-se a ouvir o rumor dos instrumentos de percussão.

Ainda há demasiada luz para que os círculos de fogo tenham impacto, mas algumas silhuetas já ensaiam os movimentos com que mais para a frente encantarão a pequena multidão. Sento-me para ali, no meio, rodeado de faces felizes. Tiro uma das várias cervejas que levo na mochila e olho em redor. Estou mesmo junto às paredes da ruina, e é ali o coração do ajuntamento. Mais longe, pelo relvado silvestre, sentam-se pessoas, aguardando, conversando. Passam gentes locais, que vêm trazer os seus animais à rua, sem estranhar o bizarro em que se tornou o cenário da sua passeata diária.

Chega a escuridão. Apesar de se estar em Maio, a noite arrefece e sabe-me bem receber as ondas de calor que emanam dos objectos em chamas. A tempos, um cuspidor de fogo expele uma enorme explosão de calor que me embala. Naquele dia fui sozinho. Jovens mulheres em transe bamboleiam os seus corpos envoltos em aneis de fogo. À margem os aprendizes tentam os seus primeiros movimentos, devagar, inseguros. Disfruto em silêncio das incriveis danças desenhadas por riscos a laranja, deixei-me invadir pelo ritmo constante dos tambores, fechei os olhos, pensei que estava a viver um daqueles momentos que não se quer que acabem nunca. Ao longe as luzinhas marcavam o ciclo quotidiano da vida da grande cidade. Deixei-me estar até sentir que tinha a minha dose e voltei, ainda sozinho, com um sorriso pateta na face.

Mais informações sobre os espectáculos de fogo:

 

Artigo do blog Cruzamundos. Mais textos em http://www.cruzamundos.com/

 

 

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