O Pinhal de Leiria (e meio país...) ardeu
Três dias depois da tragédia que se abateu sobre o nosso país, tive a coragem de ir ver com os meus próprios olhos o que restava de uma das florestas mais bonitas de Portugal, fortemente afetada por um inferno de que não há memória outro igual.
Já ia triste e acabrunhado, mas confesso que não estava preparado para o que vi. À tristeza, somou-se a revolta e não consegui conter as lágrimas ao passar por locais totalmente carbonizados, paraísos que se perderam, memórias com cheiro a cinza e fumo.
Menos de uma semana antes, tinha feito 24 km por uma mata única, que faz parte da nossa História, da nossa identidade enquanto país que se fez império e deu a conhecer o mundo ao mundo.
E enquanto caminhava, ocorreu-me várias vezes que tudo aquilo estava à distância de um fósforo de desaparecer, bem como as histórias das pessoas que aqui viveram e que daqui tiraram o sustento durante décadas a fio, criando uma economia e uma simbiose entre o Homem e a Natureza como já só restam parcos exemplos neste século XXI.
Mas estava à vista de todos que esta era uma morte anunciada. Uma mata abandonada, ao deus dará, sem qualquer planeamento turístico e económico, à espera que um descuido ou uma mão guiada por uma mente doente destruísse num ápice aquilo que tantos séculos levou a brotar.
Mas não culpo apenas o Governo e os homens sem visão e sem memória, culpo a todos nós que visitamos estes espaços únicos, onde nos deveríamos sentir uns privilegiados por podermos usufruir deles, e deixamos lixo, estragamos habitats sensíveis com jipes e motas de duas e quatro rodas, destruímos equipamentos e ficamos em silêncio quando testemunhamos todos estes actos e mais alguns.
É um exemplo do Portugal actual, do Portugal interior e rural, abandonado aos velhos e aos poucos estrangeiros que lhe vão reconhecendo uma beleza e uma genuinidade únicas no mundo, mas que nós, sempre tão absortos na procura de algo que nem sabemos bem o quê, vamos deixando esquecer, esvaziar e entregar às silvas, às acácias e aos eucaliptos, sinónimos de abandono, desleixo, ignorância e lucro fácil.
Em todos estes anos de vida, nunca vi calamidade como esta que vivemos este fim-de-semana, e como eu acredito que o Homem só muda quando a isso é obrigado, talvez agora, ao fim de décadas de avisos e de centenas de mortos, talvez se faça finalmente jus à beleza e ao potencial deste país, que se pode tornar definitivamente não uma ilha de fogo na Europa, mas um oásis na civilização de plástico que se vai construindo por esse mundo fora.
Já ia triste e acabrunhado, mas confesso que não estava preparado para o que vi. À tristeza, somou-se a revolta e não consegui conter as lágrimas ao passar por locais totalmente carbonizados, paraísos que se perderam, memórias com cheiro a cinza e fumo.
Menos de uma semana antes, tinha feito 24 km por uma mata única, que faz parte da nossa História, da nossa identidade enquanto país que se fez império e deu a conhecer o mundo ao mundo.
E enquanto caminhava, ocorreu-me várias vezes que tudo aquilo estava à distância de um fósforo de desaparecer, bem como as histórias das pessoas que aqui viveram e que daqui tiraram o sustento durante décadas a fio, criando uma economia e uma simbiose entre o Homem e a Natureza como já só restam parcos exemplos neste século XXI.
Mas estava à vista de todos que esta era uma morte anunciada. Uma mata abandonada, ao deus dará, sem qualquer planeamento turístico e económico, à espera que um descuido ou uma mão guiada por uma mente doente destruísse num ápice aquilo que tantos séculos levou a brotar.
Mas não culpo apenas o Governo e os homens sem visão e sem memória, culpo a todos nós que visitamos estes espaços únicos, onde nos deveríamos sentir uns privilegiados por podermos usufruir deles, e deixamos lixo, estragamos habitats sensíveis com jipes e motas de duas e quatro rodas, destruímos equipamentos e ficamos em silêncio quando testemunhamos todos estes actos e mais alguns.
É um exemplo do Portugal actual, do Portugal interior e rural, abandonado aos velhos e aos poucos estrangeiros que lhe vão reconhecendo uma beleza e uma genuinidade únicas no mundo, mas que nós, sempre tão absortos na procura de algo que nem sabemos bem o quê, vamos deixando esquecer, esvaziar e entregar às silvas, às acácias e aos eucaliptos, sinónimos de abandono, desleixo, ignorância e lucro fácil.
Em todos estes anos de vida, nunca vi calamidade como esta que vivemos este fim-de-semana, e como eu acredito que o Homem só muda quando a isso é obrigado, talvez agora, ao fim de décadas de avisos e de centenas de mortos, talvez se faça finalmente jus à beleza e ao potencial deste país, que se pode tornar definitivamente não uma ilha de fogo na Europa, mas um oásis na civilização de plástico que se vai construindo por esse mundo fora.