"Aventuras" pelo Norte de África


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Mensagem Post: #1 a quarta 19 mai 2010, 19:22 

"Aventuras" pelo Norte de África

Conforme sugestão decidi autonomizar estes relatos.

Aproveito para agradeçer as simpáticas réplicas aos meus posts, esperando conseguir manter o mesmo 'calibre' nos seguintes [:I)]

Como existe uma ligação lógica entre os posts já colocados e os as colocar, começo por replicar aqui os principais já publicados em Histórias de Geocachers Portugueses no Estrangeiros, podendo depois quando chegar a Marrocos e num esforço ecuménico fazer referência a alguns posts colocados aqui e aqui.

Acrescento também um mapa de África só para que possam visualizar o tamanho relativo dos países dos países abordados (além dos visitados em expedições TT, acrescentarei também o Egipto, feito em viagem mais convencional...).

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Mensagem Post: #2 a quarta 19 mai 2010, 19:27 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Comprei o meu Discovery TD5 em Dezembro de 2000. Logo em Fevereiro de 2001 fui a Marrocos e desde aí até Fevereiro de 2010 fiz as seguintes expedições a África.


Nota: Passa de viagem a expedição quando se tem de escavar buracos no chão para as necessidades, estar 3 dias sem tomar banho, comer conservas e salsinhas com fartura e dormir debaixo de um céu de estrelas sem a menor poluição luminosa 100km em redor [:)].


Marrocos em 2001, 2004 e 2010 (esta última a única feita depois de ter-me iniciado no geocaching)

Marrocos como já tive oportunidade de dizer em outros fóruns e aqui é um país espectacular muito perto de nós, a apenas 600km de Lisboa. Uma semana de férias (cinco ou quatro dias úteis se apanharmos um feriado) para 9 dias de viagem (sábado a domingo) são suficientes para se ficar com uma ideia bastante razoável de Marrocos. Com mais uns dias dá para visitar bem as cidades e ir a prácticamente todo o lado.
Os percursos que efectuei não são passíveis de ser feitos sem ser em TT, mas pode-se visitar perfeitamente Marrocos num carro normal, como expedições recentes de geocachers portugueses comprovam [:)].
Qualquer viatura TT mínimamente preparada e com um condutor que saiba o que está a fazer, pode fazer tudo o que se pode fazer fora de estrada em Marrocos e que é muito... (pistas rápidas, pistas rochosas, pistas de areia, algum trial, dunas, etc.)
O que vos posso dizer é que se têm um TT e nunca foram a Marrocos não sabem o que perdem [;)].

Quanto a caches já tem 46 das quais fiz apenas três, visto ir integrado numa caravana de muggles... mesmo assim ainda fiz uma memorável.

Mauritânia em 2004 e 2007

Ir á Mauritânia já é bastante mais complicado do que ir a Marrocos especialmente pelo distância e pela autonomia que temos de ter.
A ligação implica a travessia de Marrocos em toda a sua extensão. Só na ligação Lisboa-Nouadhibou-Lisboa estamos a falar de mais de 6.000km por Portugal, Espanha, Marrocos e Sahara Ocidental (ocupado de facto por Marrocos).
Como o tempo mínimo para se conhecer minimamente a Mauritânia é 14 dias, mesmo que façamos esta ligação sempre a andar (mais ou menos 3,5 dias para cada lado) é uma viagem que obriga a uma disponibilidade de pelo menos 3 semanas. E isso se não se quiser ir mais para Sul, por exemplo até Dakar.

Quanto a caches de momento é uma miséria com apenas 4, todas colocadas depois da minha última visita. Diga-se que todas estão em sítios por onde passei...

Líbia em 2009

O que disse para a Mauritânia aplica-se também á Líbia. É longe e implica uma preparação para uma completa autonomia para pelo menos 5 dias (combustível, água, comida, etc. etc.)
A ligação á Líbia não se pode fazer a partir de Marrocos, pois as fronteiras com a Algéria estão fechadas. Assim implica ir de barco a partir de Marselha ou Génova. No nosso caso por questões de ligação a ida foi por Génova e o retorno por Marselha. Assim apenas de ligações até se chegar a África (Tunis) foram cerca de 3.600Km que ocupam no mínimo 6 dias (dois dos quais de barco). Eu e mais outros participantes, para pouparmos dias de férias (que nem todos somos patrões ou temos profissões liberais [:)]) fomos de avião até Tunis e com isso ganhámos 5 dias... O meu pendura levou o carro (depois não pegou mais nele... 8-))
Depois é mais uma ligação de 600km entre Tunis e a fronteira Líbia.
Assim embora estejamos a falar de uma distância total de ligação Lisboa-Líbia-Lisboa de menos de 5.000km ou seja menos 1.000km do que para a Mauritânia são necessários pelo menos mais 3 dias, devido ao barco. É também uma viagem típicamente para três semanas.

Tem 10 caches colocadas, das quais passei ao pé de 4 e de que destaco esta num sítio completamente deslumbrante.


Continua...
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Mensagem Post: #3 a quarta 19 mai 2010, 19:27 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Great Socialist People's Libyan Arab Jamahiriya
الجماهيرية العربية الليبية الشعبية الإشتراكية العظمى
Al-Jamāhīriyyah al-ʿArabiyyah al-Lībiyyah aš-Šaʿbiyyah al-Ištirākiyyah al-ʿUẓmā (Arabic)

Aqui está um álbum já mais representativo da totalidade da viagem.

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Estas duas fotos foram tiradas a poucos km's desta Earthcache ( Acacus) que já referi.

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Da Líbia, além de toda as maravilhas naturais que tem para mostrar e de ser um paraíso para quem gosta de dunas, há um conjunto de coisas interessantes a reter:

1) O País é bastante fechado ao Turismo. Houve uma abertura entre 2005 e 2007 que acabou pouco depois de termos lá estado. Depois o exmo. Mouammar Kadhafi, Président du Conseil de la Révolution de la République Arabe Libyenne Populaire et Socialiste e Guide de la Grande Révolution de la Grande Jamahiriya Arabe Libyenne Populaire et Socialiste, chateou-se por os suiços terem expulsado um dos filhos por maus tratos aos empregados e como represália cancelou os vistos turísticos a todo os países ocidentais. Julgo que a situação já está ultrapassada mais pelo menos durante uns meses largos não foram autorizadas expedições. Continuaram a ser fornecidos vistos de negócios, pois o petróleo não pode deixar de circular...

2) O preço do gasóleo é de cerca de 5 cêntimos [:O] Estão a ver o que é encher o depósito de 95L de um TD5 com cerca de 5€...

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3) Os turistas individuais tem de andar acompanhados por um guia. No caso de um grupo como o nosso, além do guia temos de levar um polícia/soldado. No nosso caso era um miúdo de 18 anos que se houvesse algum problema devia ser o primeiro a fugir... Para não nos chatearem muito devaram um 4X4 próprio e foram impecáveis, indo a todo o lado onde quisemos ir (e fomos onde poucos turistas vão) e conheciam muitíssimo bem o terreno o que foi essencial para termos conseguido fazer algumas progressões.

Na foto além do guia (antigo capitão do exercito líbio), está também o polícia, o condutor do 4x4, um aprendiz de guia que estava a aprender e o patrão deles todos (menos do polícia) que fez parte da viagem connosco em 4x4 próprio, a fazer de cicerone á mulher e filho de um diplomata francês que aproveitaram a boleia do grupo para também irem conhecer o deserto. Vive 6 meses por ano na Líbia e os outros 6 (quando o calor aperta) em França... Podem tentar deduzir quem é quem...

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4) Á entrada da fronteira tem de se pagar um conjunto de matrículas de importação provisória de veículo que deve ser colocada por cima das originais. Essas matrículas têm de ser devolvidas à saída (a menos que como alegou um dos nossos amigos, se alegue que ela caiu, se pague 60€ e venha escondida :).

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5) Como na maior parte dos países árabes, é proibida a importação e consumo de álcool (e atenção que aqui tem mesmo de se ter algum cuidado com isso pelo menos na fronteira...). Quem já foi a Marrocos carregado de vinho, cerveja e aguardente e nunca teve problemas não extrapole para aqui... Não quer dizer que não se leve (bem escondido) e depois logo se vê se o guia e o polícia são os primeiros a perguntar se temos álcool :)

6) Ao contrário da maioria dos outros países arábes que conheço (Marrocos, Mauritânia, Tunísia e Egipto) e possivelmente por estarem muito mais fechados ao exterior e serem governados com mão de ferro, o povo libío é mais digno e distante, não se vendo pedintes, nem miúdos a pedir "cadeaux, cadeaux..." .

Acontece. Um pneu que rebenta, uns farolins que ficam pelo caminho...

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...uns plásticos que estão mais... Nada de especialmente grave :)

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Continua...
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Mensagem Post: #4 a quarta 19 mai 2010, 19:28 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Líbia 2009 - Conclusão

E para acabar (embora muito mais houvesse e dizer) e visto que uma imagem vale 1.000 palavras, segue uma enciclopédia de 864.000 palavras, apesar de tudo um pequeno resumo de todo o material disponível.

Se tiverem curiosidade por alguma em particular estejam á vontade para questionar.

Teclem na imagem (a abertura do álbum pode demorar um pouco, mas julgo que valerá a pena) e façam uma viagem virtual pela Líbia. Aceitam-se pré-inscrições para o GeoLíbia 2012 [8D]

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Amanhã Mauritânia.

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Mensagem Post: #5 a quarta 19 mai 2010, 23:03 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Antes de passar para a Mauritânia e como em vídeo se consegue ter uma ideia das dimensões dos espaços de forma mais evidente do que nas fotografias, convido-vos a verem:

Erg Murzuq, (+), (+) e (+) (Dunas, dunas e mais dunas...)
Erg Awbari (Visão de conjunto dos 4X4 que foram para esta aventura. Devem estar a pensar "Se fazem aquilo com um Terrano então o meu também dá" :D )
Akakous (As formações rochosas são simplesmente espectaculares)
Akakous Grand Arche (Viram-me lá debaixo? Então ficaram com uma ideia do tamanho...)
Sabratha (Espectacular cidade romana)

Para ficarem com um visão temporal e de enquadramento da expedição podem ver o que seria o programa para este ano (e que não se chegou a realizar pela tal questão dos vistos, que já referi).

Também porque é impossível eu fazer um relato destas viagens sem fazer ou verem referências á HVR, esclareço que é uma empresa de um grande amigo meu (António Antunes), que é o organizador de todas as aventuras 4X4 (em África, nos Picos da Europa ou em Portugal) em que tenho participado, e que amizade á parte é a pessoa que conheço que mais percebe de TT (dentro da vertente não competitiva). Se com estas reportagens lhe conseguir arranjar clientes fico muito contente, mas esclareço desde já que não tenho nenhum interesse nisso, sem ser o de eventualmente acrescentar ao conjunto de amigos muggles que normalmente participam nestas aventuras, outro conjunto de amigos geocachers que poderão dar uma dimensão adicional a futuras iniciativas. Também gostaria de salientar que organizar uma aventuras destas dá muito trabalho, que tem de ser pago... (isto para os que possam achar caro os preços que eventualmente possam observar). Uma expedição á Líbia como a descrita para um 4X4 com duas pessoas não fica por menos €4.000 (fora a preparação prévia da máquina e os arranjos depois...)

Por último deixo-vos com um resumo da expedição pelo seu organizador.

P.S Para os que repararam em "...ao nosso azarado Joaquim Safara que acabou traído pela electrónica no seu carro com uma avaria de centralina, o que significou um reboque de mais de 1000km", esclareço que é uma calunia [:(!] . O reboque foi apenas de 850km [:D] e a culpa como referido foi toda da eléctronica (nessa altura tive pena de não ter ali o meu UMM sem mariquices de centralinas, sensores, etc, etc...) O que é verdade é que no seguimento do rebentamento do pneu (que poderam ver numa fotografia anterior) o carro recusou-se a pegar outra vez, por mais que tentássemos. Depressa se chegou á conclusão que o problema era da centralina, e aí não há mecânico que sirva. ou se leva uma adicional o que eu farei garantidamente em futuras viagens, ou então só de reboque. Felizmente já estávamos em pista a poucos kms de estrada. Assim foi um reboque fácil (embora comprido) por 250Km da Líbia (que teve como consequência que não tivessemos ido a Tripoli como estava previsto...) e por toda a Tunísia (ai já poderia ter activado a Assistência em Viagem) mas preferimos levar o carro (o meu pendura que eu tinha avião para apanhar em Tunis) onde se resolveu rápidamente o problema. O 'azarado' não é no entanto uma referência a este incidente em particular, mas a um outro muito mais épico ocorrido na 1ª viagem á Mauritânia... (e que será contado em proximo capítulo ;))
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Mensagem Post: #6 a quinta 20 mai 2010, 02:58 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

jasafara Escreveu:Aceitam-se pré-inscrições para o GeoLíbia 2012 [8D]


Eu não tenho é Jipe e não sei a minha disponibilidade na altura, mas gostava de viver essa experiencia que deve ser fenomenal..
David Ferreira
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Mensagem Post: #7 a sexta 21 mai 2010, 02:24 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

A 'reportagem' sobre a Mauritânia está atrasada, mas entretanto convido-os a visitar aquelas que um dia serão duas soberbas earthcaches,

Assim em jeito de desafio ao danieloliveira :D, temos:

A 1ª é a espectacular cratera Gueld er-Richat cuja espectacularidade só é perfeitamente percéptivel a partir do espaço e que atravessámos completamente ,com uma abordagem muito pouco convencional a partir de NW vindo de Zouerate, por uma pista de elevada complexidade técnica.

A 2ª é o monolíto Ben Amera também fácilmente percéptivel aqui. Aqui se ampliarem suficientemente verão que um pouco a sul do monolito encontram a famosa linha do comboio entre Nouadhibou e Zouérat.
Esta linha é facilmente vísivel no google maps. Fizemos as pistas (mais ou menos´marcadas) que acompanham toda a linha pelo Sul. A zona a norte é interdita pois ainda está densamente minada devido aos conflitos em tempos com Marrocos sobre o Sahara Ocidental. A única zona desminada é precisamente aquela em redor do monolito de forma a permitir as visitas ao mesmo (e aos menores que estão perto).
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Mensagem Post: #8 a sexta 21 mai 2010, 02:41 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Na abordagem ao Guelb er Richat a partir do Norte passámos por zonas completamente isoladas e com algum grau de insegurança (ver aqui e aqui) De referir que o ataque de Setembro de 2008, matou 12 soldados da guardição de um forte colocado numa passagem estratégica entre o Norte e o Sul, e por onde tinhamos passados um ano e meio antes. O facto de virmos pelo Norte, zona de onde depois nos esclareceram só customavam vir os 'bandidos armados' fez que tivessemos sido recebidos por um impressionante dispositivo militar. Foi pelo menos diferente termos sido completamente cercados por carrinhas equipadas de auto-metralhadoras e ocupadas por militares com o dedo no gatinho e nós na mira... Depois de se aperceberam que não erámos 'bandidos' foram extremamente simpáticos e deixaram-nos partir sem problemas. Foi assim muito triste, quando lemos a notícia do ataque pensar que eventualmente alguns dos militares degolados tinham sido os que nos tinham recebido [:-(] Se se lembrarem foi na sequência destes ataques iniciados em Dez 2007 (com a morte de 4 franceses) que foi anulado o Lisboa-Dakar e que o rali se mudou para a Ámerica do Sul (embora se continue absurdamente a chamar Dakar...). Entretanto a situação acalmou e não tem havido ataques De qualquer forma eu não exitarei em lá voltar assim que a ocasião se proporcionar. Se estivermos com medo não vamos a lado nenhum. Estive em Londres e Egipto, pouco antes de terem lá ocorridos ataques terroristas (IRA e Al-Qaeda), qualdo voltei da primeira viagem á Mauritânia chegámos a Ceuta a 12 de Março de 2004, completamente a leste que no dia anterior tinham havido os mortíferos ataques de Madrid. Fomos assim surpreendidos quando nos deparámos com uma enorme manisfestação de repulsa pelo ocorrido e só depois é que soubemos da barbárie que tinha ocorrido aqui mesmo ao lado.
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Mensagem Post: #9 a quarta 25 ago 2010, 21:11 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Depois de ter lido o relato do z3r0 sobre a sua aventura em Dusseldorf e ainda antes da aventura que aqui refiro, logo mais irei retomar as minhas "Aventuras" pelo Norte de África, com a verdadeira e inacreditável estória de como na Mauritânia em 2007 me perdi entre o quarto e a casa de banho :D quase tendo entrado em pânico :?
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Mensagem Post: #10 a quinta 26 ago 2010, 12:26 

Re: "Aventuras" pelo Norte de África

Primeiro de todos e para quem não sabe, explico as diferentes técnicas para se ir á casa de banho quando se segue em caravana em sítios onde não abundam as casas de banho tradicionais (que já agora nos cafés fora das cidades, consistem normalmente num buraco no chão para uma elegante utilização de cócoras).

1) Quando se está a progredir em estradão ou pista e se faz uma paragem coordenada num lugar em que a única forma de parar as viaturas é em fila ao longo do caminho a técnica normalmente é “meninas para um lado, meninos para o outro”.

2) Quando a progressão é rápida e não há grandes problemas em que uma viatura que fique para trás, apanhe as outras, cada um vai parando quando precisa para uma “paragem técnica” recuperando depois o seu lugar na caravana, ou ficando no final quando não for fácil as ultrapassagens.

3) Quando se pára de forma mais prolongada, ao almoço ou ao fim do dia cada um vai de carro procurando uma casa de banho recatada para a sua higiene ou pausa mais contemplativa (embora a posição de cócoras não seja a melhor para ler o jornal :) ).

4) Depois do acampamento montado, normalmente num sítio o mais abrigado possível, sendo que ás vezes o melhor que se consegue arranjar é um círculo de viaturas. No deserto no entanto normalmente consegue-se arranjar um sítio abrigado num vale entre dunas, mais ou menos altas. Aí o que se tem de fazer é cada um afastar-se o suficiente para a coberto das dunas se ter alguma privacidade. Rapidamente cada um escolhe a sua casa de banho privativa a algumas dezenas de metros do sítio onde pára a viatura e monta a tenda. Aí é só pegar numa pá e em papel higiénico ou idealmente dodott’s para bebé, visto que uma correta higiene das partes pudibundas é uma componente importante de uma expedição bem sucedida.

5) A variante nocturna da versão anterior, implica a utilização de um frontal ou de uma lanterna o que por vezes provoca cenários irreais de juntamente com as estrelas do céu, se verem uns pontinhos luminosos, quais estrelas cadentes, a cruzar o horizonte.

Segue então a estória ocorrida na minha 2ª expedição á Mauritânia em 2007, quando estávamos acampados no meio do Sahara profundo, a algumas centenas de quilómetros da povoação mais próxima, no meio de um oceano de dunas.

Como normalmente fazemos, cerca de uma hora antes de o sol se por, tínhamos encontrado um lugar abrigado entre dunas não muito altas, nem muito longas (para dizer que a progressão a pé a subi-las e descê-las não era muito difícil, o que é relevante para a estória).

A noite estava espectacular, com algum vento mas que não era suficiente para elevar a areia, permitindo-nos assim na lua nova, a observação de um céu ponteado de milhares de estrelas, com uma limpidez que só se encontra no deserto (e podem crer que só para passar uma noite no deserto vale a pena percorrer milhares de quilómetros [^] ).

Ora foi neste cenário idílico, que despertei por volta das 4h da manhã (cerca de duas horas antes do nascer do sol, momento em que normalmente nos levantamos) com vontade de ir á “casa de banho”. Lá segui o ritual. Acender o frontal, vestir os calções, ir buscar as botas á parte de fora da tenda, abaná-las (nunca ouviram falar das terríveis histórias de quem calçou botas com um escorpião muito chateado por estar a ser pisado lá dentro?) e calcá-las, pegar no kit de saneamento e limpeza (a já referida pá, mais os inestimáveis suaves dodott) e pôr-me a caminho da casa de banho.

Ora nesse dia devido á beleza do céu e á facilidade de progressão, decidi afastar-me um pouco mais do que seria normal. Fui andando sem grandes preocupações, a olhar para o céu mais do que por onde estava a andar, numa escuridão (devido á lua nova) que não me dava mais visibilidade do que o alcance bastante razoável do meu frontal.

Claro que no deserto, após se subir e descer duas ou três dunas se perdem completamente as referências visuais, ou seja a poucos metros não se vê nem a pontinha das antenas de rádio das viaturas que quanto muito estão a 3m do chão.

Ora nada de grave pensam vocês. É só seguir as pegadas que deixámos em sentido contrário para com segurança se voltar ao ponto de partida.

Falso! Pode ser que funcione na praia com areia rija em que as pegadas fazem uma marca bem definida e que nomeadamente permite identificar o sentido da marcha e em que normalmente se progride em terreno plano e mais ou menos a direito, mas no deserto em dunas de areia mole em que no momento seguinte a seguir de se dar um passo o que fica na areia é uma leve depressão de retornos mais definidos que ao fim de alguns minutos (especialmente se tiver algum vento como era o caso) praticamente já desapareceu, a história é outra.

A situação é agravada quando a progressão é ziguezagueante e se circula de forma algo circular o que facilita o cruzamento de rastos.

Esse cruzamento de rastos é especialmente fácil de se fazer se como eu se perder alguma calma quando se tem a sensação de estar perdido e se começa a progredir de forma um pouco aleatória…

Posso-vos dizer que experiências semelhantes não ocorreram só comigo e que é extremamente fácil ficar-se completamente desorientado no meio do deserto.

Bem o resto conseguirão imaginar. Foram alguns breves minutos que me pareceram horas em que andei completamente ás aranhas á procura do acampamento. Se tivesse sido ao princípio da noite a luz produzida pelas lanternas e candeeiros seria visível e daria um ponto de orientação. Agora de noite no silêncio absoluto, o acampamento estaria a poucas centenas de metros, mas bem que podia estar a milhares de quilómetros que a sensação de isolamento é a mesma. Claro que o nosso cérebro, nessas situações de stress nos pregue partidas e não é fácil manter a calma. Apesar de tudo não entrei completamente em pânico (só um bocadinho :oops: ) e depois de já estar a ponderar começar a gritar (e o que mais me preocupava é o que ia gritar de forma a manter alguma dignidade, visto que um “SOCORRO” me parecia muito pouco prestigiante 8-) ) lá passei uma duna e com alívio encontrei o acampamento placidamente adormecido.

A partir daí, passei a ter mais cuidado nas minhas deslocações nocturnas á “casa de banho” e a não prescindir do GPS para me indicar o caminho de volta se necessário.

Enfim foram poucos minutos (talvez 30) em que andei ás voltas, a concerteza poucas dezenas/centenas de metros do acampamento, mas sentindo-me um autêntico Robinson Crusoe á deriva no meio daquele oceano de areia sem encontrar uma ilha onde pudesse aportar.

Comparado com esta aventura nas areias da Mauritânia, caro rz3r0, a tua pelas ruas civilizadas de Dusseldorf foi uma brincadeira de crianças ;)
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