
May 17, 2009 by vsergios
O historiador estava em apuros. Após o ritual que tinha presenciado, foi capturado e tomado para sacrifício, um sacrifício erótico, com cobras. Precisávamos de o ajudar, uma vez que o Deus Endovélico não perdoaria tal devassidão, e estava pronto a derramar o sangue do Indy pelo leito do rio Lucefecit, para o tornar de facto diabólico e infernal com a cor que merece. Era de dia e os reforços eram muitos. De certo a missão não seria muito difícil. O veículo ficou estacionado convenientemente longe para ver se passávamos despercebidos. Atravessámos o rio logo ali, no início do trilho, sabendo à partida que a abordagem não seria a melhor, mas seria de certo a mais discreta. Não podíamos arriscar, do regimento constavam duas crianças, tinhamos que ser certeiros e rápidos.
Certeiros fomos, rápidos é que nem por isso. O local é de culto, e facilmente se percebe porquê. A magia pairava no ar e a progressão pelo terreno era demorada. Tinha que se ir registando praticamente a cada passo umas chapas fotográficas para estudo posterior e que serviriam de provas históricas ao nosso estimado professor.
Íamos com cuidado, mas efectivamente não se ouvia nas redondezas qualquer sinal do que quer que fosse. Parecia o local estar calmo. Calmo demais. Teria terminado o ritual? Teria terminado a orgia? Era o que nos queria parecer. À mediada que nos aproximávamos da imponente e mística rocha, as expectativas íam subindo, mas a esperança de encontrar o professor ía descendo. O tempo melhorava a cada passo, o Sol ía queimando qualquer réstia de esperança em encontrar ainda os irmãos da confraria em plena actividade maquiavélica. E de facto, após nos apoderarmos do topo da rocha, constatámos que os indícios de presença humana recente era praticamente nula. O professor tinha desaparecido, mas a pequena mensagem que tinha deixado permitiu-nos procurar pelo seu tesouro nas margens do rio, perto das ruínas, obviamente. Mas nem o tesouro foi possível encontrar. Os deuses apoderaram-se de tudo, de tudo e de todos, são uns lambões.
Então abrimos a maleta dos artefactos recolhidos por essas expedições fora e conseguimos enterrar um tesouro de substituição, a ver se o nosso professor lá voltaria e perceberia que os seus alunos andam no seu encalço.
Após a contemplação de tão enigmático santuário, com vários registos fotográficos efectuados, coube-nos depois efectuar uma melhor escolha para o caminho de retirada, que passou pela ponte de madeira e pelo estradão mesmo ali à mercê.
Foi uma aventura fantástica, mas continuaremos à procura do professor Indy por aí, numas ruínas quaisquer.
Obrigado bastante,
Vitor Sérgio com os exploradores JJJótas

April 5, 2008 by HDV
Ganda tupperware; pelo local, seu significado histórico e valia paisagística. Cumpre no entanto recordar que o “Endovélico” que se conhece – e pode ver em estátua por ex. na alegadamente temporária exposição “Religiões da Lusitânia”, vai para meia dúzia de anos no Museu Nacional de Arqueologia, deve mais às ruínas do vizinho (4Km) templo romano em S. Miguel da Mota do que ao que se imagina possa ter sido aqui o seu primitivo culto. Por outro lado a de facto interessante origem de “Lucefecit”, conforme notado pelo Almeidara, vem bem explicada em O Domínio Romano em Portugal de Jorge Alarcão, que infelizmente não tenho por aqui agora.
Não confundir ainda o "Endovélico" com o som alternativo e cheio de pedaçinhos de fígado desta rapaziada.
March 27, 2008 by HDV
Infinitamente pertinente uma cache a pretexto do santuário do Endovélico. Parabéns!
Só uma pequena precisão: quando escreves "deus indígena «cristianizado» pelos romanos a partir do século I" suponho que queres dizer "deus indígena cujo culto foi adoptado pelos romanos a partir do século I"; tendo presente que os últimos só se começam a "entusiasmar" com o Cristianismo a partir do início do séc. IV.
