Primeiro de todos e para quem não sabe, explico as diferentes técnicas para se ir á casa de banho quando se segue em caravana em sítios onde não abundam as casas de banho tradicionais (que já agora nos cafés fora das cidades, consistem normalmente num buraco no chão para uma elegante utilização de cócoras).
1) Quando se está a progredir em estradão ou pista e se faz uma paragem coordenada num lugar em que a única forma de parar as viaturas é em fila ao longo do caminho a técnica normalmente é “meninas para um lado, meninos para o outro”.
2) Quando a progressão é rápida e não há grandes problemas em que uma viatura que fique para trás, apanhe as outras, cada um vai parando quando precisa para uma “paragem técnica” recuperando depois o seu lugar na caravana, ou ficando no final quando não for fácil as ultrapassagens.
3) Quando se pára de forma mais prolongada, ao almoço ou ao fim do dia cada um vai de carro procurando uma casa de banho recatada para a sua higiene ou pausa mais contemplativa (embora a posição de cócoras não seja a melhor para ler o jornal

).
4) Depois do acampamento montado, normalmente num sítio o mais abrigado possível, sendo que ás vezes o melhor que se consegue arranjar é um círculo de viaturas. No deserto no entanto normalmente consegue-se arranjar um sítio abrigado num vale entre dunas, mais ou menos altas. Aí o que se tem de fazer é cada um afastar-se o suficiente para a coberto das dunas se ter alguma privacidade. Rapidamente cada um escolhe a sua casa de banho privativa a algumas dezenas de metros do sítio onde pára a viatura e monta a tenda. Aí é só pegar numa pá e em papel higiénico ou idealmente dodott’s para bebé, visto que uma correta higiene das partes pudibundas é uma componente importante de uma expedição bem sucedida.
5) A variante nocturna da versão anterior, implica a utilização de um frontal ou de uma lanterna o que por vezes provoca cenários irreais de juntamente com as estrelas do céu, se verem uns pontinhos luminosos, quais estrelas cadentes, a cruzar o horizonte.
Segue então a estória ocorrida na minha 2ª expedição á Mauritânia em 2007, quando estávamos acampados no meio do Sahara profundo, a algumas centenas de quilómetros da povoação mais próxima, no meio de um oceano de dunas.
Como normalmente fazemos, cerca de uma hora antes de o sol se por, tínhamos encontrado um lugar abrigado entre dunas não muito altas, nem muito longas (para dizer que a progressão a pé a subi-las e descê-las não era muito difícil, o que é relevante para a estória).
A noite estava espectacular, com algum vento mas que não era suficiente para elevar a areia, permitindo-nos assim na lua nova, a observação de um céu ponteado de milhares de estrelas, com uma limpidez que só se encontra no deserto (e podem crer que só para passar uma noite no deserto vale a pena percorrer milhares de quilómetros
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).
Ora foi neste cenário idílico, que despertei por volta das 4h da manhã (cerca de duas horas antes do nascer do sol, momento em que normalmente nos levantamos) com vontade de ir á “casa de banho”. Lá segui o ritual. Acender o frontal, vestir os calções, ir buscar as botas á parte de fora da tenda, abaná-las (nunca ouviram falar das terríveis histórias de quem calçou botas com um escorpião muito chateado por estar a ser pisado lá dentro?) e calcá-las, pegar no kit de saneamento e limpeza (a já referida pá, mais os inestimáveis suaves dodott) e pôr-me a caminho da casa de banho.
Ora nesse dia devido á beleza do céu e á facilidade de progressão, decidi afastar-me um pouco mais do que seria normal. Fui andando sem grandes preocupações, a olhar para o céu mais do que por onde estava a andar, numa escuridão (devido á lua nova) que não me dava mais visibilidade do que o alcance bastante razoável do meu frontal.
Claro que no deserto, após se subir e descer duas ou três dunas se perdem completamente as referências visuais, ou seja a poucos metros não se vê nem a pontinha das antenas de rádio das viaturas que quanto muito estão a 3m do chão.
Ora nada de grave pensam vocês. É só seguir as pegadas que deixámos em sentido contrário para com segurança se voltar ao ponto de partida.
Falso! Pode ser que funcione na praia com areia rija em que as pegadas fazem uma marca bem definida e que nomeadamente permite identificar o sentido da marcha e em que normalmente se progride em terreno plano e mais ou menos a direito, mas no deserto em dunas de areia mole em que no momento seguinte a seguir de se dar um passo o que fica na areia é uma leve depressão de retornos mais definidos que ao fim de alguns minutos (especialmente se tiver algum vento como era o caso) praticamente já desapareceu, a história é outra.
A situação é agravada quando a progressão é ziguezagueante e se circula de forma algo circular o que facilita o cruzamento de rastos.
Esse cruzamento de rastos é especialmente fácil de se fazer se como eu se perder alguma calma quando se tem a sensação de estar perdido e se começa a progredir de forma um pouco aleatória…
Posso-vos dizer que experiências semelhantes não ocorreram só comigo e que é extremamente fácil ficar-se completamente desorientado no meio do deserto.
Bem o resto conseguirão imaginar. Foram alguns breves minutos que me pareceram horas em que andei completamente ás aranhas á procura do acampamento. Se tivesse sido ao princípio da noite a luz produzida pelas lanternas e candeeiros seria visível e daria um ponto de orientação. Agora de noite no silêncio absoluto, o acampamento estaria a poucas centenas de metros, mas bem que podia estar a milhares de quilómetros que a sensação de isolamento é a mesma. Claro que o nosso cérebro, nessas situações de stress nos pregue partidas e não é fácil manter a calma. Apesar de tudo não entrei completamente em pânico (só um bocadinho

) e depois de já estar a ponderar começar a gritar (e o que mais me preocupava é o que ia gritar de forma a manter alguma dignidade, visto que um “SOCORRO” me parecia muito pouco prestigiante

) lá passei uma duna e com alívio encontrei o acampamento placidamente adormecido.
A partir daí, passei a ter mais cuidado nas minhas deslocações nocturnas á “casa de banho” e a não prescindir do GPS para me indicar o caminho de volta se necessário.
Enfim foram poucos minutos (talvez 30) em que andei ás voltas, a concerteza poucas dezenas/centenas de metros do acampamento, mas sentindo-me um autêntico Robinson Crusoe á deriva no meio daquele oceano de areia sem encontrar uma ilha onde pudesse aportar.
Comparado com esta aventura nas areias da Mauritânia, caro rz3r0, a
tua pelas ruas civilizadas de Dusseldorf foi uma brincadeira de crianças
