Ora como a natureza maléfica daqueles que não conhecem o mundo da magia do Geocaching é amplamente reconhecida, decidi escrever este artigo para divulgar uma sub-espécie, infinitamente mais rara, a que chamarei de “os bons muggles”. Testemunhos dos seus actos podem ser recolhidos em inúmeros logs, que, contudo, se perdem das dezenas de milhares que anualmente são gerados. Muitos dos que me lêem nunca se depararam com um tal relato, e por isso escrevo estas linhas, onde falarei dos “bons muggles”.
Um dos tipos de “bons muggles” mais frequente é o residente. Falo das criaturas que moram nas imediações de uma cache, ou que por qualquer razão frequentam o local. Mais cedo ou mais tarde interpelam um geocacher, que, intimidado, lhes confessa tudo sobre o nosso jogo e sobre a cache que ali o trás. Ou descobrem, por si próprios, o que está por detrás daquela pedra que tantos estranhos remexem antes de abandonarem a área com um sorriso mal disfarçado nos lábios. Com o tempo ganham coragem, começam a interagir conosco, a indicar a direcção certa, tornam-se adeptos do jogo na qualidade de espectadores activos. Há casos em que raro é o log que não refere a aparição do “senhor” de sempre, de dedo esticado, apontando o spot prontamente, de expressão malandra, cúmplice. Muitas vezes são “muggles” reformados, habituados a passar os dias à espera de nada, debatendo-se na solidão que se renova a cada nascer do sol. E é com uma espécie de alegria que vêem aproximar-se mais um daqueles jovens de máquina na mão, com quem sabem poder ter dois dedos de conversa, antes de regressarem às suas rotinas que mais não são do que uma manta a aquecer o frio da vida que foi. Respeitem-nos! São “bons muggles”. E ajudam-nos.
Outro género de muggles que por vezes se revela benévolo provém dos “profissionais”. O jardineiro é um dos piores tipos de “muggle” mas é certo que alguns existem com coração de ouro. Recordo-me de me aproximar de uma cache, em Lisboa, convencendo-me que não a poderia procurar tamanha era a brigada de jardineiros que trabalha na zona. Acabei por descobrir que o esconderijo se encontrava num ângulo morto e joguei-lhe a mão. Encontrei o contentor e tenho a certeza que minutos antes este tinha sido inspecionado por um jardineiro que o colocou carinhosamente no seu ninho. Considerando a profundidade da limpeza envolvente, só poderá ter sido assim. Noutra ocasião, em Praga, onde vivia, uma equipa da “Câmara” abateu uma enorme árvore que se encontrava doente, e com ela, a cache que repousava no seu interior. Descobrindo-a, deram-se ao trabalho de contactar o owner, que mais tarde a levantou nos serviços municipais. As forças policiais fornecem alguns destes “bons muggles”. A Jewell of Saphire (GCED4F) foi uma das melhores caches que já encontrámos. E um dos condimentos para o sucesso da jornada foi um delicioso log que lá fomos encontrar. À primeira vista nada havia de suspeito na última assinatura existente no logbook: GNR. Afinal de contas, se há uma banda de rock com esse nome, porque não um geocacher? Mas quis o destino que o olhar recaísse sobre essa entrada do livrinho e que as palavras começassem a fazer um sentido muito próprio. Não, não se tratava de um geocacher. A assinatura era mesmo deles, da instituição, essa mesmo, A Guarda Nacional Republicana tinha encontrado a cache. E a explicação estava toda lá: que alguém os tinha alertado para movimentações suspeitas naquele local ermo – vá-se lá entender como, pois “ermo” para descrever o sítio é favor e não se imagina como alguém poderia estar por ali presente para testemunhar as episódicas idas e vindas dos geocachers – e que eles tinham vindo cumprir a sua obrigação. Inspeccionado o local, o contentor foi descoberto e transportado para o posto. Ali, algum dos agentes da autoridade terá lido a stashnote e, reparando no endereço do website, consultou-o até compreender o conceito. Resultado: a cache foi devolvida ao seu devido lugar, com o tal log em que para além da narrativa dos acontecimentos constava uma frase de parabéns pela ideia e de boa sorte para o jogo. Ah! E ainda foi efectuado trade, tendo encontrado entre as prendinhas um calendário da GNR.

Deixem-me falar agora do “ex-bom muggle”. Não, não é que a sua bondade tenha expirado. O que sucedeu é que ao encontrar uma cache por acidente, sabe-se lá como, leu com atenção a “stashnote”. Chegou a casa e ligou-se à Internet. Visitou o geocaching.com. Achou tudo aquilo interessante…olhou para o smartphone, ali em cima da secretária e… tornou-se um geocacher! São mais do que a maioria de nós pensa. De tempos a tempos tropeço numa narrativa, geralmente na primeira pessoa, que dá conta de mais um “ex-bom muggle” feito agora geocacher. Quem diria, considerando as probabilidades.
E depois há um “bom muggle ocasional”, que tropeça numa cache no mais perfeito dos acasos, examina-a, segue o seu caminho, por vezes deixando para trás um pormenor requintado. Lembram-se do Boris, o emigrante, sabe-se lá de onde, talvez da Ucrânia, talvez da Moldova, que pendurou um container em local seguro com uma nota singela, traçada pela sua mão: “I Love Portugal” ?
Bem, mas deixem-me agora fazer uma confissão: este artigo foi inspirado por um “muggle” específico, que não se enquadra em nenhuma destas categorias. Trata-se do Lázaro. E quem é o Lázaro? É o guardião e melhor amigo da minha cache Cerro do Botelho. Já não me lembro qual foi a primeira vez que ouvi falar nele. Alguém me disse que um “muggle” local tinha encontrado esta cache por acidente e que a tinha transformado em objecto de adoração. Ri-me. Depois, muito mais tarde, passei por lá e percebi o que me tinham querido dizer. O bom do Lázaro passa regularmente naquele lugar ermo, e invariavelmente deixa um “log” no livrinho. Ao principio pensei que era aborrecido, um muggle estar assim a usar precioso espaço do logbook. Mas depois comecei a ler, e os sorrisos que aquelas puras mensagens me despertaram valeram bem os logbooks que terei que gastar. São inscrições do tipo “Bom dia a todos os amigos, hoje o dia está muito bonito. Lázaro”. “Olá, voltei aqui outra vez e está tudo bem. Lázaro”. “O Lázaro veio visitar”. Como se não bastasse o interesse que dedica à minha cache, agora criou um pequeno monumento. A sério! Ora vejam lá a foto que se segue….
